Coluna

O que acontece com o corpo após grandes perdas de peso

    Estudo analisou como estavam participantes do reality show ‘The Biggest Loser’ seis anos depois da pesagem final na TV

    O programa de televisão norte-americano “The Biggest Loser” (O grande perdedor) estreou em 2004 e em 18 temporadas acompanhou a perda de peso de pessoas muito obesas, que são filmadas durante esta trajetória. É uma atrocidade do ponto de vista de tratamento da obesidade, pois dá um prêmio financeiro rechonchudo para a pessoa que perder a maior porcentagem do próprio peso até o fim do programa. Isso os incentiva a ganhar o máximo de peso antes da pesagem inicial, e perder a qualquer custo durante o programa. Além disso, o programa espalha inverdades metabólicas e faz propagandas de produtos dietéticos duvidosos.

    Mas se o programa é um péssimo exemplo em termos de saúde, é também uma oportunidade para estudar grandes e rápidas perdas de peso. Com esse intuito, um grupo de cientistas resolveu verificar o que aconteceu com 14 participantes do programa seis anos depois da pesagem final na TV. O estudo questionou como essas pessoas se sairiam a longo prazo, já que parecia óbvio que a perda de peso sustentada durante o programa não se manteria: o show envolve restrição extrema de calorias ingeridas e intensos exercícios físicos, que basicamente ocupam o dia inteiro dos participantes.

    Participaram do estudo oito mulheres e seis homens que perderam em média 58 quilos durante as 30 semanas do programa, correspondendo a mais de um terço do peso inicial. Após seis anos, 13 dos 14 participantes do estudo haviam ganho parte do peso perdido de volta, algo não inesperado, já que se premiava financeiramente o maior perdedor. Mas o que é surpreendente, e bastante angustiante para os participantes, é o que aconteceu com o gasto de energia deles. Nossos corpos gastam energia diariamente só para nos manter vivos, em funções essenciais como o cérebro pensar, o fígado alterar moléculas quimicamente, os rins filtrar o sangue, e o coração fazer esse sangue circular. Esses gastos são conhecidos como a taxa metabólica basal, e são tipicamente bastante maiores que aqueles do exercício físico. As medidas de taxas metabólicas basais dos participantes diminuíram em média 23% durante o programa, um resultado esperado, pois o consumo de calorias em repouso diminui conforme aumenta o gasto de energia com o exercício, ou quando há restrição de calorias ingeridas. Essa diminuição de gasto de energia basal é tão significativa que não era compensada pela atividade física; os corpos dos participantes estavam gastando em média 800 calorias a menos por dia, apesar do extenso programa de exercícios ao qual se submetiam.

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    Alicia Kowaltowski é médica formada pela Unicamp, com doutorado em ciências médicas. Atua como cientista na área de Metabolismo Energético. É professora titular do Departamento de Bioquímica, Instituto de Química da USP, membro da Academia Brasileira de Ciências e da Academia de Ciências do Estado de São Paulo. É autora de mais de 150 artigos científicos especializados, além do livro de divulgação Científica “O que é Metabolismo: como nossos corpos transformam o que comemos no que somos”. Escreve quinzenalmente às quintas-feiras.

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