Coluna

André Esteves, a persistência das elites e o desenvolvimento

    As conversas ao pé do ouvido mencionadas pelo dono do BTG Pactual revelam obstáculos importantes ao desenvolvimento econômico 

    No dia 25 de outubro, repercutiu brevemente na imprensa a divulgação de um áudio contendo falas de André Esteves, dono do Banco BTG Pactual. Para além dos elementos que mereceram maior destaque nas manchetes – seja a comparação entre o golpe de 1964 e o impeachment que removeu Dilma Rousseff da Presidência, ou a descrição de conversas com autoridades da República – o mais interessante do episódio é o que ele revela sobre como a elite política e econômica opera no Brasil. De passagem, isso põe em relevo alguns dos desafios que esse modus operandi coloca para o desenvolvimento.

    Primeiro, e mais óbvio, está a forma como Esteves relata, não sem um evidente orgulho, o grau de acesso que ele tem ao mais alto nível do poder político. Nesse aspecto, as consultas do presidente do Banco Central a respeito de suas opiniões sobre política monetária, são das mais comezinhas. De fato, é parte do trabalho da autoridade monetária manter o pulso dos mercados financeiros através dos quais a política do BC também conduz sua influência sobre a economia. Se Roberto Campos Neto está consultando apenas Esteves, ou uma meia dúzia de seus pares, isso claramente representa um problema. Os áudios, por si, não dizem muito a esse respeito.

    Mas não é só o presidente do BC que aparece em cena. O presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira, supostamente também consulta Esteves a respeito de desdobramentos políticos. Mais ainda, o banqueiro também tem acesso direto aos ouvidos de ministros do Supremo Tribunal Federal, a quem aconselha em temas como a independência institucional do Banco Central.

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    Filipe Campante é Bloomberg Distinguished Associate Professor na Johns Hopkins University. Sua pesquisa enfoca temas de economia política, desenvolvimento e questões urbanas e já foi publicada em periódicos acadêmicos como “American Economic Review” e “Quarterly Journal of Economics”. Nascido no Rio, ele é PhD por Harvard, mestre pela PUC-Rio, e bacharel pela UFRJ, todos em economia. Foi professor em Harvard (2007-18) e professor visitante na PUC-Rio (2011-12). Escreve mensalmente às quintas-feiras.

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