Coluna

Em busca de pensamentos felizes em tempos de guerra

    Recontar o passado para dar à população negra o destaque merecido  inclui falar sobre uma infinidade de trajetórias portadoras de muita potência e de grande força vital

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    Acabo de desfrutar de duas semanas de férias e, diante da pergunta sobre o que escrever para a coluna desta semana, o meu desejo seria encontrar um assunto suave para falar. Eu sei que é possível despertar sentimentos amenos através da escrita. Todos os dias, cronistas e escritores o fazem muito bem, com leveza, poesia e empatia. Basta pensar nos textos do escritor angolano José Eduardo Agualusa e da brasileira Ana Paula Lisboa, por exemplo, sempre cheios de beleza, mesmo quando falam sobre a dor. Como leitor sou muito agradecido que o façam. Precisamos da beleza e das boas notícias para alimentar a alma.

    Mas remexo os meus sentimentos, recolho os fragmentos de pensamentos e ideias que me vêm à cabeça e encontro grande dificuldade para organizar pensamentos felizes. A verdade é que vivemos, no Brasil, submetidos a um estado constante de guerra. E ter pensamentos felizes nessas condições requer muita vontade de viver - uma vontade constantemente minada pelo cotidiano de horror e morte produzido pela guerra.

    Não podemos fechar os olhos à constância do horror, do terror e da violência patrocinada pelo Estado. Massacres como o da favela do Jacarezinho ou o da comunidade do Salgueiro, não podem continuar ignorados. Não vai dar para “desver” a cena transmitida ao vivo das mães e familiares retirando do mangue os corpos crivados de balas dos seus filhos e maridos, na comunidade do Salgueiro. Foram mais de 1.500 disparos feitos pelas armas dos policiais. Quantos tiros são necessários para se matar uma pessoa?

    O Brasil durante um tempo se esmerou na produção de uma imagem de um país pacífico e avesso à violência. Também não éramos racistas. No entanto, essa percepção mudou. A violência e o racismo, na verdade, são elementos fundadores desta nação que tentou se imaginar de outro modo, mas sucumbiu à realidade dos donos de poder, acostumados à posse de terras, de bois e de seres humanos.

    A violência e o racismo são elementos fundadores desta nação que tentou se imaginar de outro modo, mas sucumbiu à realidade dos donos de poder, acostumados à posse de terras, de bois e de seres humanos

    Nos últimos tempos, o “partido da violência” parece ter avançado na consolidação do seu poder sobre o Brasil; despertando o que a sociedade brasileira tem de pior, ocupando as instituições, impondo a sua voz, manipulando o medo e mobilizando o ódio. O partido da violência soube se aproveitar da covardia e da ganância dos donos do poder no Brasil - poder econômico, poder político e poder simbólico. Um poder que se estabeleceu a partir da propriedade de terras e de homens, montado sobre o escravismo e renovado pelo mito supremacista branco, embalado cuidadosamente por políticas públicas de embranquecimento e de controle social no pós abolição. Uma herança permanentemente atualizada. Um racismo nunca verdadeiramente contestado, com raras exceções, nem pela direita, nem pela esquerda. Uma classe senhorial sustentada pela exploração de mãos negras que ali sempre estiveram para servir, corpos escravizados ou quase escravizados, submetidos pela violência e também por uma cultura de subalternização que alcança, em maior ou menor medida, toda a sociedade.

    Reflito, então, no que ouvi recentemente do professor e pensador, Edson Cardoso, a respeito da experiência negra no Brasil: vamos precisar contar o passado novamente para que possamos dar aos fatos ocorridos com a população negra o destaque merecido. E esse processo, embora inclua uma história carregada de terror, contém também uma infinidade de trajetórias portadoras de muita potência e de grande força vital. Isso me anima, enfim, a encontrar pensamentos felizes em meio à guerra.

    Começo pelo que salta aos olhos: a força de uma juventude que está dando um show para todos os lados que olhamos. Na COP26, encerrada recentemente, assistimos ao surgimento de respostas e cobranças de ações essenciais à proteção da vida no planeta produzidas por jovens de todos os quadrantes do mundo, como a adolescente sueca Greta Thunberg, que ganhou admiração mundo afora por sua coragem e disposição mundial, ao chamar a atenção para a responsabilidade dos governos em dar uma resposta à crise climática. As melhores ideias e os melhores momentos da COP26 foram produzidos não pelos modorrentos representantes de governos, mas por jovens de todos os quadrantes do planeta, em especial de lideranças indígenas. Do Brasil, estiveram lá representantes das juventudes das periferias e favelas, a juventude negra e indígena, com grande destaque para as mulheres. Foi bonito de ver.

    Nas artes e na cultura explodem novos autores, músicos, cantores, artistas de todos os gêneros e áreas, uma lindeza. Na literatura e no audiovisual, o mundo dos contadores de história, chamam a atenção talentos como o de Yasmin Thainá, Ana Paula Lisboa, Jessé Andarilho, Eliana Alves Cruz, Geovani Martins, Itamar Vieira Junior e tantas outras vozes que vêm encontrando espaço nas frestas de um mercado que sempre se fechou a quem não reproduzia o cânone dominante, marcadamente branco e masculino. A Flup - Festa Literária das Periferias - recém-encerrada e que completou dez anos em 2021, tem sido um celeiro constante para o surgimento e a visibilidade de uma potência criativa ainda pouco reconhecida nos círculos tradicionais.

    No ativismo político, novas vozes trazem o seu recado e reivindicam o seu lugar na construção do futuro, em particular as que representam os movimentos negros e de periferias que enfrentam a política permanente de extermínio por parte do Estado.

    Tudo isso me traz esperança. São processos concretos que tensionam e disputam o Brasil.

    Mas junto com isso também trago na cabeça umas contas de vidros que abrem novos horizontes e permitem encontrar pensamentos felizes e esperança, em meio aos meus fantasmas e medos.

    Lentes que me permitem pensar, com alegria, na imensidão do mar. Na profundidade dos oceanos e na vastidão de suas águas.

    Na escuridão profunda do espaço infinito, onde as galáxias não são mais do que grãos de poeira. Naquilo que não se conhece, nem se reconhece nas medidas demasiadamente humanas de tempo ou de espaço.

    Tenho esperança no mistério do não existir. Na possibilidade da não existência. Na aceitação pacífica do fim. Mas também tenho esperança na vida. Essa combinação improvável de encontros que nos permite nascer. No ar que respiro. Nos sabores e nos cheiros que sinto. Na sede e na fome saciadas.

    Tenho esperança no abraço, no amor e, sobretudo, na arte.

    Atila Roque é historiador, cientista político e diretor da Fundação Ford no Brasil. Exerceu papel de liderança em diferentes organizações da sociedade civil no Brasil e no exterior. Foi diretor-executivo da ActionAid International nos EUA e do INESC (Instituto de Estudos Socioeconômicos). Antes de assumir a Fundação Ford, em 2017, foi diretor-executivo da Anistia Internacional no Brasil. Faz parte do Conselho Diretor do GIFE (Grupo de Institutos, Fundações e Empresas).

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