Coluna

AI-tocracias: como tecnologia e autocracia interagem

    Frequentemente, regimes autocráticos têm dificuldade em sustentar inovação tecnológica de ponta. A revolução da inteligência artificial pode apontar um caminho perigosamente diferente, ao alinhar incentivos de controle político e geração de dados

    A democracia tem enfrentado um momento de desafios e incertezas ao redor do mundo, no que vem sendo denominado “recessão democrática”. Pela primeira vez em algumas décadas, desde o “fim da história” descrito por Francis Fukuyama (e incompreendido por muitos) há quase 30 anos, não está claro se o futuro pertence à democracia liberal, ou a alternativas autoritárias.

    Em particular, o crescimento sem precedentes da China trouxe à baila a possibilidade de que um modelo autocrático ofereça um dinamismo econômico superior. Se isso pode se sustentar de modo duradouro é uma questão em aberto, e há razões para ceticismo a despeito do que preconizam os entusiastas do modelo chinês e de sua ênfase no planejamento estatal. No entanto, há algo novo que pode vir a criar uma vantagem econômica para regimes autocráticos: a tecnologia da inteligência artificial.

    Para entender esse elemento novo, cabe primeiro reconhecer o já sabido: se há algo que os economistas aprenderam ao longo do estudo do desenvolvimento econômico, é que o crescimento de longo prazo depende da inovação tecnológica. É possível crescer por algum tempo com base na acumulação de insumos – adicionando máquinas, construindo fábricas, trazendo mais gente para o mercado de trabalho. Isso, porém, em algum momento encontra limites: fica cada vez mais caro produzir mais simplesmente comprando mais máquinas ou contratando mais gente. Continuar crescendo requer fazer mais e melhor com os mesmos insumos, e é isso que a inovação tecnológica faz.

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    Filipe Campante é Bloomberg Distinguished Associate Professor na Johns Hopkins University. Sua pesquisa enfoca temas de economia política, desenvolvimento e questões urbanas e já foi publicada em periódicos acadêmicos como “American Economic Review” e “Quarterly Journal of Economics”. Nascido no Rio, ele é PhD por Harvard, mestre pela PUC-Rio, e bacharel pela UFRJ, todos em economia. Foi professor em Harvard (2007-18) e professor visitante na PUC-Rio (2011-12). Escreve mensalmente às quintas-feiras.

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