Coluna

Sobre popularidade e eleições: Bolsonaro ganhará o Nordeste?

    Não devemos atribuir a recuperação da avaliação positiva do presidente apenas ao pagamento do auxílio emergencial durante a pandemia

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    Causou grande impacto na opinião pública a divulgação dos resultados da mais recente pesquisa Datafolha, feita em 11 e 12 de agosto. A aprovação do governo Bolsonaro cresceu cinco pontos percentuais em menos de dois meses. Sua taxa de rejeição caiu dez pontos percentuais, de 44% para 34% entre os que consideram seu governo ruim ou péssimo. A reversão é digna de nota.

    Olhares menos atentos atribuíram ao resultado uma causa suficiente — o auxílio emergencial — e um ator principal — os pobres do Nordeste. A despeito de sua declarada inapetência para governar, de seu desprezo pela tragédia sanitária em curso, de sua renitente grosseria, Bolsonaro teria sido mais uma vez premiado pela sorte. Ganhou de presente do Congresso a mesma “bala de prata” que teria dado origem ao lulismo: um programa de renda para chamar de seu. Vai ganhar a próxima eleição e vai quebrar o Estado, temem os progressistas e os liberais.

    Bolsonaro mordeu a isca. Vestiu um chapéu de couro e saiu por aí. Não aceita menos que um programa com piso de R$ 300. Paulo Guedes que se vire.

    Uma leitura mais atenta dos dados mostra que não é bem assim. Comecemos pelo corte por renda. Veja o gráfico abaixo. Apresenta quem avalia o governo Bolsonaro como ótimo/bom. Esta apreciação cresceu, de modo homogêneo, em todos os segmentos de renda (representados pelo número de salários mínimos). Não foi apenas entre os pobres. Estaria o auxílio emergencial sendo tão mal administrado a ponto de beneficiar todos os segmentos de renda? Não creio. Logo, não é razoável atribuir a recuperação do governo Bolsonaro apenas aos pobres beneficiados pelo auxílio.

    Popularidade por renda

    Gráfico de barras mostra as porcentagens de avaliações "ótimo/bom" do governo Bolsonaro com base em duas pesquisas do Datafolha

    Popularidade por região

    Gráfico de barras mostra as porcentagens de avaliações "ótimo/bom" do governo Bolsonaro com base em duas pesquisas do Datafolha

    O corte regional é igualmente surpreendente: a popularidade do governo Bolsonaro cresceu muito mais no Sudeste do que no Nordeste. Aumentou 13 pontos percentuais no primeiro e apenas 6 pontos no segundo. Também não é verdade que o Nordeste se converteu rapidamente ao bolsonarismo.

    Digna de registro também é a queda da popularidade do governo na região Sul, seu tradicional reduto eleitoral. Caiu 6 pontos percentuais — o mesmo que ganhou no Nordeste.

    Se o auxílio emergencial não explica tudo, também não deve ser negligenciado. O fato é que, como fartamente demonstrado pela ciência política, o voto é econômico. O eleitor premia quem promove seu bem-estar, não importa a ideologia de quem assina o cheque. Já sabíamos disso. Bolsonaro é que chegou atrasado ao reconhecimento do fato.

    Nem Bolsonaro está obtendo todos os créditos do programa, nem todo seu desempenho pode ser explicado pelo auxílio emergencial

    O auxílio emergencial é o maior programa de renda da América Latina e, de longe, o maior programa de transferência de renda da história do Brasil. Estudo produzido por Rogerio Barbosa e Ian Prates, para a Rede de Pesquisa Solidária, demonstra que nosso coeficiente de Gini em maio teria sido de 0,57. Com o auxílio emergencial, caiu para 0,49. Sem o auxílio emergencial, a taxa de pobreza seria de 30%. Caiu para 16%. Sem o auxílio emergencial, 7% da população brasileira teria renda “zero”. 14 milhões estariam na mais absoluta pobreza.

    Apenas a título de comparação, Angela Merkel, que assumiu a coordenação dos estados alemães no combate à covid-19, mesmo sem ter competência constitucional para tal, pulou de 61% de aprovação à ação do governo federal, em 6 de março, para 83% em 15 de maio. Neste patamar permaneceu desde então.

    À luz destes dados, não é exagero especular que a aprovação do governo Bolsonaro tenha crescido pouco. É mesmo possível que o governo não esteja extraindo todos os benefícios que um programa deste tipo poderia render.

    Observe agora a trajetória da confiança na pessoa de Bolsonaro, no gráfico seguinte. Entre as duas pesquisas, os eleitores que declaram sempre confiar em Bolsonaro cresceram muito pouco. Passaram de 20% a 22%. A confiança no presidente cresceu apenas entre os mais pobres — com renda de até 2 salários mínimos — e entre os mais ricos — com renda superior a 10 salários mínimos Em ambos os casos, em apenas 3 pontos percentuais. Cresceu um pouco em todas as regiões, exceto novamente na região Sul.

    Confiança por renda

    Gráfico de barras mostra a porcentagem de pessoas em diferentes faixas de renda que dizem sempre confiar em Jair Bolsonaro, com base em duas pesquisas do Datafolha

    Confiança por região

    Gráfico de barras mostra a porcentagem de pessoas nas diferentes regiões do Brasil que dizem sempre confiar em Jair Bolsonaro, com base em duas pesquisas do Datafolha

    Há algo que está nos escapando. A recuperação da popularidade do governo Bolsonaro tem de ser procurada em outros lugares, para além do auxílio emergencial. Nem Bolsonaro está obtendo todos os créditos do programa, nem todo seu desempenho pode ser explicado pelo auxílio emergencial.

    Também há exagero na avaliação de que o Renda Brasil alavancará a candidatura de Bolsonaro nas próximas eleições municipais. Segundo o CNI-Ibope, a aprovação de Lula em 1º de novembro de 2004 era de 41%. Naquela eleição, o PT conquistou 411 prefeituras. Em 1º de dezembro de 2008, esta mesma fonte registrava 73% de aprovação ao presidente, cujo partido havido sido vitorioso em 557 municípios.

    Um estudo de Timothy Power e Rodrigo Rodrigues-Silveira, publicado na Brazilian Political Science Review, chamado “Mapping Ideological Preferences in Brazilian Elections, 1994-2018: a municipal-level study”, demonstra que a popularidade do presidente exerce, sim, um efeito gravitacional nas eleições locais. Os partidos têm motivações de sobrevivência para se aproximar do presidente, caso este seja bem avaliado.

    Mas o sucesso desta estratégia é limitado pela capilaridade prévia dos partidos. O PT não estava presente no Nordeste para se beneficiar, como partido, da popularidade de Lula. Mesmo nos áureos anos do PT, os partidos de centro-direita se beneficiaram das taxas de aprovação do presidente.

    Bolsonaro sequer partido tem. Se transferir votos, a transferência ocorrerá em favor dos partidos já instalados. Bolsonaro ficará mais dependente deles, em condições ainda mais frágeis do que aquelas vividas por Lula e Dilma.

    Há dois fatores estáveis na política brasileira: o tamanho da pobreza e a força eleitoral dos partidos não-programáticos. Até mesmo Bolsonaro acabou por entender isso daí.

    Marta Arretche é professora titular do Departamento de Ciência Política da USP (Universidade de São Paulo) e pesquisadora do Centro de Estudos da Metrópole. Foi editora da Brazilian Political Science Review (2012 a 2018) e pró-reitora adjunta de pesquisa da USP (2016 a 2017). É graduada em ciências sociais pela UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), fez mestrado em ciência política e doutorado em ciências sociais pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), e pós-doutorado no Departamento de Ciência Política do MIT (Massachussets Institute of Technology), nos EUA. Foi visiting fellow do Departament of Political and Social Sciences, do Instituto Universitário Europeu, em Florença. Escreve mensalmente às sextas-feiras.

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