Coluna

Rio de Janeiro: desastre em câmera lenta

    A antiga capital do Brasil passa por um processo de degradação similar ao de muitas cidades americanas, mas de um modo unicamente carioca

    Neste último dia 1º de março, o Rio de Janeiro completou 455 anos desde a sua fundação. Em meio ao descalabro simbolizado pela crise da geosmina e pela quase inacreditável constatação de que o Carnaval carioca está em vias de ser superado por São Paulo, resta pouca dúvida de que a cidade já viveu dias melhores.

    É natural, nesse contexto, que os cariocas nos perguntemos como foi possível que o Rio decaísse tanto ao longo das últimas décadas. Parece-me, no entanto, que talvez devêssemos indagar por que o declínio vem sendo tão lento e gradual. Como é que uma cidade e um estado com problemas estruturais tão profundos, e tão mal administrados, ainda não colapsaram inteiramente?

    Penso nisso porque a história recente do Rio tem muito em comum com as trajetórias de decadência urbana em várias partes dos Estados Unidos. Tanto no Nordeste como no chamado Meio-Oeste americano, diversos centros urbanos passaram por um mesmo processo.

    Até o meio do século passado, as grandes cidades eram essencialmente resultado de um processo de industrialização. As fábricas precisavam de operários e, portanto, era economicamente eficiente que estes vivessem próximos àquelas. Essa aglomeração gerava demanda por serviços — comida, entretenimento, cortes de cabelo — que então engendravam mais aglomeração, resultando em metrópoles.

    Ocorre que a indústria que gerava esse dinamismo minguou, ou se mudou para outros lugares mais baratos e menos sujeitos às consequências negativas dessa aglomeração. Isso levou a um processo de esvaziamento econômico que condenou esse modelo de cidade dos séculos 19 e 20.

    O Rio de Janeiro exemplifica esse fenômeno — com o agravante, é claro, do golpe representado pela mudança da capital para Brasília. A cidade não era apenas um centro industrial, mas o centro político do país. O setor público representava uma enorme parcela da atividade econômica e cumpria um papel importante na geração e sustentação do dinamismo urbano carioca. É possível argumentar que a criação de Brasília tenha tido efeitos positivos para o país — a despeito de capitais isoladas estarem associadas a mais corrupção e pior qualidade de governo, elas podem contribuir para uma maior estabilidade política — mas é inegável que para o Rio a mudança foi um completo e retumbante desastre.

    Mas é aqui que a comparação com o caso americano revela um enigma: as cidades que passaram pelo processo de esvaziamento descrito acima acabaram, em linhas gerais, tomando dois rumos distintos, em ambos os casos muito diferentes da trajetória do Rio.

    O primeiro caso é exemplificado por cidades como Nova York, San Francisco ou Boston: a decadência foi revertida com a criação de novos ramos de atividade associados não à manufatura — que decididamente se mudou para a China e alhures — mas ao setor de serviços. Nova York deixou de ser produtora de tecidos para ser um centro de finanças, Boston acolheu a biotecnologia, San Francisco voltou à pujança em torno do Vale do Silício. Nem é preciso ir tão longe: São Paulo deixou de girar em torno do prédio da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) na Avenida Paulista, e passou a ser a cidade dos “Faria Limers”.

    Administrações desastrosas como tantas sofridas pela cidade e pelo estado conseguem se repetir porque, no fim das contas, o carioca acha que o Rio vale a pena ainda que dilapidado pelo desgoverno

    O caso oposto é o das cidades que simplesmente colapsaram, como Detroit ou Baltimore — caso que conheço bem, dado que divido meu tempo entre este exemplo de decadência urbana e o pólo oposto representado pela vibrante capital, Washington, DC. Baltimore tem hoje uma população cerca de 30% menor do que já teve, e Detroit, caso extremo, tem hoje um terço do número de habitantes que abrigou no seu auge. Isso se traduz em prédios abandonados, terrenos baldios, e um cenário geral de dilapidação. O Rio de Janeiro, a despeito do que dizem muitos de seus moradores, ainda não sofreu um abandono em massa.

    O que explica esse caminho alternativo traçado pela Cidade Maravilhosa — em vez de recuperação ou colapso, uma lenta decadência? Creio que a resposta passa exatamente pelos encantos mil exaltados pela canção.

    A verdade é que muitos cariocas revelam-se dispostos a aguentar uma queda profunda na qualidade de vida — a violência, os engarrafamentos, as enchentes — para poderem aproveitar as amenidades e o estilo de vida proporcionados pela imensa dotação de belezas naturais que o Rio de Janeiro possui. Já perdi a conta de quantas vezes recebi de amigos fotos do Arpoador ou do Morro Dois Irmãos acompanhados por algum comentário do tipo “morar no Rio é uma droga [ou algum termo mais rude de conotação similar], mas é muito bom...”

    Esse apego atávico à vida carioca é, ao mesmo tempo, o mais valioso ativo que a cidade possui, e uma licença para a degradação institucional que assola o Rio. Administrações desastrosas como tantas sofridas pela cidade e pelo estado conseguem se repetir porque, no fim das contas, o carioca acha que o Rio vale a pena ainda que dilapidado pelo desgoverno.

    Exemplos dessa fidelidade abundam. Após seis décadas, uma parcela completamente descabida do governo federal permanece na cidade — sustentando em grande medida a economia local — porque um número enorme de servidores, fundamentalmente, recusa a mudança para Brasília ou, em alguns casos, São Paulo. Profissionais do mercado financeiro estão dispostos a viver na ponte aérea em nome de aproveitar os fins de semana na praia. Os cariocas, enfim, para usar as categorias do grande cientista social Albert Hirschman, abandonaram a “saída” e a “voz”, e optaram definitivamente pela “lealdade”.

    Em suma, e paradoxalmente, é o que o Rio tem de maravilhoso que mantém a cidade em um ritmo de desastre em câmera lenta, tal como o apócrifo sapo que não sente a água fervendo aos poucos. Talvez se a temperatura tivesse subido mais rápido, o Rio tivesse saltado da panela. Pense nisso, amigo carioca, na próxima vez em que estiver aplaudindo o pôr-do-sol no Posto Nove.

    Filipe Campante é Bloomberg Distinguished Associate Professor na Johns Hopkins University. Sua pesquisa enfoca temas de economia política, desenvolvimento e questões urbanas e já foi publicada em periódicos acadêmicos como “American Economic Review” e “Quarterly Journal of Economics”. Nascido no Rio, ele é PhD por Harvard, mestre pela PUC-Rio, e bacharel pela UFRJ, todos em economia. Foi professor em Harvard (2007-18) e professor visitante na PUC-Rio (2011-12). Escreve mensalmente às quintas-feiras.

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