Coluna

‘Cala a boca já morreu, quem manda na minha boca sou eu!’ Será? 

    Nesses dias em que todos, teoricamente, podem se expor, a liberdade de expressão tornou-se um conceito vazio, porque não se pratica

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    “Cala a boca já morreu, quem manda na minha boca sou eu!” Este ditado popular, tão comum entre as crianças – especialmente para aquelas que viveram nos anos de chumbo desse nosso Brasil – nunca esteve tão em voga quanto nos dias de hoje. Seja na boca da ministra do Supremo Tribunal da Justiça Cármen Lúcia, ou na do eterno roqueiro Lulu Santos. A censura “voltou à moda” no mundo inteiro e, desafortunadamente, ao nosso cotidiano também, travestida de muitas formas: no banimento dos livros nas salas de aula, no corte profundo daqueles que falam, supostamente, sem ter “lugar de fala”, no cancelamento dos que discordam de nós e no acolhimento cego daqueles que dizem o que queremos ouvir. “Pai, afasta de mim esse cálice!”, cantava Chico Buarque de Hollanda em “Cálice”, canção escrita em 1974, no auge da censura, e lançada somente em 1978, cheia de metáforas e duplos sentidos, que tornou-se um hino de denúncia, protesto e resistência ao que acontecia nos porões da ditadura militar brasileira. Nada mais atual no contexto em que vivemos.

    Uma das faces mais perversas da censura tem se revelado, como sempre, por meio das produções artísticas e culturais, seguida de perto pelo trabalho da imprensa. Afinal, a arte imita a vida, e não é de se admirar que um livro como “Maus”, de Art Spiegelman (Companhia das Letras), um clássico dos quadrinhos, no qual o autor conta, de maneira extremamente criativa e contundente, por meio da alegoria de que os gatos são os nazistas, os ratos, os judeus, os porcos são os poloneses e os cães, os americanos, a experiência de seu pai durante a passagem pelo campo de Auschwitz, durante a Segunda Guerra Mundial. Vencedor do Pulitzer, um dos mais prestigiados prêmios de literatura e de jornalismo do mundo, “Maus”, lançado em 1991, foi banido recentemente em diversas escolas americanas, ao lado de tantas outras obras de importância significativa, que são um instumento raro para se discutir temas fundamentais para a formação ética e moral dos jovens leitores, como o Holocausto. Sob a alegação de que são “inapropriados” para a discussão em sala de aula - no caso de “Maus”, a justificativa foi que representar judeus como ratos seria endossar o discurso antissemita - e que são os pais quem devem escolher como tratar “temas difíceis” com seus filhos, 39 dos 50 estados americanos estão excluindo dos currículos livros como este. Mas como a obra que tem o que dizer é sempre soberana, a reação do grande público veio à galope: dias depois do cancelamento, “Maus” voltou à lista dos mais vendidos no mundo inteiro.

    Aqui no Brasil não é diferente. Monteiro Lobato que o diga! Um dos maiores autores da nossa literatura infantojuvenil, o criador da icônica personagem Emília e do Visconde de Sabugosa, que se vivo faria 140 anos em 2022, continua sendo cancelado por vozes sempre muito “bem-intencionadas” pois, segundo dizem esses “arautos da proteção da infância”, ele era racista e preconceituoso. “Matar uma onça, chamar tia Nastácia de negra, chamar Dona Benta de velha e ironizar o desinteresse do governo por problemas do povo infelizmente ocorrem na vida brasileira. Manifestam disfarçada ou escancaradamente valores e atitudes correntes entre nós. E que por isso, registradas na literatura, - mais do que podem - precisam ser trazidas para a sala de aula. Pois talvez a maior e mais bela função da boa literatura - como a de Monteiro Lobato – seja nos humanizar – nós, seus leitores - fazendo-nos viver por empréstimo, a partir da leitura, vidas alheias, sentimentos que nunca experimentamos, situações de que nunca participamos”, afirma a professora Marisa Lajolo, uma das maiores especialistas em literatura infantojuvenil do país, celebrando a edição dos livros “Lobato na escola – roteiro de leitura”, organizados por Milena Ribeiro Martins e editados pela Paulus, que trazem um conjunto de sugestões de atividades de leitura com as obras de Lobato. “Pai, afasta de nós esse cálice”!

    A censura ‘voltou à moda’ no mundo inteiro e, desafortunadamente, ao nosso cotidiano também, travestida de muitas formas

    Por sua vez, a imprensa segue tragando essa “bebida amarga”. No dia 3 de maio, em que se celebrou o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, não houve o que comemorar. Em meio a uma crise que combina o assassinato de centenas de jornalistas no mundo inteiro, passando pelo descrédito da população em seu trabalho e pela a polarização da mídia potencializada pelas redes sociais, a imprensa se debate entre a desinformação, a opinião e a utopia da objetividade jornalística. Como canta Chico, “Melhor seria ser filho da outra/ Outra realidade menos morta/ Tanta mentira, tanta força bruta”....! Haja resiliência para não perder o juízo. “Pai, afasta de nós esse cálice”!

    Além de termos de lidar com a censura que vem de fora, muitos de nós, jornalistas, escritores, artistas, professores, já não podemos mais proferir o ditado do “cala a boca...”, até porque já sabemos que somos nós que mandamos na nossa. Porém, diante das ameaças de toda ordem – inclusive à vida, como vemos muitos jornalistas tendo de lidar – a censura vem de dentro de nós. Já não falamos para nos proteger – e também ao outro que nos importa – não escrevemos para que não nos cancelem e calamos para não começar uma polêmica e ver a discussão descambar para a agressão. A autocensura é o “monstro da lagoa” do nosso tempo, que assombra a realidade de quem ousa refletir sobre o que diz e o que gostaria de dizer. “Pai, afasta de nós esse cálice”!

    Por outro lado, há os que, em nome da liberdade de expressão, extrapolam todos os limites e passam por cima da lei, da ordem, do respeito ao outro, dos parâmetros aceitáveis para a convivência entre seres humanos. Escondidos pelo anonimato das redes sociais, tribos ideológicas defendem absurdos respaldadas pelo “direito à livre expressão”, como se este fosse um passe ilimitado, transformando expressão e opinião em agressão barata e ameaça à integridade do outro. Se a liberdade de expressão não levar em conta os princípios democráticos, a ética e o respeito às diferenças, ela não poderá ser chamada como tal, mas tão somente o exercício narcísico de exibição da face dos indivíduos, seja ela qual for.

    Nesses dias em que todos, teoricamente, podem se expor e às suas crenças, a liberdade de expressão tornou-se um conceito vazio, porque não se pratica. E quando a experiência não reflete as ideias, vemos esse cenário que as redes nos revelam cotidianamente: cala boca já morreu, pois todos falam, ninguém ouve e então seguem (os influenciadores que nos contem!), mesmo sem saber onde ir. Comentam, compartilham, curtem, e não sabem identificar e nem dizer o que pensam. “Pai, afasta de nós esse cálice”!

    Januária Cristina Alves é mestre em comunicação social pela ECA/USP (Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo), jornalista, educomunicadora, autora de mais de 50 livros infantojuvenis, duas vezes vencedora do Prêmio Jabuti de Literatura Brasileira, coautora do livro “Como não ser enganado pelas fake news” (editora Moderna) e autora de “#XôFakeNews - Uma história de verdades e mentiras”. É membro da Associação Brasileira de pesquisadores e Profissionais em Educomunicação - ABPEducom e da Mil Alliance, a Aliança Global para Parcerias em Alfabetização Midiática e Informacional da Unesco.

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