Coluna

Por que a desigualdade distorce nosso sistema político

    Combater a concentração de renda no Brasil é uma questão de justiça, mas também é a prescrição que emerge do frio cálculo dos economistas: ela é nociva ao desenvolvimento econômico

    O estereótipo dos economistas é o da “ciência lúgubre” (dismal science): preocupados sobretudo com o que seu jargão chama de “eficiência” e não com questões de justiça ou equidade — o foco em aumentar o tamanho do bolo, por assim dizer, deixando de lado a distribuição das fatias.

    Como acontece no mais das vezes, o estereótipo tem base na realidade. Mais do que simplesmente deixar de lado questões distributivas, houve tradicionalmente uma ênfase na necessidade de se escolher entre equidade e eficiência: interferir na alocação de recursos na economia de modo a reduzir desigualdade implicaria em um custo em termos do nível e crescimento da atividade econômica. No empobrecido debate brasileiro, no âmbito das políticas públicas, isso ficou cristalizado na ideia de “fazer o bolo crescer para depois dividi-lo” e, mais recentemente, na contraposição entre ditos “liberais” ou “ortodoxos” — supostamente mais preocupados com a eficiência — e “desenvolvimentistas” — supostamente mais preocupados com a desigualdade.

    Tal dicotomia sempre foi uma simplificação um tanto caricatural — por exemplo, muitos dos argumentos ditos “desenvolvimentistas” sempre tiveram mais a ver com visões diferentes sobre como fazer o bolo crescer do que propriamente sobre a questão da desigualdade. Ela é ainda mais grotesca hoje em dia, porque a economia dita “ortodoxa” já há muito não é mais a de décadas atrás — digamos, a de quando o ministro Paulo Guedes terminou seus estudos de doutorado na Universidade de Chicago.

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    Filipe Campante é Bloomberg Distinguished Associate Professor na Johns Hopkins University. Sua pesquisa enfoca temas de economia política, desenvolvimento e questões urbanas e já foi publicada em periódicos acadêmicos como “American Economic Review” e “Quarterly Journal of Economics”. Nascido no Rio, ele é PhD por Harvard, mestre pela PUC-Rio, e bacharel pela UFRJ, todos em economia. Foi professor em Harvard (2007-18) e professor visitante na PUC-Rio (2011-12). Escreve mensalmente às quintas-feiras.

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