Coluna

O antigo sonho de ser gente: a pobreza, a fome e as prioridades

    O Brasil real está preocupado com isso aqui: com a garantia de ter comida na mesa, com o acesso à educação e com o direito à higiene e à vida social 

    Foi finalmente na quarta-feira, dia 13 de outubro, que por ordem do Superior Tribunal de Justiça, recebeu ordem de soltura Dona Rosangela Cibele de Almeida Melo, que havia sido presa após furtar miojo num supermercado da cidade de São Paulo. Além do macarrão instantâneo, dois refrigerantes e refresco em pó foram objetos do furto que causou ao estabelecimento o “prejuízo” de R$ 21,69. Dona Rosangela é moradora de rua, está desempregada e tem cinco filhos. Ficou presa por 14 dias, enquanto suas crianças ficaram aos cuidados de sua mãe. Quando foi perguntada sobre a motivação do crime, ela respondeu que estava “com muita fome”. A humanidade de Dona Rosangela, uma fala de resistência no país que desumaniza pessoas pobres, é expressa da forma mais espontânea na frase a seguir: “Eu só estava com muita fome e queria muito comer um miojo”. Vontades, desejos e planos, sonhos dos mais íntimos ou dos mais elementares, ganham força ainda maior diante das nossas necessidades mais básicas. Dona Rosangela tinha fome e sabia de que: fosse o miojo, ou do direito de, como mãe de cinco crianças, cumprir sua responsabilidade, ela se rebelou solitariamente diante de um país que tem projetos políticos que nada fazem pelo bem-estar dela e das suas crianças.

    O discurso moralista das elites que andam de barriga cheia diria que Dona Rosangela é reincidente, que é usuária de drogas e que ao ser presa, teve o que mereceu. Contudo, olhando bem ao nosso redor, pensamos que seria demais esperar de Dona Rosangela uma pobreza ideal, aquela cabisbaixa, conformada e submissa que não reaje a nada enquanto o estômago dói e suas crianças choram a falta do alimento. Talvez esse seja o sonho de muita gente, uma “pobreza perfeita”, que desistiu de lutar, que oferece qualquer serviço por um prato de comida uma vez que políticas de combate à miséria não são prioridade a ser discutida nas mesas dos jantares das pessoas poderosas e endinheiradas enquanto ela e suas crianças passam fome. Circula nas redes uma cena devastadora de pessoas, a maioria mulheres, buscando comida em um caminhão de lixo. Casos como esse não são únicos e se tornam mais comuns em todo país no momento no qual vivemos. A fome é política pública e não o combate a ela, pois a fome tira nosso ânimo, nossa dignidade, mas também nos provoca revolta. A resposta estatal para o combate individual e desesperado à fome é a mão de ferro da justiça e políticas de reforço da segurança.

    Políticas de combate à fome e pelo direito à educação e dignidade, o que inclui saúde menstrual, são ações importantíssimas de combate ao racismo

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    Luciana Brito é historiadora, especialista nos estudos sobre escravidão, abolição e relações raciais no Brasil e EUA e é professora da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. É autora do livro “Temores da África: segurança, legislação e população africana na Bahia oitocentista”, além de vários artigos. Luciana mora em Salvador com sua família, tem os pés no Recôncavo baiano, mas sua cabeça está no mundo. Escreve quinzenalmente às terças-feiras.

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