Coluna

Maria Firmina e 22: efemérides não deveriam ser feriados

    Datas importantes precisam ser guardadas como dias de trabalho e de reflexão. Ocasiões para lembrar dos esquecidos

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    Efemérides costumam ser entendidas apenas como momentos festivos e de celebração. Nessas ocasiões, a nação passa a se imaginar como se fosse uma só – sem divisões, contradições ou embates – e tendemos a nos deixar levar pela emoção, e a sonhar com um país que desejamos – bem diferente daquele em que vivemos. Nada como um hino, uma cerimônia pública, uma bandeira ao vento, um evento histórico para nos deixarmos embalar pela ocasião, e esquecer das nossas mazelas. E projetar o futuro. Efemérides também costumam ser comemoradas no tempo curto: passado seu momento de vigência, segue-se logo para a agenda do dia seguinte, e deixa-se para trás o já feito e realizado. Efemérides viram passado até que uma nova ocasião se apresente. Viram, assim, passado no presente. Ou então, presente do passado.

    Gostaria, porém, de inverter esse sentido primeiro e fazer das efemérides momentos contínuos de reflexão. Processos de reflexão. E, pensando nesses termos, esse nosso ano de 2022 mais se parece com um prato cheio; com direito a cardápio farto e para todos os gostos. Já tivemos (em fevereiro) as festividades que cercaram a Semana de Arte Moderna de 1922, que ocorreu em São Paulo, mas que, hoje sabemos, não foi apenas de São Paulo, uma vez que existiram vários e tantos modernismos. Em setembro chegaremos aos 200 anos da independência política do Brasil – e é sempre boa hora perguntar que independência queremos comemorar? Teremos ainda eleições e Copa do Mundo – temas que, sozinhos, já lotam um ano inteiro.

    Mas penso que vale a pena tratar não somente das “lembranças” de nossa história oficial. Mas de alguns “esquecidos” de 22. Já mencionei em outros artigos, e ainda vou mencionar em muitos outros, os 100 anos da morte de Lima Barreto; escritor que acabou não sendo convidado para a festa modernista paulistana. Negro, debochado, crítico do racismo, ele ficou de fora das celebrações dos paulistas, que acabaram, com o tempo, entrando e tomando parte central do cânone literário brasileiro – feito de inclusões e de muitas exclusões também.

    Falando nelas, gostaria de lembrar de mais um nome que tem ficado longe das festividades de 22: a escritora maranhense Maria Firmina dos Reis. Maria Firmina, como era conhecida, nasceu em 11 de março de 1822; um pouco antes do famoso 7 de Setembro às margens do Ipiranga.

    Ao que se sabe, ela era filha de João Pedro Esteves e de Leonor Felipa dos Reis e foi registrada em São Luís do Maranhão, como Maria Firmina dos Reis. Há, porém, quem sugira que teria sido filha da liberta Felipa dos Reis. A dúvida acerca do passado da escritora não parece aleatória; esse é mais um caso, entre tantos outros, em que os dados referentes à infância da população negra feminina não são conclusivos. Perdem-se em função dos silenciamentos da nossa historiografia e das lacunas de nossos arquivos coloniais.

    Em 1830 – com oito anos – Maria Firmina foi morar em Guimarães. Por lá atua como professora primária – na Escola de Primeiras Letras (como eram chamadas as escolas primárias no Império). No ano de 1859, com 37 anos, publicou o romance “Úrsula”, em que apresenta uma clara vertente abolicionista, senão nos personagens principais, ao menos naqueles mais secundários. Em 1861 editou em fascículos mais um romance – “O Jardim dos Maranhenses de São Luiz” –, este contendo temas indianistas.

    Entre 1861 e 1865, Maria Firmina envolveu-se em intensa colaboração literária, publicando poemas, enigmas, charadas e contos em vários jornais da capital do Maranhão. Entre 1867 e 1868, publicou novos poemas em periódicos literários, como o Semanário Maranhense e o Almanaque de Lembranças Brasileiras. No ano 1871, Maria Firmina lança em São Luiz a coletânea “Cantos à beira-mar”, reunindo seus poemas.

    Em 1880, Firmina cria em Guimarães uma escola mista e gratuita. No mesmo período foi aprovada (em primeiro lugar) em História da Educação Brasileira, lhe sendo concedido o título de Mestra Régia. Há registros de que existiriam, nessa época, de 12 a 15 alunos matriculados na Escola de Primeiras Letras, sob a responsabilidade da professora Maria Firmina dos Reis. Ela desempenharia, pois, o papel de tantas mulheres negras, educadoras.

    Em 1887, na Revista Maranhense, sai um conto de sua autoria, “A escrava”. Por sinal, os debates públicos e políticos entre abolicionistas, monarquistas e republicanos de São Luiz são intensos nesse momento. Nesse sentido, a despeito de ainda não conhecermos muito sobre a atuação de Maria Firmina, é possível especular que mantivesse contatos com muitas dessas associações libertárias. Sabe-se, por exemplo, que, em 1888 – ano da abolição da escravidão –, Maria Firmina teria composto a letra e a melodia do “Hino da libertação dos escravos”.

    No entanto, e a despeito de sua intensa produção literária e pessoal, Maria Firmina ficaria durante muito tempo esquecida. Foi só em 1962 que o bibliófilo Horácio de Almeida localizou um exemplar original (datado de 1859) do romance “Úrsula” e tentou identificar a autoria. Em 1975, Horácio de Almeida reeditou o romance em versão fac-símile. Nos anos 1970, o intelectual negro José do Nascimento Moraes Filho realizou uma série de pesquisas etnográficas, publicando em 1975 a biografia de Maria Firmina, sob o título “Maria Firmina – fragmentos de uma vida.

    Enfim, aos poucos, a trajetória de Maria Firmina vai despertando interesse e ganhando o destaque que bem merece. Em 2004, a Editora Mulheres/PUC-MG publicou, com pesquisa e posfácio de Eduardo de Assis Duarte, a quarta edição de “Úrsula”, incluindo o conto “A escrava”. A partir de então, o livro e a personagem ganharam maior visibilidade, e não só nos meios universitários. Mesmo assim, são muitas as lacunas que envolvem a vida da professora maranhense, que inclui uma clara dimensão diaspórica em suas obras, debatendo criticamente a escravidão e o pós-emancipação nas Américas. Aliás, o final de sua vida reafirma o perverso processo de silenciamento que se abate no passado e no presente sobre várias autoras negras.

    Em 1917 – aos 95 anos – Firmina morreu em Guimarães, ao que se sabe pobre e cega. Mas a cegueira era com certeza brasileira. Efemérides são em geral celebradas como dias feriados, de descanso. Sugiro uma inversão. Efemérides precisam ser guardadas como dias de trabalho e de reflexão. Ocasiões para lembrar dos esquecidos. Lembrar para não mais esquecer.

    ESTAVA ERRADO: A primeira versão desta coluna dizia que Lima Barreto morreu há 200 anos. Na verdade, o autor morreu em novembro de 1922, há quase cem anos. O texto foi corrigido no dia 11 de maio de 2022, às 12h10.

    Lilia Schwarcz é professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.

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