Coluna

Branquitude: hora de tocar o despertador da nossa cidadania

    Em 2020, a sociedade branca brasileira foi obrigada a virar o espelho para si própria. O desafio agora é impedir a banalização da crítica social

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    A pandemia tem mexido com nossos regimes temporais. De um lado, tudo parece demorar muito. Compromissos ficam todos nivelados, não há mais final de semana ou horário de trabalho. De outro lado, a vida da gente parece escorregar por entre os dias do calendário. A semana mal começa e logo chegamos novamente ao sábado. Os acontecimentos também correm ligeiros e o que parece ter ocorrido ontem, já vai completando um ano de existência. Me dei conta desse tempo sem futuro, mas que continua a correr, quando o assassinato de George Floyd, em Minneapolis, completou um ano de existência no dia 25 de maio.

    Em 2020, a violência das imagens foi tal, com um policial sufocando Floyd à vista de todos, que fez com que o movimento #Blacklivesmatter ganhasse repercussão muito além do quintal norte-americano, encontrando imensa ressonância no Brasil; país de larga convivência com um racismo estrutural e institucional, e que guarda uma importante especificidade. Por aqui, o mito da democracia racial, que pode ser traduzido como “o mito da igualdade de oportunidades”, fez com que o tema não ganhasse a importância que devia. Afinal, nunca é tarde para lembrar, mais uma vez, que dos 12 milhões de africanos e africanas que deixaram seu continente, apenas 10 milhões desembarcaram nas Américas, e desses 4.8 milhões tiveram como destino final o Brasil. Nunca é tarde para informar, também, que nosso problema não ficou retido no passado. Ao contrário, as elites dirigentes, em sua maior parte brancas ou entendidas como tal, trataram de naturalizar a desigualdade e transformá-la em objeto de “mérito”. Defender a ideia de mérito no Brasil significa, de alguma maneira, advogar a superioridade branca, uma vez que são esses grupos que detém a riqueza e os cargos mais altos em todas as instituições, públicas e privadas, do país. Também detém a possibilidade da ascensão social.

    Se fôssemos comparar a situação com uma corrida com obstáculos, seria igual a imaginar que uma parte dos atletas começa a prova 500 metros na frente dos outros, ou até que “correm sozinhos”. O que essas elites não reconhecem – e fazem questão de não enxergar – é como o fato de ser branco ou branca traz todo tipo de vantagens numa sociedade estruturada pelo racismo. A produção do lugar de superioridade por parte das elites dirigentes, a produção da subalternidade por parte do colonizador por sobre o colonizado, e a construção de um racismo anti-indígena e anti-negro conformam uma política longeva e que tem nome: branquitude.

    Falar de raça no Brasil foi inclusive, e durante muito tempo, um tema tabu: um “não tema”. Lima Barreto, que denunciou a desigualdade racial já no início do século 20, explicou que as pessoas costumavam acusá-lo de ser “desagradável”. O que é ser agradável, então? Não falar do assunto ou tratar de minorar sua importância com a desculpa de que raça é um conceito universal – só existe uma. Se é certo que o conceito de raça no plural não se verifica na biologia, como cientista social que sou, aprendi que existem “raças sociais”. A própria sociedade trata de criar raças, destacando características físicas e tomando perfis sociais recorrentes – de repetição escolar, por exemplo – como dados da “natureza” que não são. Conforme mostra o etnólogo Claude Lévi-Strauss, interessa entender, como nesse caso, “a sociedade faz trapaça com a natureza”.

    Demorou, mas vão ficando mais claras as potencialidades dessa balela nacional construída por diferentes governos e intelectuais brasileiros que, ao longo do tempo, preferiram camuflar o conflito ao invés de lidar com ele. Por aqui, as populações negras ganham menos para executarem os mesmos trabalhos, vivem menos, têm menor acesso à educação, à moradia, ao transporte público e a tratamentos de saúde preventivos, compõem a maioria da população carcerária e são as que morrem mais e mais cedo. Pesquisas recentes mostram como são as pessoas negras as maiores vítimas da covid, e o motivo não é biológico: é histórico e social.

    O padrão de beleza é esse: musas brancas e bem aquinhoadas socialmente. O problema não é o padrão em si. Assim como não se trata de uma questão de gosto ou de mau gosto

    Ser branco no Brasil produz, portanto, uma vantagem estrutural inegável. Talvez por isso, nós brancos estamos muito acostumados a falar da raça dos “outros” (e não tanto da “nossa”), como se o branco fosse não só um padrão universal, como uma “raça neutra”. Ora, traficantes do perverso comércio de almas eram em sua imensa maioria brancos, assim como foi a Europa que criou a escravidão moderna, que pressupôs a posse de uma pessoa por outra. Foram também as populações brancas que inventaram as teorias deterministas raciais, lançadas bem no contexto de desmontagem do escravismo no final do século 19, para justificar a desigualdade e a subjugação não mais a partir de questões históricas, mas fiadas numa pretensa explicação biológica. Foram também as populações de origem europeia que criaram as teorias do branqueamento, em inícios do século 20, as quais supunham que no espaço de três gerações seríamos todos brancos; quem sabe até gregos, como argumentava Oliveira Viana. Isso sem esquecer do papel de Gilberto Freyre e de Arthur Ramos, nos anos 1930, na construção do poderoso conceito de “democracia racial” – cujo impacto fez com que o Brasil fosse elevado pela Unesco, em 1957, a exemplo para um mundo saído da guerra, quando deveria funcionar como contra-exemplo.

    O certo é que a branquitude é um sistema tão complexo e enraizado no Brasil, que substituímos raça por cor e achamos que dessa maneira resolvemos a questão. Mas cor não é apenas fenótipo por aqui. Cor é também origem. Por isso também somos capazes de fazer com que algumas identidades virem brancas e outras não. Por exemplo, judeus e libaneses são logo acomodados como brancos. E aderem a esse tipo de caracterização: se tornam brancos e compartilham desse paraíso racial (para poucos). Muito diferente é a situação da população que vem da África ou do Caribe, onde o uso de mão de obra escravizada foi muito generalizado.

    E o problema é que no Brasil o racismo é claramente “anti-negro”. Quem é pardo no país? Aquele que nasceu de um casamento multi-racial com marcas de fenótipo negro. Se a pessoa nasce mais branca ela é logo registrada como tal. Pois mestiçagem não funciona como liquidificador; ela racializa a descendência e assim a divide.

    A branquitude também produz padrões brancos de beleza (ditos) universais. Isto significa entender que estamos diante de uma particularidade social que se pretende universal. Uma mulher branca de olhos azuis não é exótica. Ela é linda e ponto final. Exóticas são as mulheres negras, orientais ou indígenas. Quando é que definimos uma roupa como étnica? Quando ela lembra costumes que não são os “nossos”, que nos pretendemos apenas “civilizados”: estilo neutro. Nariz “normal” é aquele mais fino, pois o mais largo é um ethnic nose, conforme demonstram propagandas de cirurgias plásticas para corrigir tal “imperfeição”. “Transição capilar” é um nome bonito para alisamento de cabelos, visando justamente conquistar a “normalidade”. Qual é o padrão presente nas propagandas do Governo Federal? Crianças brancas de cabelo liso, muitas vezes loiras e de olhos azuis, como se morássemos em países escandinavos.

    O padrão de beleza, herdado da Renascença, é esse: musas brancas e bem aquinhoadas socialmente. O problema não é o padrão em si. Assim como não se trata de uma questão de gosto ou de mau gosto. Trata-se de observar como se dá a produção dos gostos do colonizador que se impõe por sobre o do colonizado. Esse é um outro poder o poder de produção de subjetividades do colonizador que estabiliza hierarquias de superioridade e de inferioridade. O muro faz parte de um contexto de periferia, o que torna a situação ainda mais deslocada e estranha. Como se fossem retiradas da biologia e vinculadas a padrões de beleza.

    E esse tipo de operação classificatória tem a capacidade de funcionar como uma espécie de guia geral: nós temos sociedade, eles tribos; nós temos língua, eles dialetos; nós temos arte, eles artesanato; nós temos religião, eles crenças. O classificador é, assim, aquele que detém o monopólio do julgamento, e se sente capacitado para definir quem é o “outro” e quem somos “nós”.

    Essa capacidade de “nós os brancos” vivermos numa sorte de normalidade confortável faz com que achemos que não temos raça: somos na verdade, a régua e o compasso. Faz com que possamos brincar com o tema, uma vez que nenhum de nós corre o risco de ser assassinado por causa da nossa cor, como ocorreu com George Floyd e tem ocorrido corriqueiramente no Brasil.

    2020 será lembrado como o ano da pandemia, mas também como o ano em que a sociedade branca brasileira foi obrigada a virar o espelho para si própria. O problema é não deixar que a crítica social acabe em banalização ou mero check-list. Hoje em dia virou mantra de branquitude afirmar que “não basta a pessoa dizer que não é racista, é preciso ser antirracista”, ecoando a frase de Angela Davis e, aqui no Brasil, de Djamila Ribeiro. Mas o que é ser antirracista? Afirmar que você “gosta de pessoas negras” não é prova de seu antirracismo. Ao contrário, uma pessoa que premeditadamente diz “não gostar de negros” é preconceituosa e racismo é crime no Brasil. A pergunta, essa sim desconfortável, é o que será que você fez para chegar a esse lugar de poder e prestígio em que se encontra? Como conseguiu agarrar essas oportunidades? Não adianta dizer que as oportunidades são iguais; muitos postos são alcançados por indicações e essas vêm sempre das mesmas redes de relações. É assim que a brancura pressupõe a posse e o monopólio da ascensão social e econômica. Não quero dizer que pessoas brancas não têm méritos próprios. Tem sim. Mas, o certo é que nós não precisamos competir com os 56,4% dos brasileiros que não são brancos.

    Empresas apenas com brancos não serão antirracistas apenas se patrocinarem uma palestra sobre o tema. Só falar de raça não produz tensão e conflito, pois a questão não é moral, é de ordem prática. Escolas com alunos só brancos não mudarão de atitude ao adotarem livros sobre o tema. Só serão antirracistas se promoverem a inclusão e a diversidade em suas salas de aula e quando alterarem seus currículos ainda tão coloniais, masculinos e brancos.

    O problema é que não há manual para postura antirracista. A questão é existencial e pragmática. Que posição você ocupa nesse mundo? Quem você contrata? Enquanto tivermos um problema dessa fundura, enquanto formos o 6º país mais desigual do mundo, com os negros ocupando as posições mais baixas da nossa pirâmide social, enquanto não abrirmos espaços em nossas empresas, instituições e escolas, enquanto fecharmos os dois olhos para o genocídio negro e para os problemas de segurança nacional, continuaremos a preservar essa sociedade de privilégios que pratica uma branquitude tão exclusiva como pretensamente transparente. Continuaremos, então, a construir um país em que 51,4% da população trabalha para manter os privilégios de uma minoria que exerce a branquitude social.

    O racismo no Brasil tem cor, fenótipo, raça social e origem. É definitivamente anti-negro a despeito de se conhecer a discriminação que sentem as populações indígenas e orientais. Mas a maioria populacional negra no Brasil, e sua minoria na representação, torna a agenda ainda mais aguda. Precisamos bem mais do que da nossa solidariedade para com George Floyd. Precisamos trabalhar para que Marielles, Betos Freitas, Ágatas, João Pedros, Amarildos, Robsons e tantas outras pessoas não sejam assassinadas diante de nossos olhos sem que nada mude. Precisamos entender que o presente está cheio de passado e que ou incluímos ou vamos continuar a apostar em uma história projetada para o futuro, com um eterno “viveram felizes para sempre”. É hora de entender por que uma chacina como a de Jacarezinho, no Rio de Janeiro, que resultou na morte de 28 pessoas – até hoje mal identificadas – não leva toda a sociedade civil às ruas, como com certeza faria se um evento paralelo ocorresse na Vila Madalena, em São Paulo.

    O Brasil é um barril de pólvora pronto para explodir. Ou acordamos para o privilégio da branquitude ou, a qualquer hora, o caldo entorna. Como cantou Caetano Veloso: “O Haiti é aqui” (e com direito a covid-19 e governo retrógrado de Jair Bolsonaro).

    Lilia Schwarcz é professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.

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