Coluna

‘Bidenomics’: opção pragmática pelo radicalismo

    A ameaça à democracia liberal personificada no trumpismo fez de um democrata moderado um presidente surpreendentemente ambicioso, e transformou em políticas concretas ideias que até há pouco pareciam radicais

    O debate sobre as políticas propostas pelo recém-nascido governo Biden nos EUA, desde a resposta emergencial à pandemia até os planos de investimento em infraestrutura, chegou ao Brasil. Como se pode ver nos links, há divergências sobre se o “Bidenomics” é algo desejável, e mais ainda se seria transportável ao Brasil. Mas há consenso em um aspecto: trata-se de uma agenda surpreendentemente ambiciosa.

    Por que ambiciosa? Os planos propostos envolvem números até há pouco inimagináveis de gasto público – US$ 1,9 trilhão em gastos compensatórios em resposta à crise da covid-19, US$ 2 trilhões num plano de criação de empregos e por aí vai. Para além disso, eles envolvem mudanças substanciais na própria estrutura do estado de bem-estar social americano, além de um papel explicitamente ativo do governo na busca de respostas a problemas como a mudança climática. E, do ponto de vista fiscal, a agenda envolve uma combinação entre financiamento por deficit, e propostas para aumentar a tributação dos mais ricos. Em suma, um coquetel que outrora teria sido descartado como politicamente explosivo pelos próprios democratas, especialmente em um Congresso dividido.

    Por que surpreendente? Por que Joe Biden jamais foi um apóstolo do radicalismo, muito pelo contrário. Difícil imaginar uma mais perfeita personificação do centrismo dentro do Partido Democrata, em sua longa trajetória política. Mesmo nas primárias de 2020, Biden sempre representou a opção pragmática e moderada. Quem iria esperar que o pragmatismo moderado iria desembocar numa presidência que, cada vez mais, é percebida como o que os americanos chamam de transformativa (“transformational”), para Bernie Sanders nenhum botar defeito?

    PARA CONTINUAR LENDO,
    TORNE-SE UM ASSINANTE

    Tenha acesso ilimitado e apoie o jornalismo independente de qualidade

    VOCÊ PODE CANCELAR QUANDO QUISER
    SEM DIFICULDADES

    Já é assinante, entre aqui

    Filipe Campante é Bloomberg Distinguished Associate Professor na Johns Hopkins University. Sua pesquisa enfoca temas de economia política, desenvolvimento e questões urbanas e já foi publicada em periódicos acadêmicos como “American Economic Review” e “Quarterly Journal of Economics”. Nascido no Rio, ele é PhD por Harvard, mestre pela PUC-Rio, e bacharel pela UFRJ, todos em economia. Foi professor em Harvard (2007-18) e professor visitante na PUC-Rio (2011-12). Escreve mensalmente às quintas-feiras.

    Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.