Coluna

O capital social no combate à covid e à fome

    A maldição de Murphy parece encontrar no Brasil a sua mais perfeita tradução: pior que está, sempre pode ficar

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    Não é novidade o desprezo de uma parte do Brasil em geral a mais abastada, melhor educada e, majoritariamente, branca para com as suas gentes mais vulneráveis. Aprendemos durante séculos de escravidão, racismo e muita violência que nossas vidas não valem a mesma coisa, não estamos no mesmo patamar de humanidade. Uns são vistos como mais humanos do que outros ou, talvez, nem humanos são. Seus corpos são constantemente subjugados pelo uso aplicado da violência simbólica e física para que nunca esqueçam do seu lugar no mundo dos brancos, e saibam sempre com quem estão falando; regra básica na relação de mando e obediência que demarca as hierarquias sociais em um país que teve a sua elite educada para ser dona de terra e gente. Um país que segue a sua rotina enquanto milhões sofrem e morrem nos hospitais, nas favelas e nas periferias, nas comunidades indígenas e quilombolas.

    O Brasil entristece quem observa a realidade com um olhar focado apenas no presente. Estamos, sem dúvida, passando por um dos momentos mais difíceis da nossa história. Para onde olhamos o cenário é devastador. A covid já levou quase 600 mil vidas e, ainda que a taxa de mortalidade tenha se reduzido nos últimos meses, continua ao redor das mil mortes por dia. 1.000 mortes por dia. O impacto na vida das pessoas é incomensurável. Ao luto e à dor de tantas perdas, somam-se a crise econômica, o impacto da suspensão das aulas na educação de milhões de crianças e adolescentes, o desemprego e a fome que roubam qualquer expectativa de futuro. São 19 milhões de brasileiros em situação de fome no Brasil, segundo dados de 2020 da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional. Um futuro que também se esvai no descaso com o meio ambiente e no acirramento das violências, em particular contra pessoas negras e indígenas. A maldição de Murphy parece encontrar no Brasil a sua mais perfeita tradução: pior que está, sempre pode ficar.

    Por tudo isso é um sopro de esperança olhar para as respostas à pandemia que emergem justamente das populações mais duramente afetadas. Grupos de periferias e favelas, organizações indígenas, redes de solidariedade à população de rua, iniciativas multidisciplinares de atenção à saúde mental, enfim, uma infinidade de atores sociais que se mobilizaram para ocupar o déficit deixado pela ausência de políticas públicas coordenadas à altura da tragédia sem precedentes que vivemos. Ações de educação sanitária, campanhas de vacinação, distribuição de cestas básicas e cartões alimentação que aliviam a precariedade na qual milhares se viram jogadas de um dia para o outro, foram algumas das iniciativas lideradas por ONGs e organizações da sociedade civil.

    É um sopro de esperança as respostas à pandemia que emergem justamente das populações mais duramente afetadas por ela. Ações que aliviam a precariedade na qual milhares se viram jogados de um dia para o outro

    Aprender com essas experiências, em grande medida implementadas por iniciativa de organizações e grupos comunitários que atuam há décadas nesses territórios, é tarefa necessária para recuperar esperança no futuro. Em certa medida, trata-se de contabilizar o valor do que Robert Putnam (Bowling Alone: the collapse and revival of American Community. Simon & Schuster, New York, 2000) chamou de “capital social”, acumulado ao longo da história, entendido como a existência ao longo do tempo de uma densa rede de relações sociais recíprocas promotoras de bens coletivos e de virtudes cidadãs. Uma poderosa teia de cidadania ativa que se estruturou e fortaleceu, principalmente, nos últimos 30 anos em que fizemos a transição para democracia, com todos os seus limites.

    Para reconhecer a importância da resposta cidadã à pandemia atual da covid, ajuda olhar para o passado recente, quando a mobilização da sociedade civil foi capaz de quebrar a apatia (e indiferença) em relação ao drama da fome. No início dos anos 1990, na esteira do Movimento Pela Ética na Política (que resultou no impeachment do Presidente Collor de Mello, em 1993), o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, liderança histórica da sociedade civil brasileira, convocou, em nome de uma ampla coalizão de organizações da sociedade civil, a Ação da Cidadania Contra a Fome, a Miséria e Pela Vida, rapidamente popularizada como a “Campanha da Fome”. É difícil não se admirar com a amplitude alcançada pelo movimento que em pouco tempo foi capaz de engajar diretamente em ações de solidariedade um total de mais de 30 milhões de pessoas, mobilizadas por cerca de 3.000 “Comitês da Ação da Cidadania” espalhados por todo o Brasil.

    Entre os muitos méritos da campanha, o maior deles foi justamente trazer milhares de iniciativas que se encontravam limitadas ao universo da caridade ou do chamado assistencialismo para o campo semântico e político da luta por direitos. A pergunta central, “o que eu posso fazer?”, foi respondida de maneiras e escalas diferentes, a depender dos atores sociais envolvidos. Comitês foram formados por iniciativas de moradores de bairro, membros de igrejas, funcionários de empresas privadas e públicas, artistas, publicitários, centros acadêmicos universitários e escolas públicas. A fome foi resgatada para o debate a respeito das prioridades de política pública, como um problema central para a democracia, uma questão a ser enfrentada por todas as pessoas. A cidadania de cada um não estaria plena enquanto houvesse uma pessoa com fome. A Campanha da Fome imprimiu um sentido de urgência que mobilizou a sociedade e fez pressão sobre o estado de uma maneira inédita na história brasileira, ressoando em muitas das políticas públicas que foram colocadas em práticas posteriormente. Como dizia o Betinho, “quem tem fome, tem pressa”, um slogan que ressoa na mobilização atual da campanha “Se tem gente com fome, dá de comer”, organizada por uma ampla coalizão de organizações sociais, encabeçadas pela Coalizão Negra por Direitos.

    Tanto na experiência da Ação da Cidadania quanto na mobilização atual em resposta à covid e à fome, o acúmulo de capital social se destaca como fator chave quando percebemos a importância daquela miríade de atores sociais que atuam há décadas junto aos territórios e populações mais vulneráveis, tecendo redes de solidariedade e de confiança, apoio mútuo em momentos de crise e, sobretudo, de luta por direitos fundamentais em contextos de profunda segregação e exclusão social. O trabalho que vem sendo desenvolvido pela Redes da Maré, no conjunto de 16 comunidades, com cerca de 160 mil moradores, conhecido como Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, sintetiza de modo exemplar a importância do enraizamento histórico e compromisso permanente com o trabalho de defesa de direitos. Em uma ação recente, em parceira com a Fiocruz e a Prefeitura do Rio de Janeiro, a Redes empreendeu um mutirão de vacinação em massa que alcançou mais de 35 mil pessoas, conforme a ampla cobertura feita pelo Jornal Maré de Notícias.

    Essas são lições de cidadania ativa que apontam as saídas para o impasse político e a profunda crise civilizacional que parece consumir o Brasil. Resgatar os aprendizados e reconhecer a importância e o protagonismo dos atores muitas vezes invisíveis que sustentam as teias de solidariedade que mantém as pessoas vivas e criativas mesmo diante de dores e de perdas inomináveis, como as que vivemos atualmente, é a maior responsabilidade daqueles que ocupam lugares de poder. O futuro da democracia no Brasil depende de evitar o caminho fácil das acomodações de elites que historicamente deixam de fora o capital social que se acumula desde sempre nas lutas, principalmente, de pretos, indígenas, mulheres e outras populações que insistem em viver mesmo quando tudo é feito para que morram.

    Atila Roque é historiador, cientista político e diretor da Fundação Ford no Brasil. Exerceu papel de liderança em diferentes organizações da sociedade civil no Brasil e no exterior. Foi diretor-executivo da ActionAid International nos EUA e do INESC (Instituto de Estudos Socioeconômicos). Antes de assumir a Fundação Ford, em 2017, foi diretor-executivo da Anistia Internacional no Brasil. Faz parte do Conselho Diretor do GIFE (Grupo de Institutos, Fundações e Empresas).

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