Coluna

Conflito Ucrânia e Rússia: o fim do ‘fim da história’

    Invasão marca o retorno a uma era que parecia superada nas relações internacionais. Esse retorno só é possível por conta do enfraquecimento da democracia liberal enquanto elemento norteador da política ao redor do mundo

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    A invasão da Ucrânia pela Rússia parece, ao menos no calor dos acontecimentos, um marco de uma transformação importante nas relações internacionais. Como no mais das vezes, trata-se menos de uma ruptura repentina, e mais do resultado de um acúmulo de movimentos nessa direção – haja vista a própria anexação da Crimeia e a guerra separatista fomentada pela Rússia na região do Donbass, no leste da Ucrânia, já desde 2014. Mas a ideia de uma potência regional violando a soberania territorial de um país vizinho é algo que, desde a Segunda Guerra Mundial, parecia pertencer ao passado, sepultada pelo mundo bipolar da Guerra Fria, e mais ainda pela “Pax Americana” que a sucedeu. Invadir países era prerrogativa de superpotência global, e sempre respeitando a noção de integridade territorial dos Estados-nação, ao menos enquanto princípio.

    Não sou especialista em relações internacionais, mas me parece inegável que esse novo cenário tem como precondição uma mudança sísmica no contexto político subjacente. Nos anos 1990, tal como celebremente formulou o cientista político Francis Fukuyama, vivíamos sob a égide do “fim da história”. Esse termo foi comumente mal-interpretado como se constituísse uma previsão de que a história da humanidade houvesse chegado a algum tipo de estado estacionário. Na verdade, tratava-se da observação de que, naquele momento, a ideia da democracia liberal havia se consolidado em um ideal global de regime político, na direção do qual o mundo estava em processo de convergir.

    Não é que todos os países, num passe de mágica, houvessem se tornado democracias liberais – a China estava aí para mostrar que não era o caso. Mas de fato parecia que mesmo regimes como o chinês estavam num caminho, por longo e tortuoso que viesse a ser, nessa direção. A própria ideia de integrar a economia chinesa à Organização Mundial do Comércio era colocada como uma aposta em consolidar uma economia de mercado que forçosamente conduziria a uma liberalização política. As inúmeras ditaduras que caíram ao longo dos anos 1980 e 1990 – nos países do bloco soviético, na América Latina, e alhures – deram lugar a regimes que afiançavam sua adesão, ou ao menos aspiração, à ideia da democracia liberal. Mesmo os autocratas sobreviventes gesticulavam na direção de buscar alguma legitimidade democrática, por exemplo ao continuar realizando eleições, muitas vezes com alguma sombra de oposição.

    É o enterro desse consenso em torno da democracia liberal que a crise atual parece simbolizar. Não à toa, Vladimir Putin assume o papel de coveiro – ele que é um verdadeiro padrinho das inúmeras vertentes iliberais que vêm ganhando terreno político nos mais diversos países. Dos escombros do breve experimento liberal pós-soviético, Putin saiu para ilustrar que um autoritarismo assertivo era possível no século 21.

    É o enterro de um consenso em torno da democracia liberal que a crise atual parece simbolizar. Não à toa, Vladimir Putin assume o papel de coveiro

    O primeiro grande insight putinista foi se dar conta de que uma alternativa autocrática podia triunfar no mundo pós-internet. Ao longo dos séculos, a censura e o controle de acesso à mídia eram ferramentas inegociáveis, das quais regimes autoritários não podiam abrir mão. Tal controle tornou-se inviável com a revolução no acesso à produção e ao consumo de informação representada pelo surgimento da internet, e particularmente das mídias sociais. Putin mostrou que não era preciso ter os níveis chineses de capacidade estatal necessários para censurar a internet de forma minimamente efetiva. Bastava fazer uso da própria capacidade essencialmente infinita de gerar e difundir conteúdo, trazida pela internet, para poluir o ambiente com desinformação e narrativas, de modo a gerar confusão e apatia. Esse insight foi apreendido por diversos aspirantes a autocratas pelo mundo afora, inclusive no coração da superpotência americana.

    Mas Putin não se limitou a liderar por meio de exemplo. Ao contrário, o regime russo dedicou-se a exportar sua capacidade de gerar ruído político por meio das novas tecnologias de mídia. Há controvérsias sobre se a documentada interferência nas eleições americanas de 2016, ou no referendo do Brexit, foi de fato decisiva para a ocorrência dos resultados surpreendentes que se deram nesses pleitos. Não resta dúvida, contudo, que a oportunidade de contar com a ajuda dessa interferência gera incentivos políticos que se refletem em ganhos estratégicos para o regime russo. A notável afinidade de Trump para com Putin é o exemplo mais claro disso.

    Esses incentivos se revelam agora no Brasil: muito possivelmente a disposição de Jair Bolsonaro em visitar Putin às vésperas da invasão, e prestar-lhe solidariedade, tem a ver com o interesse de contar com o suporte tecnológico russo para criar ruído no cenário eleitoral brasileiro. Por que razão estaria um vereador carioca sentado à mesa com os dois presidentes? A postura de neutralidade preconizada por Bolsonaro mesmo após a clara agressão russa corrobora esse alinhamento.

    Contudo, Putin por si só não seria capaz de colocar a democracia liberal em crise tão profunda, nem mesmo se somarmos os seus aliados do naipe de Trump, Bolsonaro, Salvini, Le Pen ou Orbán. Mesmo somada a Índia de Modi, com seu bilhão e meio de habitantes, não haveria peso suficiente para tal.

    É aí que entra o papel da China. O grande motor do “fim da história” e do triunfo da democracia liberal foi a evidência de que a grande alternativa que se contrapunha a ela no século 20, o socialismo soviético, foi um fracasso retumbante e incontestável do ponto de vista econômico. O que fazia a democracia liberal parecer uma aspiração universal e inevitável era sua associação com a prosperidade econômica.

    O sucesso econômico da China, sem fazer qualquer concessão liberal no âmbito político, quebrou essa associação. Ao abandonar qualquer pretensão de um modelo econômico socialista e abraçar a economia de mercado, mas ao mesmo tempo mantendo (e recentemente aprofundando) a opção pelo autoritarismo, a China mostrou, para muitos, que era possível compatibilizar prosperidade e autocracia.

    De certo modo, a invasão da Ucrânia pela Rússia, repugnante e injustificável como é, não deixa de ser um teatro secundário para o drama geopolítico do momento. A Rússia é uma potência nuclear, mas com uma economia relativamente modesta e estagnada, não pode aspirar ao palco principal. Como fica claro para qualquer um que, como eu, está em Washington (EUA), é a China que verdadeiramente ocupa e tira o sono dos estrategistas americanos. E é o sucesso econômico da China que, fundamentalmente, dá sustento e alimenta a ascensão das alternativas autocráticas pelo mundo, cada vez menos envergonhadas de seu iliberalismo.

    Filipe Campante é Bloomberg Distinguished Associate Professor na Johns Hopkins University. Sua pesquisa enfoca temas de economia política, desenvolvimento e questões urbanas e já foi publicada em periódicos acadêmicos como “American Economic Review” e “Quarterly Journal of Economics”. Nascido no Rio, ele é PhD por Harvard, mestre pela PUC-Rio, e bacharel pela UFRJ, todos em economia. Foi professor em Harvard (2007-18) e professor visitante na PUC-Rio (2011-12). Escreve mensalmente às quintas-feiras.

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