Coluna

A desinformação e a necessidade de contar histórias

    A desinformação é uma questão que perpassa a necessidade de o ser humano contar histórias, selecionando aquelas que lhes interessam 

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    Vou começar esse artigo recontando uma antiga história da tradição oral oriental, protagonizada pelo sábio Nasrudin (Naceradim ou Nasrudim Coja foi um sábio sufi que viveu no século 13, na Turquia. Sobre ele contam-se muitas histórias que trazem ensinamentos da sabedoria popular). Vamos a ela:

    “Certa vez Nasrudin resolveu procurar novas técnicas de meditação. Selou seu jumento e iniciou uma peregrinação pelo mundo: foi à Índia, à China, à Mongólia, conversou com todos os grandes mestres, mas nada conseguiu.

    Então, ouviu falar que havia um grande sábio no Nepal. Viajou até lá, mas, quando subia a montanha para encontrá-lo, seu jumento morreu de cansaço. Nasrudin enterrou-o ali mesmo e chorou de tristeza.

    Alguém passou na hora e comentou: ‘Isso deve ser o túmulo de algum santo e você era seu discípulo. Na certa está lamentando a sua morte’.

    ‘Não, é apenas o túmulo de meu jumento, que morreu de cansaço’, disse Nasrudin.

    ‘Não acredito’, disse o recém-chegado. ‘Ninguém chora por um jumento morto. Isso deve ser um lugar santo, onde os milagres acontecem e você está tentando escondê-lo!’

    Por mais que Nasrudin argumentasse, não adiantou. O homem foi até a aldeia vizinha, espalhou a história de um grande mestre que realizava curas em seu túmulo e logo os peregrinos começaram a chegar.

    Aos poucos, a notícia da descoberta do ‘Sábio do Luto Misterioso’ se espalhou por todo o Nepal, e multidões correram para o lugar. Um homem rico foi ali, achou que tinha sido recompensado e mandou construir um imponente monumento onde Nasrudin enterrara seu ‘mestre’.

    Em vista disso, Nasrudin desistiu de tentar contar às pessoas o que de fato havia ocorrido, e assim, resolveu deixar as coisas como estavam.

    Mas aprendeu de uma vez por todas que, quando alguém quer acreditar numa mentira, ninguém lhe convencerá do contrário.”

    Compreender o fenômeno da desinformação passa pelo entendimento da estrutura narrativa e sobretudo pela compreensão de como usamos a linguagem para nos comunicarmos

    Penso que, antes mesmo de terminar de ler essa pequena história, você já deve estar pensando: “Hummm... essa história eu conheço! E ela não aconteceu no século 13”! Pois é, em pleno século 21 cá estamos nós às voltas com as histórias distorcidas, deformadas, “editadas”, “ajustadas”, as famigeradas fake news. Como já sabemos – e de novo acabamos de testemunhar – elas não são novidade. Muita gente, quando constata tal fato, logo desiste de combater essa praga, porque conclui que, se ela sempre existiu, logo, é inerente ao ser humano e, portanto, para transformar um fenômeno como esse, há que se reestruturar elementos profundos da nossa psique.

    A mente humana está configurada para contar histórias. Organizamos o nosso pensamento por meio da estrutura narrativa de histórias com começo, meio e fim. É por meio delas que damos significado à nossa experiência. Portanto, quando falamos das tais “narrativas” que tomam conta das redes sociais e provocam toda sorte de discussões, polêmicas, discursos de ódio – e também troca de ideias e compartilhamento de experiências, é preciso dizer – estamos nos referindo àquelas que forjam as nossas memórias. E sem memória simplesmente não existimos. Por isso, contar histórias faz parte da nossa essência.

    Uma das maiores referências relacionada às pesquisas sobre as evidências de que todas as histórias são ficcionais é o linguista e cientista cognitivo americano Mark Turner, que considera a literatura não apenas como uma arte, um saber ou ainda uma disciplina, mas como parte da mente humana, afirmando que a nossa mente é inerentemente literária. Turner estuda as narrativas a partir de uma perspectiva cognitivista mostrando que elas não estão presentes apenas em textos literários, mas fazem parte da cognição humana. É nessa perspectiva que sugiro pensarmos no fenômeno da desinformação, como uma questão que perpassa a necessidade de o ser humano contar histórias, selecionando aquelas que lhes interessam sob determinados aspectos (o auto-engano), mas também como um evento que tomou essa proporção impulsionado por outros elementos do universo digital. Acredito que decifrar a ocorrência da desinformação passa pelo entendimento da estrutura narrativa e sobretudo pela compreensão de como usamos a linguagem para nos comunicarmos, pois é por meio dela que nos expressamos.

    Há um ditado popular italiano que diz: “Se non è vero, è ben trovato” (“Se não é verdade, é bem contado”), e de uma maneira bastante simples sintetiza os limites e idiossincrasias a que estamos submetidos todas as vezes em que construímos qualquer narrativa. Há um esforço sobre-humano quando se deseja retratar ou relatar uma realidade, pois mesmo as imagens - que por algum tempo acreditamos que eram o fiel retrato do real - também sofrem a influência e a determinação do olhar, direção e enquadramento de quem a produz. Nesse sentido, podemos afirmar que toda a narrativa é ficção, porque cada fato é relatado sob uma determinada ótica, interesse, a partir de determinadas memórias e referências. E aí a tal da objetividade vira um líquido fluído, que escorre por entre os diversos suportes narrativos que usamos.

    O ser humano necessita contar histórias e por meio delas convencer (ou converter) o outro, e tal fato assumiu uma escala imensurável porque essas narrativas foram se multiplicando por meio dos algoritmos, formando uma teia complexa e infinita sobre a qual não temos mais controle. A desinformação faz parte de uma desordem criada pela confusão entre o mundo online e o offline nas redes, e a cada dia é mais difícil reconhecer uma narrativa construída a partir de reflexões e experiências sustentáveis para nela confiar.

    A verdade é uma parte de um todo que não damos conta de abarcar, e com isso muitos filósofos concordam. Porém, mais do que nunca, precisamos discriminar os elementos que compõem essa desordem informacional. O entendimento de como funcionam as estruturas narrativas e o quanto elas são fundamentais para a nossa comunicação é um bom começo de conversa. Mas não é tudo (como há de ser com relação a qualquer questão intrincada como essa). No entanto, pode ser a partir dessa compreensão que nos sintamos motivados a continuar tentando entender o tema, nos perguntando, por exemplo, quem ganha com todo esse ecossistema adoecido. Para combater a desinformação é fundamental nos perguntarmos quem lucra com ela e o que pretende, pois, enquanto a história corre, a narrativa segue nos confundindo e distraindo, e as nossas estruturas mais fundamentais, como a democracia, estão sendo desconstruídas. Mas isso... é assunto para outra conversa!

    Januária Cristina Alves é mestre em comunicação social pela ECA/USP (Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo), jornalista, educomunicadora, autora de mais de 50 livros infantojuvenis, duas vezes vencedora do Prêmio Jabuti de Literatura Brasileira, coautora do livro “Como não ser enganado pelas fake news” (editora Moderna), membro da Associação Brasileira de pesquisadores e Profissionais em Educomunicação - ABPEducom e da Mil Alliance, a Aliança Global para Parcerias em Alfabetização Midiática e Informacional da Unesco.

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