Coluna

Geração Covid: marca e marco, estigma ou distintivo?

    Os traços que a pandemia deixará em todos nós serão profundos e duradouros, mas quem os carregará por maior tempo são as crianças e os adolescentes

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    Os 400 metros com barreiras eram a última prova do atletismo olímpico na noite de 2 de agosto quando o brasileiro Alison dos Santos alcançou a maior glória de sua ainda curta carreira como atleta. Logo depois da prova, medalha de bronze confirmada, ele esbanjou simpatia, leveza e alegria em entrevista para a TV. Reagindo a ela, um dos maiores pesquisadores brasileiros sobre desigualdade, Pedro H. G. Ferreira de Souza, cravou num tuíte: “Alguém ressuscite o Weber porque o Alison acabou de redefinir o conceito de carisma”. O sociólogo Celso Rocha de Barros, profundo conhecedor de Max Weber, foi na mesma linha, afirmando ser Alison um “ídolo instantâneo”.

    Para além da entrevista, eles se referiam ao marco histórico alcançado pelo atleta, numa prova em que as marcas dos cinco primeiros colocados lhes dariam o ouro na Rio 2016. Não perceberam ou nem se importaram com as cicatrizes que Alison carrega pelo corpo, inclusive na cabeça. É exatamente isso que devemos possibilitar às crianças e jovens, da educação infantil ao ensino superior, profundamente afetadas pela pandemia da covid-19: transformar marcas e cicatrizes em marcos, traços distintivos de superação e conquistas.

    Muitos gestores públicos, especialistas e ativistas educacionais, contudo, têm contribuído para impor um estigma a essas crianças e jovens. Movidos pelo louvável objetivo de sensibilizar a sociedade brasileira no sentido de conferir a necessária relevância à educação, alguns têm confundido senso de urgência com catastrofismo, visão apocalíptica com abordagem prioritária. Perdas irrecuperáveis, cicatrizes permanentes, marcas indeléveis, essas são algumas das expressões utilizadas por essas pessoas, e repetidas irrefletidamente por veículos de imprensa, para se referir aos impactos que a pandemia da covid-19 causaria na população jovem do país, sobretudo em função do dilatado período sem aulas presenciais no Brasil, que resultou de uma combinação da sabotagem do governo federal com o despreparo de muitos gestores subnacionais.

    De fato, crianças e jovens carregarão as marcas da pandemia por toda sua vida. A pandemia da covid-19 constitui um marco histórico inegável, tanto que muitos já a adotamos como delimitador temporal: “pré-pandemia”, dizemos quando nos referimos a algo que tenha ocorrido antes de março de 2020, um período tão emocionalmente distante que hoje nos parece outra era geológica. São mesmo duradouros e profundos os traços que a pandemia deixará em todos nós, mas quem os carregará por maior tempo são as crianças e os adolescentes, como eu mesmo discuti neste espaço, ao relatar o primeiro estudo feito no mundo para comparar as aprendizagens de estudantes antes e depois da suspensão de aulas presenciais. Nesse sentido, não é de todo incorreto intitulá-la Geração Covid-19.

    Movidos pelo louvável objetivo de sensibilizar a sociedade brasileira no sentido de conferir a necessária relevância à educação, muitos têm confundido senso de urgência com catastrofismo

    Essa população, principalmente a parcela majoritária que vive em situação de maior vulnerabilidade socioeconômica, já carrega vários fardos. A pandemia lhe trouxe outros. Aos educadores, jornalistas e à sociedade em geral cumpre ter cautela e responsabilidade para não impor a essas crianças e jovens um fardo adicional e totalmente desnecessário: o estigma.

    Estigma é um rótulo negativo que as pessoas pespegam em outras pessoas ou grupos que consideram diferentes com base nos mais diversos aspectos, como cor da pele, orientação sexual, origem regional/nacional, doenças etc. Para além dos registros historiográficos, que mostram que o estigma impediu o acesso de grupos como negros e indígenas ao usufruto de direitos civis, políticos e econômicos, há vastíssima evidência empírica na literatura especializada da saúde, da educação e de outras disciplinas que evidencia como o estigma reduz oportunidades dos grupos que dele sofrem e compromete o alcance de suas potencialidades.

    Foi o estigma que transformou nosso medalhista olímpico em uma criança tímida, que inclusive rejeitou o convite para conhecer o projeto social que depois daria início a sua trajetória exitosa. Alison dos Santos sofreu um acidente doméstico ainda bebê, que lhe deixou com cicatrizes e marcas das queimaduras. Não conheço em detalhes sua história pessoal, muito embora já acompanhe sua carreira de atleta há alguns anos, mas estou certo de que ele teve de desenvolver muita autoestima e recebeu apoio especializado para superar o estigma imposto a pessoas com cicatrizes visíveis. Não sei dizer se ele conseguiu dar outro significado a elas, tratando-as como sinais de superação, traços que o distinguem (não pejorativamente) de outros atletas enquanto ele compete, ou simplesmente as ignora. Mas foi nítido para todos nós que o sorridente e simpático atleta que nos comoveu em sua graciosa entrevista não mais carrega essas marcas como algo negativo.

    Se a Geração Covid-19 é um fato histórico, ainda está por ser determinado o que isso significará para crianças, adolescentes e jovens. Conhecemos alguns efeitos socioemocionais e também sabemos que houve atrasos em sua curva de aprendizagem esperada (“perda de aprendizagem” é expressão incorreta, que tem sido utilizado à larga ao comentar resultados de pesquisas como a feita pelo governo de São Paulo). Desconhecemos, contudo, se essa população desenvolveu outras habilidades (resiliência, autogestão) ou valores (cuidado com o próximo, valorização da escola e dos professores etc). Tampouco sabemos se os novos modelos híbridos, quando aprimorados, conseguirão lhes oferecer condições para suplantar a curva histórica das aprendizagens das coortes anteriores. Como Alexandre Schneider afirmou recentemente em coluna lapidar: “não existe ‘geração perdida’ na educação”.

    Cabe-nos superar o derrotismo de gestores como o secretário de educação do estado de São Paulo, que asseverou que “as perdas dificilmente serão recuperadas”, e que caberia ao sistema educativo apenas “minimizar seu impacto”. O significado da Geração Covid-19 está por ser definido e sua história ainda está sendo escrita. Por que essa geração não pode ser aquela que mudou o patamar das aprendizagens no Brasil? Por que ela não pode, quando adulta, ser aquela que finalmente combaterá frontalmente as desigualdades que foram tão reveladas durante a pandemia?

    Podemos transformar suas marcas e cicatrizes em elementos que os distinguem positiva e não negativamente. Será difícil, mas é possível. Isso dependerá de muito esforço por parte dos estudantes, suas famílias, professores e todos os profissionais da educação, autoridades governamentais e ativistas educacionais. Que tal começarmos não lhes impondo estigma?

    João Marcelo Borges é pesquisador do Centro de Desenvolvimento da Gestão Pública e Políticas Educacionais da Fundação Getulio Vargas. Foi diretor de Estratégia Política do Todos Pela Educação (2018-2020), Consultor Sênior e Especialista em Educação do Banco Interamericano de Desenvolvimento (2011-2018), além de ter ocupado cargos de direção no governo do estado de São Paulo e de gerência no Ministério do Planejamento. Idealizador e cofundador do Movimento Colabora Educação, é mestre em economia política internacional, pela London School of Economics, onde estudou como bolsista Chevening, do governo do Reino Unido.

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