Coluna

Os homenageados do ano na educação básica brasileira

    Apesar de quadro geral ser sombrio, há nele outros elementos e matizes, talvez fora do primeiro plano, que aliviam sua carga negativa e revelam caminhos e soluções a seguir

    O Nexo é um jornal independente sem publicidade financiado por assinaturas. A maior parte dos nossos conteúdos são exclusivos para assinantes. Aproveite para experimentar o jornal digital mais premiado do Brasil. Conheça nossos planos. Junte-se ao Nexo!

    O biênio 2020-2021 foi provavelmente o pior período para a educação básica pública desde a redemocratização. Nesta última coluna do ano, trago uma panorâmica retrospectiva das análises que fiz neste espaço, mas o utilizo para homenagear algumas pessoas e organizações cuja atuação se destacou ao longo de 2021. É momento, afinal, de avaliar o que ficou para trás e planejar o que faremos no ano vindouro. Os homenageados da coluna nos ensinam com seus exemplos, mas também nos inspiram para que enfrentemos os inéditos desafios que se apresentam diante de nós.

    Os desafios são de fato múltiplos e complexos. No ano passado, na primeira análise publicada na imprensa brasileira sobre possíveis perdas/atrasos de aprendizagem, eu já alertava que, se os impactos na aprendizagem dos estudantes brasileiros fossem semelhantes àqueles encontrados entre os alunos da região de Flandres, na Holanda, testemunharíamos uma tragédia. As poucas avaliações de aprendizagem realizadas no Brasil desde então parecem confirmar essa sombria previsão. Sabíamos que haveria atrasos (maiores que as perdas) nas aprendizagens, aumento da desigualdade, com impacto negativo maior sobre os alunos mais vulneráveis, bem como podíamos prever o aumento da evasão.

    Como apontei anteriormente, o setor educacional poderia ter contribuído para controlar a pandemia e, assim, acelerar o retorno às aulas presenciais, mitigando esses efeitos negativos. Pouco foi feito. Enquanto especialistas e sociedade civil conseguiram enfrentar e superar o negacionismo federal na área da saúde ao longo da pandemia, a educação ficou presa em dissensos históricos, muitos deles estéreis, alimentando uma profecia autorrealizável.

    O quadro geral é esse e me parece essencial que o admitamos. Li recentemente artigo de um economista do Banco Mundial que afirmava ser hora de esquecer a resposta educacional à pandemia, fosse ela melhor ou pior, e encarar somente o futuro. Trata-se de péssimo conselho (e assusta que venha de tão importante servidor público internacional): desconsidera os ensinamentos da história, mesmo a mais recente, alimentando assim o risco moral de reproduzirmos os mesmos erros do passado.

    Os homenageados nesta coluna nos ensinam com seus exemplos, mas também nos inspiram para que enfrentemos os inéditos desafios que se apresentam diante de nós

    De toda sorte, ainda que o quadro geral da educação básica brasileira ao final de 2021 pareça da lavra de Goya, pelo tom sombrio e a violência (no sentido de Galtung) que traduz, há nele outros elementos e matizes, talvez fora do primeiro plano, que aliviam sua carga negativa e revelam caminhos e soluções a seguir.

    A primeira homenagem vai necessária e obrigatoriamente aos milhões de profissionais da educação, estudantes e suas famílias, os quais, malgrado o descaso combinado à incompetência de tantas autoridades governamentais, fizeram o que puderam para enfrentar o pior ano da pandemia e manter os vínculos com a escola. Sua resistência e confiança no poder transformador da educação deveriam bastar para que recebam, como recompensa, um sistema de ensino mais robusto, qualificado e apto a desenvolver ao máximo as potencialidades de cada um de seus membros.

    Seria injusto falar genericamente dos profissionais da educação sem celebrar os servidores públicos que, sobretudo no governo federal, vêm resistindo aos ataques e ao menoscabo de um governo que busca destruir todos os alicerces da educação nacional. Homenageio a todos na pessoa de Alexandre André dos Santos, servidor concursado do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), que, nesse espaço, primeiro alertou o país sobre os riscos à autonomia do Instituto, quatro meses antes da grave crise que chegou a abalar a confiança na realização do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio). Como vimos mais recentemente, não foram apenas servidores do Inep os que entregaram seus cargos de confiança. Também na Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal do Ensino Superior) a crise gerou uma debandada de pesquisadores. Mesmo em um cenário tão desafiador, servidores do Ministério da Educação e seus órgãos vinculados conseguiram produzir alguns avanços nas políticas educacionais, a despeito da oposição ou desinteresse dos ministros que passaram pela pasta.

    No campo da sociedade civil, celebro as muitas iniciativas poderosas e corajosas surgidas ou expandidas em todo o país ao longo de 2021 aplaudindo Cristiano Ferraz e seus colegas. Um post de Cristiano pedindo ajuda para pagar a inscrição no Enem de jovens pretos, pardos e indígenas no ano passado teve enorme repercussão, obteve mais de 50 mil apoiadores e fez com que esse ato singelo e espontâneo ganhasse musculatura e se institucionalizasse em 2021, com a fundação do Movimento Amplia, cuja visão é ser uma ponte entre a juventude preta, parda e indígena e pessoas comprometidas com a redução das desigualdades no Brasil.

    Os próximos homenageados também tiveram uma atuação importante ao redor do Enem 2021, única ação educacional governamental que atinge ao mesmo tempo alunos ricos e pobres. Mas a motivação maior para que eu os celebre tem a ver com seu compromisso inquebrantável com os brasileiros em situação de maior vulnerabilidade e seu incomum entendimento do caráter também afetivo de todo processo educativo.

    Quando a mais recente crise no Inep eclodiu, a pauta migrou dos poucos jornalistas setoriais e foi rapidamente capturada pelos comentaristas políticos. Pouco afeitos aos temas educacionais e suas sutilezas, eles exageraram no tom e mostraram enorme desconhecimento sobre o Enem, chegando a colocar em dúvida sua realização em 2021. Enquanto isso, houve ativistas educacionais dizendo que as provas não ocorreriam ou exigindo seu cancelamento, afirmando que o exame estaria ideologicamente comprometido. Quem conhece esses processos sabia que não era o caso para tanto, mas essa reação desmesurada levou mais incertezas e tensão aos candidatos ao exame. No fim das contas, quem buscava apoiar a educação acabou prejudicando muitos estudantes.

    Nesse cenário, duas vozes ganharam destaque por saber equilibrar a crítica aos desmandos do governo federal e o apoio e a tranquilização aos estudantes. Na mídia, Flavia Oliveira é certamente a jornalista não especializada que melhor aborda os temas educacionais, sempre lembrando da importância da educação para as famílias, destacando as desigualdades do país e enquadrando temas específicos no quadro mais geral da sociedade brasileira. Tudo isso sem demonizar quem quer que seja ou provocar pânico entre alunos. É a voz da ancestralidade negra acalentando e incentivando, sem condescendência. Uma aula.

    O outro homenageado me obrigou a abrir uma exceção a uma regra autoimposta de não celebrar agentes governamentais. Não se trata de desprezar sua atuação. Pelo contrário, é porque os respeito que não os homenageio, pois seria leviano e possivelmente injusto destacar este ou aquele secretário, diretor ou professor, sem ter um instrumento objetivo que me permitisse conhecer o trabalho e as realizações de todos.

    João Pires, contudo, me obriga a abrir essa exceção, até porque sua ação recente que mais chamou minha atenção foi lançada ao desabrigo do cargo público que ocupa. Enquanto muitos jornalistas e ativistas educacionais reagiam surpresos ao fato de as provas do Enem 2021 terem ocorrido sem incidentes e com conteúdo que comprovou a independência do Inep ao intervencionismo governamental, cerca de 500 jovens do Morro do Salgueiro no Rio eram impedidos de fazê-la, porque uma operação da Polícia Militar do Rio de Janeiro deixara mais de dez mortos. João rapidamente iniciou um movimento via redes sociais para cobrar do Inep que os jovens afetados pudessem ter outra oportunidade para fazer a prova. Poucos dias depois e graças a grande mobilização nacional, que envolveu até a Defensoria Pública da União, o Inep autorizou o pedido de reaplicação do exame para os jovens atingidos. Essa ação revela um olhar atento para os mais vulneráveis, mas, sobretudo, nos lembra que onde houver uma questão social, estará lá a educação. Não importa se são alagamentos, fome, violência; tudo envolve e tudo afeta a educação. Só quem realmente entende de educação jamais perde esse aspecto de vista.

    Por fim, mas não menos importante, gostaria de homenagear a primeira presidenta negra da história da UNE (União Nacional dos Estudantes). Divirjo de várias das pautas e métodos de ação da UNE nas últimas décadas, mas saúdo com alegria a posse de Bruna Brelaz e torço para que ela continue buscando dialogar com todos os agentes públicos comprometidos com a democracia. Infelizmente, Bruna foi criticada, à direita e à esquerda, por fazer exatamente isso, na enésima comprovação de que a intolerância não tem lado político. A manauara pode ser uma importante inspiração para adolescentes e jovens de todo o país e, principalmente, mobilizá-los para emplacar a pauta educacional na campanha eleitoral do próximo ano.

    Desejo a todos ótimas festas e um novo ano melhor para todos nós, e realmente transformador para a educação brasileira. Retomarei as colunas no fim de janeiro. Até lá!

    João Marcelo Borges é pesquisador do Centro de Desenvolvimento da Gestão Pública e Políticas Educacionais da Fundação Getulio Vargas. Foi diretor de Estratégia Política do Todos Pela Educação (2018-2020), Consultor Sênior e Especialista em Educação do Banco Interamericano de Desenvolvimento (2011-2018), além de ter ocupado cargos de direção no governo do estado de São Paulo e de gerência no Ministério do Planejamento. Idealizador e cofundador do Movimento Colabora Educação, é mestre em economia política internacional, pela London School of Economics, onde estudou como bolsista Chevening, do governo do Reino Unido.

    Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.