Coluna

O país do futuro deve se vacinar contra os erros do passado

    A vacinação no Brasil acumula uma história secular de sucessos, mas retração da imunização atingiu patamares preocupantes 

    A história é atravessada por incontáveis irrupções de doenças. Na escola, somos apresentados à varíola humana, doença que causou a morte de mais de 300 milhões de pessoas apenas no século 20. O vírus da poliomielite, responsável pela doença popularmente conhecida como paralisia infantil, também marcou esse período e entre os anos 1960 e 1980 contabilizou mais de 26 mil casos de infecção no Brasil. Além desses velhos conhecidos, somam-se a difteria, a rubéola, o tétano, a varicela (ou catapora) e outros agentes infecciosos. Todos eles, a despeito dos riscos que podem causar à nossa saúde, compartilham um único ponto positivo: podem ser evitados por vacinas.

    A vacinação no país acumula uma história secular de sucessos. Um fator decisivo para esse êxito no Brasil foi a implementação do PNI (Plano Nacional de Imunização), nos anos 1970, que promoveu a distribuição das vacinas pelo SUS (Sistema Único de Saúde) para a população, protagonizando a erradicação da varíola, além do controle de outras doenças. A tarefa complexa do monitoramento dessas infecções contou e conta com o apoio de uma rede de pesquisadores de diversas instituições, como o Instituto Butantan e a Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), bem como de servidores de carreira envolvidos com o planejamento e a aprovação das vacinas, entre tantos outros profissionais de outras instâncias. Garantir a disponibilidade dos imunizantes e seu acesso à população é peça importante nesse processo, mas temos ainda um outro ponto crítico: a adesão das pessoas. Para tanto, precisamos de políticas públicas voltadas para a criação de campanhas de conscientização, mobilização e o alinhamento de tomadores de decisão em promover o acesso à saúde.

    Infelizmente, os dados dos últimos sete anos têm mostrado uma queda crescente e perturbadora entre a população brasileira nas coberturas vacinais para diferentes doenças, quedas tão significativas que estão lembrando valores observados na década de 1980. Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde) e o Unicef, o Fundo das Nações Unidas para a Infância, essa retração também vem sendo observada no mundo, tanto que em 2022 foi registrada a maior queda contínua nos últimos 30 anos.

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    Filipe Campante é Bloomberg Distinguished Associate Professor na Johns Hopkins University. Sua pesquisa enfoca temas de economia política, desenvolvimento e questões urbanas e já foi publicada em periódicos acadêmicos como “American Economic Review” e “Quarterly Journal of Economics”. Nascido no Rio, ele é PhD por Harvard, mestre pela PUC-Rio, e bacharel pela UFRJ, todos em economia. Foi professor em Harvard (2007-18) e professor visitante na PUC-Rio (2011-12). Escreve mensalmente às quintas-feiras.

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