Coluna

O Brasil do ‘touro dourado’: a pátria do acúmulo de bens

    Ainda bem que a sociedade civil brasileira não comprou essa projeção vazia de fartura, acumulação e machismo

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    Há quem desdenhe das imagens e das representações visuais. Há quem alegue que elas não passam de “ilustrações” que simplesmente decoram e alegram os ambientes, os jornais, as paredes das casas e dos museus – seriam inocentes. Há quem também alegue, ainda, que elas são apenas ingênuas e não levam a nada. Há quem goste e quem desgoste; quem as ache imprescindíveis ou totalmente desnecessárias. Da minha parte, sou dessas pessoas que vivem tomadas pela potência das imagens e pelo poder que elas têm de revelar e criar valores, ideias, concepções de mundo. Por isso não raro viram, elas mesmas, a própria realidade.

    É esse o poder reflexivo das imagens e das obras visuais, pois ao reproduzir um contexto elas acabam, ao fim e ao cabo, por criá-lo. Transformam-se em parte constitutiva da imaginação. Muitas vezes lembramos, ou achamos que lembramos de um evento a partir e por causa de uma imagem guardada num canto da memória. A independência do Brasil, por exemplo. Costumamos recordar esse episódio – tão constitutivo do nosso sentido de nacionalidade – a partir de uma tela. A obra de Pedro Américo, chamada “O brado do Ipiranga”, foi feita anos depois do episódio e entregue a d. Pedro II, que a comissionou, no dia 14 de julho de 1888. A tela seria apresentada ao público apenas em 1889, momento em que d. Pedro II pretendia afirmar a força do sistema imperial, a partir da exposição da figura recuperada do pai. Porém, e como sabemos, esse seria o ano final da monarquia, e a vida da bela paisagem patriótica parecia consagrada ao fracasso.

    Tanto que o quadro acabou embrulhado em uma sala da Faculdade de Direito, e assim permaneceu até os idos de 1895, quando foi finalmente inaugurado no museu do Ipiranga, onde hoje se encontra. E se na época ele nem ao menos foi mostrado ao público, com o tempo foi ganhando importância e recepção, convertendo-se na imagem oficial do episódio e alavancando o protagonismo de São Paulo, quando, de fato, a emancipação se deu na então capital: a corte do Rio de Janeiro.

    E assim a projeção de Américo virou realidade e hoje em dia é só dessa maneira que “lembramos” da independência. A partir de uma pintura; por meio de imagens. É possível dizer, a partir desse exemplo emblemático, e de tantos outros, que nossa imaginação histórica é feita a partir de imaginários alheios; das construções visuais feitas por outras pessoas com seus interesses, contextos e especificidades. \u0009É imbuída dessa reflexão que me volto para um evento recente. O Brasil enfrenta uma das maiores crises econômicas de sua história, as taxas de desemprego estão elevadíssimas, a desigualdade aumentou e a fome voltou, mas o centro histórico de São Paulo ganhou no dia 16 de novembro um touro dourado. A Bolsa de Valores brasileira resolveu inaugurar em sua calçada essa escultura, no mínimo cafona, para simbolizar a “força do mercado financeiro e do povo brasileiro”, numa atitude no mínimo colonial. Para dizer pouco.

    Imagens têm o poder de revelar e criar valores, ideias, concepções de mundo. Por isso não raro viram, elas mesmas, a própria realidade

    Réplica do conhecido, e igualmente cafona, “Touro de Wall Street” – criado no fim dos anos 1980 e localizado em Manhattan, no coração financeiro dos Estados Unidos – a versão brasileira, de 5 metros e que pesa uma tonelada, ficará na rua 15 de Novembro por três meses. O projeto foi concebido pelo artista plástico Rafael Brancatelli e idealizado pela B3, a bolsa de valores de São Paulo, em parceria com a corretora XP.

    O que impressiona é como a peça brasileira não poderia estar mais desconectada da realidade brasileira. Por isso talvez pretenda, com sua “pesada” evidência, criar a realidade. E a situação é ainda mais complexa – digamos assim. Em primeiro lugar, foi um economista que se autointitula “Tourinho de Ouro” quem a ofertou para “a sociedade”. Nada mais projetivo e autocelebratório. Uma pessoa do mercado fazendo alusão ao contexto norte-americano e a seu próprio “sucesso”.

    Pior ainda são as origens do famoso animal e as alusões simbólicas que podemos estabelecer. O touro é um boi inteiro, não castrado, e, portanto, usado para a reprodução da espécie. É assim a designação comum dos machos bovinos da chamada raça brava. Não é difícil pensar no paralelo entre o animal e o comportamento social do mercado financeiro; dominado por homens heteronormativos que exibem seu machismo nos lugares que frequentam. Tanto que o sentido figurado do termo quer dizer, justamente, “homem muito robusto e fogoso”.

    Do latim o termo vem de taurus. Taurus, é, em primeiro lugar, conhecido como um instrumento de tortura no formato do animal e que atua repondo processos de subordinação e autoridade. Em segundo, no zodíaco, representa o segundo signo, associado à constelação de Taurus. Junto com Virgem e Capricórnio conforma a triplicidade dos signos de terra. Daqueles que dependem do seu ascendente para não ficarem por demais presos aos interesses da realidade.

    Mas há um terceiro sentido. Diz a mitologia grega que Osíris era o deus da vegetação do Egito e aparecia sempre com uma cabeça de touro. Nesse país também havia o costume de, quando o touro sagrado morria, colocar discos de ouro entre os chifres (símbolos do sol e da força da vida) sendo ele consagrado e mumificado. Nada mais direto do que a mumificação dourada do nosso touro.

    Aliás, foi da paixão da mulher de Minos com Pasifae – que se disfarçou de vaca para se unir ao touro – que nasceu Minotauro, um monstro que é metade homem e metade touro. O Minotauro simbolizava, dentre tantos outros desígnios, o ser humano consumido pelos seus desejos, assim como o conflito latente entre o lado humano e o da besta.\u0009A imagem do Minotauro preso no labirinto, exigindo a carne humana dos atenienses para comer a cada nove anos, chama a atenção para a humanidade que continua obcecada pelo apetite devorador.

    Enfim, são muitas as histórias cruzadas envolvendo a figura dos touros, os quais, não raro, são cercados de ouro, movidos pelo desejo incontrolável de acumular e em geral vinculados à figura masculina.

    É assim o touro de Nova York e é assim o touro dourado dos brasileiros. Um símbolo visual e imagético que se antecipa à sua própria figuração. Nesse caso, representa esse grupo que não tem outra pátria senão o acúmulo de bens materiais e que, a despeito dos descalabros desse governo, não abre mão de a ele se associar, desde que seja garantida sua própria estabilidade. Como se constituíssem um mundo à parte, independentemente do lugar em que estão localizados.

    Ainda bem que a sociedade civil brasileira não comprou essa projeção vazia de fartura, acumulação e machismo. Em vez de simbolizar a força e o otimismo que o mercado queria com ele demonstrar, o touro tropical foi rapidamente vinculado à atual decadência do mercado de ações brasileiro e do seu ministro da Economia Paulo Guedes. Enfim, além de muito distante do dia a dia da maior parte dos brasileiros e brasileiras, o “touro brasileiro” é de um tremendo mau gosto. Dourado, pesado, desconjuntado. Estranho num contexto do qual não faz parte.

    Eu acredito de maneira crítica e vigilante no poder das imagens. Acredito na eficácia simbólica que elas têm de representar e de criar e valorar visões de mundo. O touro do mercado é um símbolo falante da falta de empatia desses senhores que se vestem sempre igual, frequentam os mesmos espaços, compartilham os mesmos valores e, a despeito de residirem no Brasil, moram bem longe daqui.

    Lilia Schwarcz é professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.

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