Coluna

Lionel Messi e os desafios da democracia

    O declínio do Barcelona, coroado com a partida do maior jogador de todos os tempos, ensina que as coisas podem sair dos trilhos quando os incentivos dos governantes (e dos eleitores) estão desalinhados com o bem-estar da sociedade

    Neste mês de agosto, vimos o que é provavelmente a transferência mais impactante da história do futebol: após 21 anos de uma união que só encontra paralelo na história de Pelé no Santos, Lionel Messi não é mais jogador do Barcelona. Entre a lamentação sobre o que a ida de Messi para o Paris Saint-Germain nos diz sobre o estado atual do esporte e a ânsia por ver os três maiores jogadores da atualidade juntos no mesmo time, a debacle do Barcelona é talvez uma história menos interessante. Mas o caminho que trouxe o clube que até há pouco era o mais bem-sucedido do mundo, dentro e fora do campo, à situação de ter de abrir mão de seu grande ídolo traz ensinamentos para além do futebol.

    Refiro-me a um aspecto específico da saga do último ano: por que o Barcelona não vendeu Messi em 2020, e se colocou na situação de perdê-lo agora. Entender isso nos ensina a respeito dos desastres que podem ocorrer quando os políticos, e também os cidadãos, se veem diante de incentivos desalinhados com o interesse da coletividade. Em outras palavras, o Barcelona ilustra, em microcosmo, alguns dos riscos que as democracias enfrentam.

    Voltemos a agosto do ano passado. Frustrado com mais uma derrota na Champions League, e com a deterioração geral do clube, Messi pediu o boné. Disputas contratuais à parte, o que se colocava então, para o Barcelona, era a opção de transferir um jogador insatisfeito, em troca de uma quantia considerável de euros. À época, fontes confiáveis falavam que o Manchester City estaria disposto a pagar algo entre 100 e 150 milhões de euros. Some-se a isso o fato de que o Barcelona deixaria de pagar um ano de salário, algo entre 70 e 90 milhões de euros, segundo diferentes estimativas.

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    Filipe Campante é Bloomberg Distinguished Associate Professor na Johns Hopkins University. Sua pesquisa enfoca temas de economia política, desenvolvimento e questões urbanas e já foi publicada em periódicos acadêmicos como “American Economic Review” e “Quarterly Journal of Economics”. Nascido no Rio, ele é PhD por Harvard, mestre pela PUC-Rio, e bacharel pela UFRJ, todos em economia. Foi professor em Harvard (2007-18) e professor visitante na PUC-Rio (2011-12). Escreve mensalmente às quintas-feiras.

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