Coluna

O filho do porteiro e as universidades públicas brasileiras

    Para além dos números da calamidade educacional do país, há a história de milhares de pessoas cujas vidas foram transformadas desde que o ensino superior passou a ser algo a seu alcance

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    Na sexta-feira, dia 14 de maio, estudantes da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro nos deram um sopro de esperança e ânimo quando protestaram em defesa da universidade. O protesto foi motivado pelo anúncio de mais cortes orçamentários, que, segundo sua reitora, ameaçam o funcionamento da instituição, pois impossibilitaria o pagamento de contas básicas como água, limpeza, segurança e eletricidade.

    A UFRJ está longe, muito longe de ser um gasto prioritário para o governo federal, a despeito da sua importância. Agora, durante a pandemia, os seus 9 hospitais universitários e centros de pesquisa têm sido fundamentais para a população do Rio de Janeiro, e de todo o Brasil. Não bastasse seu público diverso, os múltiplos campi que abrangem as partes mais diversas do estado do Rio de Janeiro e seus programas de extensão, a UFRJ tem se destacado durante a pandemia de covid-19 por, inclusive, produzir nos seus laboratórios uma das três vacinas brasileiras que estão em fase de testes. As outras duas estão também sendo produzidas em duas outras universidades públicas, a USP (Universidade de São Paulo) de Ribeirão Preto e a UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais).

    De acordo com a Andifes, em 2020, estavam em curso 823 pesquisas desenvolvidas em todo Brasil relacionadas à oferta de respostas, frutos de pesquisas científicas, de combate à pandemia. As universidades públicas do nordeste brasileiro, inclusive aquelas fundadas mais recentemente, ao longo dos anos 2000 (e antes de 2016, obviamente), resultado do programa de expansão e interiorização das universidades, o Reuni, também têm sido fundamentais para o desenvolvimento de pesquisas e iniciativas de combate à covid.

    A universidade na qual leciono, a UFRB (Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, fundada em 2015, vem desde o início da pandemia desenvolvendo projetos e pesquisas que oferecem, quase que de forma imediata, alternativas de prevenção ao contágio. Em março, já estávamos produzindo uma série de podcasts com informações sobre medidas de cuidado e prevenção, tendo como público alvo principal a população do Recôncavo baiano. A disseminação dessas informações foi muito relevante para contrapor as avalanches de notícias falsas e negacionistas que minimizam a gravidade da pandemia. No mesmo ano, nos nossos laboratórios também foi desenvolvido um aplicativo para monitorar o progresso dos sintomas das pessoas infectadas pelo vírus. Além disso, pesquisadoras e pesquisadores da UFRB, assim como outros de diversas universidades públicas brasileiras, fossem elas estaduais ou federais, também empenharam-se em produzir álcool gel e sabão a baixo custo, máscaras e protetores faciais. Outras cinco universidades públicas baianas, dentre elas a UEFS (Universidade Estadual de Feira de Santana), desenvolveram o portalcovid19.com, uma plataforma de monitoramento e previsão da dinâmica da disseminação do vírus em todo território nacional.

    Assim como a UFRJ, a despeito da sua importância para o país, a UFRB também sofrerá um corte de quase 23% no seu orçamento neste ano. O corte de financiamento afeta o pagamento de bolsas de auxílio estudantil, pagamento de funcionários terceirizados, assim como energia elétrica, água, manutenção predial, além de afetar evidentemente as pesquisas que estão sendo desenvolvidas pela universidade. As medidas de cortes de gastos não tem somente afetado a UFRJ e a UFRB, mas todas as universidades brasileiras durante a pandemia, a despeito de todas as bobagens que são ditas sobre e durante a maior crise sanitária que vivemos.

    Dito tudo isso, acho importante sair dos números, que são fundamentais, para falar de pessoas, das milhares de pessoas cujas vidas foram transformadas desde que a universidade pública passou a ser algo ao seu alcance.

    Para desespero das elites conservadoras, os porteiros, ao lado de seus filhos e filhas, estão na universidade e não querem desistir dela. Prova disso foi o protesto ocorrido em defesa da UFRJ

    Desde o segundo semestre de 2020, adotamos de forma emergencial e, espero, temporária, o ensino remoto. A precariedade dessa modalidade de ensino tem me ajudado muito a compreender a forma como a universidade tem tomado lugar central na vida das pessoas que tinham no espaço universitário seu lugar mais expressivo de exercício de cidadania. E é preciso dizer que mais de 80% do corpo discente da UFRB é formado por pessoas autodeclaradas negras, e que também mais de 80% dos estudantes têm renda familiar de até 1,5 salário mínimo.

    Semelhante ao cotidiano de diversas colegas de profissão, aprendi que as câmeras estão fechadas durante as aulas remotas por diversas razões, além de timidez ou até mesmo uma proposital intenção de deixar a docente sentir-se solitária, falando sozinha. Em uma das minhas aulas, por exemplo, uma aluna enfermeira abriu rapidamente a câmera e me disse o seguinte: “Professora, vou abrir aqui a câmera rapidinho para lhe dizer que escuto sua aula enquanto estou no meu descanso do plantão, estou com o fone no ouvido… Saudades, pró”. Somente uma intensa vontade de estudar faria alguém num hospital assistir a uma aula.

    Além do trabalho, a condição das residências também são razões que fazem a privacidade da casa ser preservada. Muitas delas não tem reboco, em outras, o melhor sinal da internet está no banheiro ou no cômodo onde estão diversas outras pessoas, como a sala onde a televisão está ligada. Muitas discentes escutam a aula na cozinha, e revezam sua atenção com os afazeres domésticos. A internet, na maioria das vezes, é de péssima qualidade: “Professora, X mandou avisar que não vai entrar na aula hoje porque a internet não tá funcionando”.

    Artigos em PDF, a maioria deles publicados em revistas científicas, fruto de pesquisas de primeira qualidade, circulam eficazmente entre os grupos de WhatsApp e são recursos muito bem-vindos, uma vez que as bibliotecas estão fechadas. Sem computador, muitas pessoas, muitas pessoas mesmo, leem os textos nas telas dos seus próprios celulares. Crianças, mães, avós, esposas e namorados escutam as aulas e dão opinião. Concordam ou discordam, entendem ou querem entender mais. Em uma das minhas disciplinas, por exemplo, temos a luxuosa presença da mãe de uma discente, que, como ouvinte, participa das aulas e dá contribuições valiosas com sua leitura de mundo e experiência de vida. Divido com ela a tarefa de conduzir a aula.

    As aulas também têm servido de amparo emocional e incentivo intelectual, científico e crítico para entendermos o que estamos vivendo no Brasil e no mundo. Diversas são as alunas e alunos, de idades variadas, que têm a sensação de vazio e de perda de um cotidiano importante: a hora do encontro, da conversa no pátio, dos debates nas aulas, enfim, do ambiente universitário. Vozes não ouvidas passam a construir e compartilhar sua visão sobre a economia e a política, pois, na sala de aula, toda opinião é importante.

    A saudade das aulas presenciais e do contato com as/os colegas são temas recorrentes nas aulas virtuais. Acredito definitivamente numa pedagogia do afeto, e tenho a confirmação disso quando, durante as aulas remotas, ouço relatos da falta que faz o olhar atento do professor ou da professora enquanto se fala, ainda que de forma insegura, sobre um argumento ainda em construção. Não raro, ouço declarações do tipo: “Professora, quando a pandemia passar vou te pedir licença para, quando lhe encontrar, te dar um abraço”.

    Desde 2020, perdemos discentes e colegas. Ainda assim, todas as pessoas têm esperança do retorno presencial. Por mais que a vontade do retorno das aulas no campus seja grande, todo mundo entende que, de forma segura, isso só poderá acontecer quando nós todes estivermos vacinades. “Eu não vejo a hora disso tudo acabar, professora, e nos encontrarmos, todo mundo, novamente”.

    Nosso corpo discente reflete o perfil revelado pela pesquisa do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira) sobre estudantes universitários brasileiros entre os anos 2000 e 2016: entre 2010 e 2018, o grupo de estudantes cuja renda familiar era de até 1,5 salário mínimo cresceu de 43,7% para 70,2%. A existência do curso noturno, o programa de expansão das universidades para as cidades do interior, além do Pnaes (programa de assistência estudantil), foram grandes ferramentas de manutenção desses estudantes nos cursos de graduação, inibindo a evasão. A partir do ano 2000, o número de pessoas negras nas universidades triplicou, o que distanciou um pouco, mas de forma significativa, o Brasil da posição de um dos países da América Latina com a menor população com formação universitária entre pessoas de 25 a 34 anos, ficando atrás de México, Colômbia, Argentina e Chile.

    Portanto, o sistema de cotas e as políticas de ingresso e permanência nas universidades públicas e privadas brasileiras fizeram com que o acesso à formação universitária se afastasse daquilo que o relatório do Inep chama de “sistema de elite”, como foi até os anos 1990. De acordo com o relatório, em 1995, 8 em cada 10 estudantes universitários eram brancos e três quartos das ofertas de vagas estavam na região sudeste do país. Em 1993, somente 1% dos mais pobres estava na universidade, contra 21% dos mais ricos. Além da própria publicação do Inep, esses dados podem ser encontrados de forma sumarizada e comentada em excelente artigo publicado pela revista Piauí, na seção igualdades. Lá, é possível perceber como o ano de 2016 marcou um retrocesso de um projeto que estava em curso desde 2000, de incentivo dos pobres e negros ao acesso ao ensino superior, inclusive com a perda de recursos do Fies (programa de financiamento estudantil em universidades privadas) e gradual suspensão de recursos para as universidade públicas.

    Diante desses números, podemos dizer que a “elite intelectual” brasileira, para usar um critério do ex-ministro da educação, Ricardo Vélez, não necessariamente é formada por gênios, que seriam supostamente “os melhores”, mas sim pelos brancos mais ricos. Ao defender que a universidade “não era para todos”, o ex-ministro indica que a expansão universitária criou uma crise na forma como as hierarquias sócio-raciais no Brasil se estruturam.

    Fala semelhante é aquela algumas vezes defendida publicamente pelo atual ministro da Economia. Em abril, Paulo Guedes afirmou com indignação que o Fies, um dos maiores programas de financiamento estudantil em universidades privadas, ofereceu bolsa “pra todo mundo”. O ministro ainda usou aquilo que acredito ser uma anedota, quando falou da suposta estória do porteiro do seu prédio que, entristecido e com crise de consciência, havia acabado de receber a notícia de que seu filho havia passado numa universidade privada, mesmo tendo tirado zero em todas as provas. De fato, o Fies foi alvo de investigação pela Controladoria-Geral da União, mas não por causa das supostas aprovações indevidas de pobres incapazes de cursar o ensino superior. As investigações giravam em torno de indícios de pagamentos de propinas a agentes públicos por instituições que não poderiam participar do programa.

    Mas, no mundo real, o ministro da Economia tem razão em uma coisa: sim, as universidades brasileiras estão cheias de filhos e filhas dos porteiros e também dos próprios porteiros na condição de estudantes. Estão lá também as filhas e filhos das empregadas domésticas, dos desempregados, das balconistas, dos seguranças, dos policiais, das professoras, das manicures, das pessoas que trabalham nos caixas de supermercado. Aliás, essas pessoas trabalhadoras, ao lado de seus filhos e filhas, além de outros membros da família, para desespero das elites conservadoras, estão na universidade e não querem desistir dela. Prova disso foi o protesto ocorrido em defesa da UFRJ.

    Nos debates mais acalourados ocorridos nas aulas virtuais, posso ver, ainda que através da tela do computador, o brilho nos olhos dos filhos e filhas dos trabalhadores e trabalhadoras do Brasil: Uma aluna se emocionou quando falou da certeza da sua mãe de que a universidade era um lugar para ela; outra, tem paixão pela sala de aula e pela educação antirracista; uma discente disse que tem inquietações diversas e inconformidade com as desigualdades do mundo; outra jovem assim como eu, viaja nos pensamentos de diversas autoras e teorias, ao ponto de se perder. Muitas vezes a aula é tomada pelo silêncio: "gente, vocês estão aí, a internet caiu?". E respondem: "não professora,estamos aqui. Estamos em silêncio, mas estamos pensando..." Outro dia, escutei de um dos nossos discentes a fala mais esperançosa e poética que escutei nesse quase um ano de ensino remoto: “Professora, eu sonho com o dia que isso [a pandemia] acabar. Vai ser melhor que ano novo! Vamos nos abraçar muito...”.

    Para que nosso ano novo, finalmente, um dia chegue com vacina, ciência e com uma universidade que reflita a diversidade do povo brasileiro, não suas supostas elites, devemos lutar pela existência da universidade pública, assim como fez a comunidade acadêmica da UFRJ. Devemos estar atentas ao projeto em curso, que tem como conceito de educação como uma máquina reprodutora de desigualdades. Pensamos diferente: a universidade também é nossa, e sempre será.

    Luciana Brito é historiadora, especialista nos estudos sobre escravidão, abolição e relações raciais no Brasil e EUA e é professora da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. É autora do livro “Temores da África: segurança, legislação e população africana na Bahia oitocentista”, além de vários artigos. Luciana mora em Salvador com sua família, tem os pés no Recôncavo baiano, mas sua cabeça está no mundo. Escreve quinzenalmente às terças-feiras.

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