Coluna

Quem tem medo da história e dos historiadores?

    Não se pode ir ao passado com respostas prontas, faz parte do ofício vasculhar fontes e documentos primários até que seja possível encontrar o significado no contexto

    Cresci ouvindo histórias. Neta de dois historiadores amadores e filha de um pai louco por narrativas de aventura, sempre aguardei com avidez a hora em que começavam esses verdadeiros rituais de família.

    Meu avô Vitório Camerini era italiano, nascido em Milão; baixinho e irônico, chegara ao Brasil um pouco antes da Segunda Guerra Mundial estourar. Esperto, e um próspero comerciante de tecidos, julgou corretamente que o ambiente europeu andava muito intolerante, sobretudo contra judeus, e resolveu tentar a sorte em outro continente.

    Pensou em mudar com a família para os Estados Unidos. Seu irmão mais velho já estava por lá. Mas acabou se decidindo por viajar para um desconhecido país chamado Brasil, onde alguns conhecidos já tinham se instalado. Precavido, não esqueceu seus livros. São dele, e muitos em italiano e inglês, os grandes compêndios de história que tenho comigo, de Jules Michelet (1798-1874), Jacob Burkhard (1818-1897), Edward Gibbon (1737-1794).

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    Lilia Schwarcz é professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.

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