Coluna

Lima Barreto, Policarpo Quaresma e um outro patriotismo

    O patriotismo era acionado por Lima no seu sentido mais agudo, ‘contra a patriotada barata que havia contaminado os brasileiros’. Seu patriotismo não se conformava com o autoritarismo e a exclusão

    O Nexo é um jornal independente sem publicidade financiado por assinaturas. A maior parte dos nossos conteúdos são exclusivos para assinantes. Aproveite para experimentar o jornal digital mais premiado do Brasil. Conheça nossos planos. Junte-se ao Nexo!

    Lima Barreto foi sempre uma intelectual à frente de seu tempo. Denunciou como pôde as exclusões praticadas pela República, ainda no início do século passado; no contexto de montagem do regime. Também se opôs à visão reinante de que no país não havia racismos, nunca se calando acerca dos preconceitos que sentia na sua própria vida.

    Nesses dias, porém, de tanto desânimo diante dos descalabros desse governo retrógrado, me apoiei na atualidade de um livro em particular: “Triste fim de Policarpo Quaresma”, que na Inglaterra recebeu um nome no mínimo revelador – “The Patriot”.

    A obra ganhou forma pela primeira vez na edição vespertina do Jornal do Comércio entre 11 de agosto e 19 de outubro de 1911 – era o mais importante periódico em circulação no Rio de Janeiro. O original só viraria livro no final de 1915. Todavia, antes disso o herói do romance fazia sucesso como um “patriota paradoxal”; desses que gerava estranheza nas pessoas, em função de seus projetos, ideias e manias. Queria, por exemplo, introduzir o Tupi Guarani como língua nacional, assim como era veementemente contra qualquer inovação vinda do estrangeiro. Era, além do mais, um cultor das “tradições nacionais”. Gostava de violão, tanto que tomava aulas para tentar dominar a arte. Considerava-o um instrumento “genuinamente brasileiro” e a modinha o ritmo por excelência desse instrumento. Era contra o petit-pois, que trocava por guando – uma erva da família das leguminosas –, calçava botas nacionais e só tomava parati.

    Era pontual como um relógio e por isso a vizinhança estava acostumada a fiar-se na rotina dele, “sem erro de um minuto”. Pequeno, magro e sempre com seu pince-nez, andava olhando para baixo. No entanto, quando resolvia prestar atenção em alguém era como se radiografasse a “alma da pessoa ou da coisa que fixava”. O título que portava de major era cargo meramente honorífico, presente de amigo influente no Ministério do Interior “que lhe tinha metido o nome numa lista de guardas nacionais, com esse posto. A princípio protestou, mas, depois, acabou acomodando-se com a deferência, como fazia a “maior parte dos brasileiros” .

    Policarpo lia muito; constantemente literatura brasileira ou sobre o Brasil. Gostava de Gregório de Matos, Basílio da Gama, José de Alencar, Gonçalves Dias e também dos viajantes como Gândavo, Gabriel Soares e Rocha Pita. A lista dos seus favoritos era grande, sendo ele também cultor de dicionários, enciclopédias e compêndios. Sua biblioteca, aliás, era aquela de seu autor na vida real. Mas o importante é que Quaresma era “antes de tudo brasileiro”; seu amor não era “comum ou palrador”, desses do tipo “falastrão ou superficial”. Todo o seu “sentimento era sério, grave e absorvente”. Também não tinha pretensões políticas ou administrativas. Seu conhecimento sobre o país servia apenas para que meditasse sobre “recursos”, e pensasse em “remédios para o Brasil”.

    A primeira parte do romance é tomada, pois, por essa descrição da personalidade e da rotina de Policarpo e seus amigos e de sua pacata irmã Adelaide, que lhe acompanha nas aventuras. Ela que nunca “sonhara príncipes, belezas, triunfos, nem mesmo um marido”. Tudo ia de forma regular, como era regular a vida do major, até que, no auge de seu patriotismo, ele resolveu fazer um ofício para o ministro defendendo a introdução do tupi como língua oficial. Publicado em todos os jornais, o documento virou motivo de pilhéria e nosso Quaresma “encerrou-se em si mesmo”: acabou no hospício.

    O patriotismo era acionado por Lima no seu sentido mais agudo, ‘contra a patriotada barata que havia contaminado os brasileiros’. Seu patriotismo não se conformava com o autoritarismo e a exclusão

    O major lembrava o pai de Lima, rotineiro e igualmente. João Henriques, nos artigos que escreveu sobre a Ilha do Governador, onde atuava como administrador da colônia de alienados, dava conselhos sobre a agricultura e advogava o cultivo da batata brasileira no lugar da inglesa. Já Policarpo sempre se gabava das “terras férteis do Brasil” e como por aqui tudo dava – feijão, milho e até a batata inglesa, citada, como vimos, de forma recorrente pelo pai do escritor.

    E, da mesma forma que o major, o administrador das Colônias de Alienados se ensimesmou e enlouqueceu. Entretanto, diferentemente da história do pai, cujo último capítulo de vida estava “sendo escrito” numa poltrona da casa de Todos os Santos onde o escritor morava, e cada vez mais distante do mundo, Policarpo permanecia cheio de planos e não se dava por vencido. Tanto que, na segunda parte do livro, ele compra um sítio para onde se muda com a irmã. O lugar apresenta paralelos evidentes com a descrição que Lima deixou do seu sítio na Ilha do Governador, além da semelhança no nome — o sítio do Sossego ficava no Curuzu; o de Policarpo, no Carico. Já igualmente um paralelo afetivo com a infância do escritor – também a casa do major ficava bem no topo de uma colina. Portanto, e como sempre, a literatura de Lima é de alguma maneira autobiográfica: a esperança e a decepção eram de seus personagens e do escritor também.

    Policarpo deixou os subúrbios, onde morava – aliás, como a família de Lima –, para se dedicar à sua nova “missão”. Longe da cidade, agora seguia nova vida junto à lavoura. Roçava a terra como João Henriques ensinara em seus artigos: arava, tirava os matos, tratava do solo até que ficasse limpo e pronto para o roçado. Era contra adubos, pois acreditava na fertilidade natural do Brasil. Bem que Policarpo pensou numa reforma agrária para solucionar esses males. No entanto, desanimado com as formigas que insistiam em invadir sua propriedade, o protagonista aprontou-se para nova aventura.

    Na terceira e última parte do livro encontramos Policarpo Quaresma de volta à cidade, e informado acerca de um acontecimento que entrara de vez no cotidiano da população: a Revolta da Armada. Juntando dois mais dois, o major fez um memorial contendo suas “vitoriosas experiências” com a agricultura local e o entregou ao marechal Floriano Peixoto. Este, evidentemente desinteressado do tema, convidou o amigo a se alistar no Exército e combater pela pátria contra os inimigos. Patriota, o herói aceitou o desafio e foi listado como major; o que era título honorífico agora virava realidade. A revolta passou a figurar no dia a dia de Quaresma, como entrara na vida de Lima. No fim do romance, o protagonista se desaponta com a guerra, arrepende-se por ter matado um homem, e sai ferido levemente. Ao término do movimento político, ele acaba preso – sem ter certeza dos motivos – e termina seus dias questionando-se acerca do próprio patriotismo. Ele não passava de um “visionário” e a “pátria que quisera ter era um mito; um fantasma criado por ele no silêncio do seu gabinete”.

    Policarpo era um patriota distinto dos demais, pois sua pátria era aquela retirada dos livros, da sua biblioteca, do seu gabinete e feita apenas de ideal – não do interesse pessoal. “Triste fim” é construído, desta maneira, a partir de uma série de desencantos: com a política, com os livros, com o Brasil. Há também nele uma crítica dura e teimosa ao autoritarismo e à repressão ao pensamento divergente, cujo destino só pode ser o manicômio, a prisão ou a morte. Por isso, esse é um livro triste, amargurado, e que retoma o pessimismo que já ia se colando à própria história de Lima Barreto. Aqui ele vira quase uma tópica: “e assim é que ia para a cova, sem deixar traço seu, sem um filho, sem um amor, sem um beijo mais quente, sem nenhum mesmo, e sem sequer uma asneira”.

    A ideia de patriotismo é acionada por Lima no seu sentido mais agudo. Era direcionada “contra a patriotada barata que havia contaminado os brasileiros”, escrevia ele na revista Careta. Seu patriotismo era outro, pois não se conformava com o autoritarismo reinante e a exclusão social. A pátria que queria, assim, muito outra.

    Nunca ler Lima Barreto foi tão atual e urgente. O escritor era famosa e abertamente “do contra”. Contra os militares, contra os políticos, contra as elites vaidosas e bovaristas que viviam no Brasil como se estivessem no estrangeiro. Em 1922 como em 2022, torcer a favor era, no limite, torcer contra.

    Lilia Schwarcz é professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.

    Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.