Coluna

Um guia para acabar com a pandemia de covid-19

    Se não contribuirmos conjuntamente agora, o vírus continuará a se propagar e esse pesadelo nunca terá fim. Deixo aqui algumas dicas práticas de como proteger a si mesmo e aos outros

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    Há aproximadamente um ano, um vírus chamado Sars-CoV-2 mudou todas as nossas vidas. Estamos cansados e frustrados, mas o vírus continua firme no seu trajeto avassalador. Em meio a isso, vejo pessoas confusas, frequentemente sem acesso à informação confiável e atualizada, ou focando atenção demasiada em detalhes que não carregam grande importância. Vou tentar organizar e priorizar aqui informações essenciais, porque eu já cansei, e quero sair o mais rápido possível dessa vida cheia de limitações!

    Vamos começar com notícia boa: não é necessário higienizar superfícies obsessivamente. No início da pandemia, se acreditava que o vírus se transmitia principalmente por partículas maiores, que levam à infecção quando encostamos nelas e depois nos olhos, nariz ou boca (como ocorre com várias outras doenças respiratórias). Hoje sabemos que o principal mecanismo de transmissão não é esse, e sim por meio do ar, quando respiramos próximos de pessoas infectadas. Higienizar as mãos e evitar tocar o rosto continua sendo uma boa prática geral de saúde, mas não é necessário se preocupar com a limpeza minuciosa de todas as suas compras, além da higiene normal esperada no preparo de alimentos.

    Porque o vírus está no ar, evite ao máximo trocar ar ambiente com pessoas diferentes – é a maneira mais provável de pegar covid. Aqui vale destacar que não é porque uma atividade é permitida que deve ser considerada segura. Os donos de bares que me perdoem, mas não posso recomendar que se frequente locais onde, por natureza da atividade envolvida, há alta chance de contágio. Não vá. Além disso, seja o chato do grupo de condomínio ou amigos, não somente deixando de frequentar, mas também denunciando festas e outras aglomerações. Explique que é melhor perder amizades por ser chato do que por óbito.

    Se precisar sair de casa, use máscara. Máscaras com duas ou três camadas de tecido de trama fechada filtram o ar adequadamente para finalidade de uso da maioria de nós que não estamos em linhas de frente, e conseguimos manter alguma distância dos outros em locais públicos. Há opções comerciais com materiais que fazem filtragem melhor ainda, mas mais importante que procurar esses materiais é prestar atenção em como se usa a máscara. Parece evidente, mas minha pesquisa pessoal observacional indica que não é, então reafirmo: máscaras devem cobrir tanto o nariz quanto a boca porque (pasmem!) inspiramos e expiramos por ambos os orifícios. Máscaras devem permanecer em cima do nariz e boca o tempo todo, sem serem retiradas para falar (como, inacreditavelmente, já vi várias pessoas fazerem), ou permitir que escorreguem do nariz ou queixo, como ocorre com máscaras mal ajustadas. Devem ser limpas, secas e se adaptar bem a todo o contorno do rosto, sem vãos nas laterais ou no nariz. Não se deve cruzar as alças para “passar um ar” pelos lados (outra tendência que observo com frequência) – o objetivo é justamente respirar através do material da máscara.

    É simples: quanto mais nos isolarmos, quanto mais usarmos máscaras corretamente, e quanto mais exigirmos do governo a distribuição de vacinas, mais perto do final desse pesadelo estaremos

    Não acredite no uso de supostos medicamentos, como suplementos, esquemas nutricionais, ou o já muito mais do que absolutamente desprovado “tratamento precoce” para covid. Não há medicamento, vitamina, superalimento ou “histórico de atleta” que previna ou trate especificamente a infecção por Sars-CoV-2. Denuncie profissionais de saúde e entidades que difundem essa falsa informação, removendo o foco das ações efetivas de combate à pandemia.

    Exija dos governantes apoio aos serviços públicos de saúde e à ciência brasileira. Denuncie os graves cortes ao orçamento científico e a redução no apoio à formação de cientistas propostos para 2021. Exija que se protejam as verbas do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, 90% das quais estão ameaçadas por vetos presidenciais. Exija que se reverta o corte na cota de importação de insumos para ciência e tecnologia (incluindo vacinas). Repita até a exaustão: ciência, tecnologia e inovação não são gastos, são investimentos.

    Assim que for sua vez, tome a vacina. Não importa qual for, pois todas as aprovadas até o momento são extremamente seguras e altamente eficientes contra quadros graves da doença. Pare de discutir a eficácia das vacinas, pois não é comparável. Gaste seu tempo exigindo do governo que adquira rapidamente imunizantes e insumos para sua produção local. Há várias boas opções sendo oferecidas para o Brasil, mas a aquisição tem sido lenta. Exija também que se organize centralmente o sistema nacional de vacinação, que está fragmentado, confuso e ineficiente, apesar do excelente histórico vacinal do Brasil. O importante é ter vacinas em quantidades necessárias para que as pessoas possam recebê-las nos pontos de vacinação, com programas vacinais organizados com prioridades claras, estabelecidas por especialistas.

    Não se aproveite do “free-riding” típico brasileiro (como muito bem descreveu a colega colunista Cristina Pinotti) e da desorganização do governo federal para tomar vacina antes de ser sua vez. Sou médica por formação, mas atuo como cientista e professora, e portanto me vacinarei quando chegar a vez de professores ou minha faixa etária, e não como profissional de saúde. Isso porque, se tomá-la agora, eu estaria diminuindo a oferta de vacinas para aqueles, como os idosos ou pessoas na linha de frente, que correm mais risco de adoecer e de ter maior carga viral, promovendo, assim, maior contágio pelo vírus e auxiliando no aparecimento de mutações mais transmissíveis. Usar brechas para se vacinar antes da sua hora é prorrogar o tempo e sofrimento de todo o país, incluindo o tempo em que você terá que limitar suas interações com os outros. Por outro lado, diminuir a circulação do vírus com isolamento físico e uso de máscaras ajuda as vacinas a funcionar no controle da pandemia.

    É simples: quanto mais nos isolarmos, quanto mais usarmos máscaras corretamente quando fora de casa, e quanto mais exigirmos do governo a aquisição e distribuição de vacinas, mais perto do final desse pesadelo estaremos. É chato, e estamos todos mais do que cansados disso, sem dúvidas. Mas se não contribuirmos conjuntamente agora, a pandemia continuará a se prolongar, e o vírus é que vai ganhar.

    Alicia Kowaltowski é médica formada pela Unicamp, com doutorado em ciências médicas. Atua como cientista na área de Metabolismo Energético. É professora titular do Departamento de Bioquímica, Instituto de Química da USP, membro da Academia Brasileira de Ciências e da Academia de Ciências do Estado de São Paulo. É autora de mais de 150 artigos científicos especializados, além do livro de divulgação Científica “O que é Metabolismo: como nossos corpos transformam o que comemos no que somos”. Escreve quinzenalmente às quintas-feiras.

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