Coluna

Como dietas ‘detox’ podem aumentar a produção de toxinas

    Regimes alimentares espalhados pela internet prometem promover o emagrecimento a partir da eliminação de ‘substâncias danosas’ ao nosso organismo. Mas que substâncias são essas?

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    Começou um novo ano e, com ele, vêm as resoluções típicas dessa época, incluindo fazer regimes para contrabalancear os excessos cometidos em 2020. Ou pelo menos é isso que sugerem as propagandas que aparecem nas minhas mídias sociais, que recentemente andam repletas de sugestões de produtos para remover toxinas do meu corpo: as tais dietas “detox”. Os algoritmos de propaganda obviamente não compreendem que sou uma cientista que estuda metabolismo e efeitos de dietas. Portanto, sei que não existem dietas mágicas.

    Curiosamente, embora eu seja uma especialista que trabalha especificamente com a bioquímica do corpo, não tenho a menor ideia do que são as tais toxinas que essas dietas supostamente eliminam de nós. Não é por falta de procurar: já entrei em sites desse tipo de dieta na tentativa de encontrar quais são as tais moléculas eliminadas e como as dietas o fazem, mas não tem nada lá além de menções vagas a supostos compostos que se acumulam em nosso organismo pela ingestão de alimentos que são considerados ruins ou devido ao estresse. O padrão que vejo nesses sites é que a maioria dessas dietas envolve diminuir drasticamente a ingestão de calorias por alguns dias, tomar muitos sucos “naturais”, de frutas e vegetais (frequentemente na forma de produtos preparados pela empresa que postou o anúncio), e restringir a ingestão de carnes.

    Faz sentido fazer isso para eliminarmos toxinas do nosso corpo? Para entender a resposta a essa pergunta, primeiro precisamos entender o que significa a palavra “toxina”. Instintivamente, sabemos que toxinas são substâncias que são danosas a nós, e essa toxicidade realmente faz parte da definição do termo. Tecnicamente, a palavra toxina também se restringe apenas a produtos danosos que são produzidos por organismos vivos, e não inclui produtos sintéticos. Desse modo, não faz sentido a tendência dessas dietas de dar preferências a produtos naturais (ao mesmo tempo que, paradoxalmente, promovem venda de suplementos industrialmente processados). Toxinas, por definição, são produtos naturais, provenientes de seres vivos.

    A verdade é que não há nenhuma ciência ou lógica científica que dê suporte às dietas detox, a despeito de sua ampla divulgação e uso

    Além de serem naturais, toxinas são moléculas que causam efeitos danosos em doses relativamente baixas. Aqui, a definição é um tanto complexa, porque tudo é tóxico em alguma dose. Até mesmo a água, que tanto precisamos beber como produzimos nas nossas mitocôndrias, é tóxica se ingerida em excesso, e já causou mortes em pessoas que se hiper-hidrataram, bebendo mais de um litro de água por hora. Mas, como a quantidade de água que é necessária ingerir para se intoxicar é bastante alta, geralmente não pensamos na água como toxina. O termo é usualmente aplicado a moléculas como a toxina botulínica, proteína de bactérias que crescem em ambientes com pouco oxigênio, e que causa toxicidade em concentrações muito, muito baixas (apenas 2 bilionésimos de grama por quilo de peso são necessários para matar um ser humano). Além de ser útil medicinalmente para controlar a contração muscular (com o uso do Botox), pode estar presente em alimentos como mel, motivo pelo qual o CDC (centro americano para controle e prevenção de doenças) não aconselha seu consumo antes de um ano de idade. Causa estranheza então que um dos protocolos “detox” mais comuns que encontrei consiste em passar dias bebendo apenas água com mel e limão.

    Para aumentar a confusão de como essas dietas sugerem eliminar supostas toxinas, elas quase sempre eliminam carnes do cardápio. Não temos o costume em nossa sociedade de comer animais que produzem toxinas como cobras, escorpiões ou aranhas. As carnes animais que comemos consistem primariamente de proteínas musculares e gorduras animais, idênticas às proteínas musculares e gorduras que nós produzimos e necessitamos em nossos corpos. Contém muito menos variedade de nutrientes que alimentos derivados de plantas e, por isso, possuem menos moléculas potencialmente benéficas como vitaminas e antioxidantes, mas também têm muito menos probabilidade de conter toxinas. Novamente, o que se vende como uma dieta “detoxificadora” não faz sentido do ponto de vista da análise de sua composição molecular.

    A ideia de que diminuir drasticamente a ingestão de calorias é vastamente promovida pelas propagandas de dietas “detox”. É como se perder peso (resultado de diminuir a ingestão de calorias) resultasse em perder as supostas “toxinas”. Porém, sabemos que quando se tem uma perda de peso, o fígado produz moléculas chamadas corpos cetônicos, que são usadas como fonte de energia por diversos tecidos em condições normais de intervalos entre refeições. Isso acontece em todas as pessoas, pois todos temos reservas de gorduras, por mais magros que sejamos. Em um jejum mais extenso e intenso, esses corpos cetônicos podem se acumular em quantidades maiores, e serem tóxicos. Os corpos cetônicos são a causa da cetoacidose diabética, complicação grave que pode levar à coma e à morte, e também podem acumular em não diabéticos com dietas extremas. Em outras palavras, o jejum, tão associado à “detoxificação”, na realidade pode induzir o corpo a produzir toxinas.

    A verdade é que não há nenhuma ciência ou lógica científica que dê suporte às dietas “detox”, a despeito de sua ampla divulgação e uso. Esse modismo potencialmente perigoso precisa ser eliminado. Neste ano de 2021 eu gostaria de ter como resolução nos “detoxificar” no sentido abstrato, eliminando notícias anticientíficas do nosso meio, como as amplamente difundidas pelo presidente antivacina e pró-cloroquina, Jair Bolsonaro.

    Alicia Kowaltowski é médica formada pela Unicamp, com doutorado em ciências médicas. Atua como cientista na área de Metabolismo Energético. É professora titular do Departamento de Bioquímica, Instituto de Química da USP, membro da Academia Brasileira de Ciências e da Academia de Ciências do Estado de São Paulo. É autora de mais de 150 artigos científicos especializados, além do livro de divulgação Científica “O que é Metabolismo: como nossos corpos transformam o que comemos no que somos”. Escreve quinzenalmente às quintas-feiras.

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