Coluna

A difícil arte de fazer escolhas: quem elege quem?

    Em tempos de desinformação desenfreada, precisamos ficar de olho em quem forma ‘a tal da opinião pública’

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    Em menos de 60 dias os brasileiros irão às urnas para escolher o presidente da nação. Se essa escolha sempre foi a pedra de toque para moldar o futuro do país, no cenário em que vivemos ela é imprescindível diante do clima de desesperança (para não dizer desespero) retratado não apenas nos levantamentos de opinião sobre todas as áreas do país, mas nas redes sociais, na mídia em geral, nas rodas de conversa, no trabalho, na escola, nas famílias e, sobretudo, no semblante de um povo que tem 33 milhões de compatriotas com fome. Pesquisas vão e vêm, números sobem e descem, e a pergunta que não quer calar é: quem vai ganhar o pleito, tendo à frente a imensa responsabilidade de reconstruir um país que se apresenta esgarçado?

    O cientista político Alberto Carlos Almeida e o geógrafo Tiago Garrido, autores do livro “A mão e a luva: o que elege um presidente” tomaram emprestado o título de um clássico do grande Machado de Assis – “A mão e a luva” – para retratar as nuances, dilemas e conflitos que envolvem as escolhas, e em especial, a do presidente da República. “‘A mão e a luva’ é o título de um dos primeiros romances de Machado de Assis. Ele foi tomado emprestado porque a luva é a opinião pública e a mão que melhor se encaixa nela é o candidato vencedor. Em toda eleição há somente uma luva e apenas uma mão, dentre várias, que será escolhida por esta luva”, segundo os autores. Neste romance, que é o segundo do Bruxo do Cosme Velho, somos apresentados à Guiomar, a personagem principal do livro, que se debate entre três pretendentes: Estêvão, o protótipo do homem romântico apaixonado; Jorge, um rapaz rico, de família tradicional sem nenhum pendor para o trabalho, e Luís Alves, um advogado ambicioso, seu vizinho de chácara e advogado de sua madrinha, que vê em Guiomar a filha perdida. Para a baronesa, a melhor escolha seria Luís, mas caberá à afilhada a palavra final. Como em um contrato societário, é emblemático e extremamente ilustrativo do processo eleitoral o diálogo entre Guiomar e Luís quando decidem se casar. A moça logo pergunta:

    “– Mas que me dá você em paga? Um lugar na câmara? Uma pasta de ministro?

    - O lustre do meu nome – respondeu ele.

    Guiomar, que estava de pé defronte dele, com as mãos presas nas suas, deixou-se cair lentamente sobre os joelhos do marido, e as duas ambições trocaram o ósculo fraternal. Ajustavam-se ambas, como se aquela luva tivesse sido feita para aquela mão.”

    O eleitor brasileiro se pauta nas vantagens pessoais e ganhos concretos para sua vida cotidiana para fazer sua escolha

    Como dizem Almeida e Garrido, “há menos mulheres do que homens na política brasileira. Todavia, a opinião pública é feminina e é ela quem decide a eleição. O Brasil é dividido em três eleitorados, o que assegura a existência da esquerda, o que garante a existência da direita e o eleitorado que muda de voto e, assim, faz com que haja alternância no poder. A nossa heroína tem um pouco de cada eleitorado, mas sempre escolhe aquele que – segundo ela – lhe trará o futuro mais promissor”. Ou seja, segundo a análise que eles realizaram sobre as oito eleições presidenciais ocorridas no Brasil entre 1989 e 2018, o resultado de uma eleição presidencial é condicionado pela situação do país. “Ao fim e ao cabo, a opinião pública é a peça-chave de qualquer eleição e ela varia em função do que ocorre no país, em particular devido às flutuações do bem-estar individual e familiar”, escrevem eles no texto de abertura do livro. Tal como Guiomar, o eleitor brasileiro se pauta nas vantagens pessoais e ganhos concretos para sua vida cotidiana para fazer sua escolha. E, nesse sentido, a opinião pública é a “entidade” capaz de definir o que e quais são esses ganhos, e, por mais complexa e volátil que ela seja, precisamos atentar para onde ela aponta.

    Em tempos de desinformação desenfreada é preciso ficar de olho em quem forma “a tal da opinião pública”, e é aí onde entram as mídias e, em especial, as redes sociais. Não à toa há um enfoque especial de toda a sociedade voltado para elas e para os chamados influenciadores digitais, afinal, o peso deles já foi testado e atestado nas eleições americanas em 2016 com Donald Trump à frente de uma estratégia de difusão em massa de fake news como nunca se viu antes na história das democracias, e em 2018, aqui no Brasil, quando assistimos a uma guerra de notícias falsas que culminou em processos que até hoje tramitam na Justiça. Não há dúvida que a escolha sempre será de quem aperta o botão na urna eletrônica. Porém, mais do que nunca, é preciso se informar por meio de uma curadoria informacional minuciosa e exigente para selecionarmos os conteúdos de qualidade que nos ajudarão a estruturar a nossa opinião e assim, embasar solidamente a nossa opção de voto.

    Por mais que saibamos que vivemos uma espécie de “ditadura dos algoritmos” que escolhem para nós o que vemos, lemos, ouvimos e apreciamos no universo online, no offline, no mundo real, aquele que vivemos aqui e agora, somos nós que rolamos os dados. Como afirma a professora associada da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, Giselle Beiguelman: “algoritmos que se baseiam na verificação de padrões coletados a partir de metadados (...) permitem que operemos a dadosfera. Mas transformar dado em informação, e a informação em conhecimento, depende da expertise, análise e interpretação. Isso é curadoria de conteúdo, um privilégio humano, demasiadamente humano”. A escolha da luva que vai caber perfeitamente em nossas mãos ainda é nossa. Vale refletir sobre esse poder e exercê-lo com sabedoria e convicção nessa eleição que se aproxima!

    Januária Cristina Alves é mestre em comunicação social pela ECA/USP (Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo), jornalista, educomunicadora, autora de mais de 50 livros infantojuvenis, duas vezes vencedora do Prêmio Jabuti de Literatura Brasileira, coautora do livro “Como não ser enganado pelas fake news” (editora Moderna) e autora de “#XôFakeNews - Uma história de verdades e mentiras”. É membro da Associação Brasileira de pesquisadores e Profissionais em Educomunicação - ABPEducom e da Mil Alliance, a Aliança Global para Parcerias em Alfabetização Midiática e Informacional da Unesco.

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