Coluna

A esperança no Brasil renasce das cinzas do carnaval

    Escolas de samba abraçaram de maneira histórica a celebração da cultura negra, trazendo para a avenida enredos que tratavam das lutas, da religiosidade, da tradição e da força do povo negro

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    A tensão entre a vida e a morte, apelando com certo abuso para a chave freudiana, abre espaço para a imaginação. A consciência única entre os humanos de que vamos morrer é um problema filosófico original, a partir do qual praticamente todas as maneiras de apreensão do mundo nascem. Arrisco a dizer que, na origem, todas as formas de conhecimento, de espiritualidade e de arte se encontram nessa busca desesperada por um sentido. Um conforto. Um vislumbre de permanência, legado e ancestralidade que permanece antes e depois de nossa breve passagem pela vida como conhecemos.

    Talvez, por isso, a observação da experiência da morte no mundo moderno equivale à contemplação da miséria humana. São atrozes e seletivas as muitas maneiras de morrer. Para a maioria absoluta das pessoas, trata-se do momento onde nos encontramos mais desprovidos de arbítrio, tomados quase sempre por espanto, perplexidade e incerteza. A maneira como lidamos com os sentimentos e as paixões que cercam a experiência da morte - a qual se confunde, inevitavelmente, com a experiência da vida - diz muito sobre como reconhecemos o nosso pertencimento a uma humanidade comum.

    Um rápido olhar sobre o mundo de hoje parece comprovar que o “partido da morte” - aquele que busca manipular o medo para melhor exercer controle totalitário sobre todos - busca o adoecimento coletivo ao transformar a vida em luta permanente contra o sofrimento. O monopólio sobre a capacidade de infligir dor, regular o viver e o morrer, e reconhecer ou não o direito ao luto é o poder que busca o partido da morte, que precisa que estejamos constantemente sob o domínio do medo. Por isso, observamos um trabalho permanente de anulação da humanidade de uma grande parte dos povos e culturas que habitam o planeta. Tem sido assim desde a experiência colonial. O capitalismo globalizado se ergueu sobre o genocídio dos povos indígenas e das vidas usurpadas de milhões de seres humanos subalternizados pelo tráfico transatlântico de africanos, liderado pelas potências políticas e comerciais europeias, especialmente entre os séculos 15 e 19.

    Não foi diferente no Brasil, destino de quase metade do total de cerca de 12 milhões de pessoas escravizadas trazidas do continente africano para as Américas. O avanço e a continuidade da violência - em particular contra povos indígenas, jovens negros nas favelas e periferias e mulheres - é um retrato devastador da nossa indiferença coletiva com as vidas marcadas pelo racismo estrutural que ordena as relações sociais e econômicas no Brasil. Quando notícias de crianças executadas por pistoleiros embaixo da cama, adolescentes indígenas estupradas e mortas, execuções praticamente diárias de jovens negros nas favelas e periferias, não são capazes de tirar o nosso sono, nem sacudir o nosso estado de prostração conformada, o alarme do risco de que estamos perdendo definitivamente a nossa humanidade deveria estar soando por todos os canais.

    A maneira como lidamos com os sentimentos e as paixões que cercam a experiência da morte diz muito sobre como reconhecemos o nosso pertencimento a uma humanidade comum

    Em meio a tantas más notícias, o carnaval fora de época de 2022 foi capaz de resgatar um pouco da nossa cidadania e muito da nossa alegria. Nas ruas e na avenida, em particular na cidade do Rio de Janeiro - o berço de onde nasceu e ainda se nutre o partido da violência, que nos governa atualmente - assistimos a um inesquecível espetáculo de democracia. Nas ruas, reivindicando o seu caráter público e rebelde, saiu uma multitude de blocos auto-organizados, sem dinheiro, nem qualquer estrutura de apoio do Estado. As prefeituras de cidades ícones como a do Rio de Janeiro e a de São Paulo, preferiram ignorar, sob o falso pretexto de proteção da pandemia, a reivindicação legítima de realização da festa popular, ao mesmo tempo em que fechava os olhos para as festas e eventos privados que se multiplicaram para os que tinham dinheiro para se aglomerar, sem medo de ser feliz. No fundo, o que está em discussão, conforme ressaltaram Fernanda Amin e Alessa Camarinha, em excelente artigo na Folha de S.Paulo, é uma disputa sobre a quem cabe a decisão da ocupação cultural do espaço público.

    Por outro lado, na passarela do samba no Rio de Janeiro, as escolas de samba abraçaram de maneira histórica a celebração da cultura negra, trazendo para a avenida enredos que tratavam das lutas, da religiosidade, da tradição e da força do povo negro. Entre as 12 escolas do grupo Especial, nada menos do que nove escolheram temáticas negras.

    A campeã incontestável, a Acadêmicos do Grande Rio, trouxe para a avenida um enredo poderoso sobre Exu, orixá central nas cosmologias africanas e de enorme importância nas tradições religiosas afrobrasileiras, em particular no Candomblé e na Umbanda. Ao apresentar para uma audiência virtual e presencial de centenas de milhares de pessoas uma narrativa de celebração da criatividade e da potência vital de Exu - um orixá constantemente demonizado pelo racismo religioso - a Grande Rio proporcionou um espetáculo histórico, inovador e profundamente comovente. Poucas vezes na história do carnaval o título de campeã, o primeiro da escola, foi reconhecido de maneira tão unânime e avassaladora.

    A vice-campeã, a Beija-Flor de Nilópolis, colocou no centro da sua narrativa a tradição do pensamento Negro, nas suas mais diversas manifestações, intelectuais, artísticas e filosóficas. Na melhor tradição dos griôs africanos, o desfile da Beija-Flor apresentou a história e as contribuições essenciais do conhecimento e das tradições dos povos negros para a humanidade, em particular para o Brasil. Uma história que tem sido vítima de apagamentos constantes por parte da tradição colonial, europeizante, encontrou na festa maior das escolas de samba o seu mais contudente manifesto. Foi arrebatador ver a avenida cantar um samba-enredo que celebra a re-existência da cultura negra e a força criativa de seus pensadores em todas as áreas do conhecimento. Não por acaso, como destaque principal de um dos principais carros alegóricos, veio a dama maior da escrevivência negra, Conceição Evaristo, autora da frase que talvez seja a síntese da retomada do carnaval com uma pegada preta: “eles combinaram de nos matar, nós combinamos de não morrer”. Quem viu jamais esquecerá.

    As escolas de samba deram um banho de potência e de riqueza do Brasil. Essa potência, no entanto, quando confrontada com a força do racismo e da violência, expressas pelo partido da morte que nos governa, provoca sentimentos de frustração e um medo de que, talvez, ainda não estejamos preparados para realizar o sonho de um país generoso, solidário e justo pelo qual tantos lutaram e morreram. No entanto, escolho acreditar no simbolismo do Exu na avenida, abrindo caminho para a justiça, a beleza e a democracia. Engolindo quem nos mata e envenena. Fazendo das cinzas desse carnaval carregado de simbologias o alimento da nossa esperança. Não tem volta, abram-alas, saiam da frente, vamos passar.

    Atila Roque é historiador, cientista político e diretor da Fundação Ford no Brasil. Exerceu papel de liderança em diferentes organizações da sociedade civil no Brasil e no exterior. Foi diretor-executivo da ActionAid International nos EUA e do INESC (Instituto de Estudos Socioeconômicos). Antes de assumir a Fundação Ford, em 2017, foi diretor-executivo da Anistia Internacional no Brasil. Faz parte do Conselho Diretor do GIFE (Grupo de Institutos, Fundações e Empresas).

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