Coluna

Quem morre enquanto os homens exercem seus podres poderes

    Nos dias em que Manaus abria valas comuns para seus mortos, a tragédia rapidamente deu lugar à disputa de poder

    Vários eram os assuntos que eu poderia tratar no texto da coluna desta semana. Vivo agora numa cidade em que é obrigatório o uso de máscaras em áreas externas. Pessoas sem máscaras serão proibidas de entrar em ambientes públicos. Aos 41 anos, essa é a primeira vez na vida que uso máscaras. Quando eu via imagens na TV em países asiáticos nos quais pessoas já fazem uso de máscaras eu me perguntava como deveria ser viver assim, vendo 40% do rosto das pessoas. Bem, agora chegou o momento de eu mesma descobrir.

    Ainda ontem, vi uma menininha de trança usando uma máscara branca que tinha no centro a imagem de uma flor. Foi quando pensei em esperança e em como as pessoas, sobretudo as das classes populares, encontram formas de sobreviver, achando (ou inventando) alguma beleza ou poesia nas tragédias. Simular uma adequação à nova realidade não deixa de ser uma forma de sobreviver.

    Percebo que, na falta de um governo em que confiem, ou melhor, que lhes transmita confiança e amparo, as pessoas se reinventam e criam alternativas de solidariedade e apoio às pessoas que precisam de ajuda. Assim como a maioria das lives, as iniciativas mais interessantes vêm de pessoas que não são celebridades. Minha amiga Graciete Santos é artesã e criou uma campanha para fabricar máscaras de tecido que serão distribuídas numa comunidade pobre em Campinas, cidade vizinha ao maior foco de infecção por coronavírus do país, o município de São Paulo. Em Salvador, existem diversas iniciativas que promovem doações: entre elas há a campanha da cooperativa de catadoras e catadores de papel e um fundo emergencial de doações criado pela @rededemulheresnegras da Bahia. Enfim, são tantas iniciativas de organizações, coletivos e até mesmo pessoas que, individualmente, doam sabão e produtos de limpeza, além de oferecer outros serviços gratuitos para quem precisa.

    As universidades públicas todos os dias anunciam iniciativas que respondem às necessidades da sociedade: produzem máscaras de proteção, álcool em gel a baixo custo, sabão. Isso sem falar nos hospitais universitários e nas pessoas da área de saúde formadas por essas instituições de ensino. Pesquisadoras e pesquisadores promovem uma verdadeira corrida nos laboratórios de pesquisa em busca de uma cura ou de um remédio já existente e que seja eficiente no combate à covid-19. Cientistas dos Estados Unidos, na semana que passou, ainda tiveram uma tarefa mais árdua: desmentir o presidente da República, Donald Trump, que afirmou (ou sugeriu) que injeções de água sanitária no corpo humano poderiam ser uma medida eficaz no combate ao coronavírus. Após a declaração, serviços de atendimento a emergências de Nova York registraram um aumento tanto no número de emergências dessa natureza — pessoas de fato experimentaram injetar ou ingerir água sanitária — quanto em pedidos de informações para checar a plausibilidade da sugestão do presidente.

    Cientistas das áreas das ciências humanas procuram decodificar as implicações da pandemia na sociedade, os impactos políticos, econômicos e sociais, além de oferecer informação de qualidade à população. Nosso maior desafio, na minha avaliação? Combater uma avalanche de fake news, de teorias da conspiração inúteis que só expõem a população ao risco, sobretudo a mais pobre, deixando-a mais confusa.

    Enquanto isso, nossas velhas demandas não param. Em Salvador, cidade em que podemos ver moradores de rua idosos perambulando pelas ruas sem destino certo, mais um jovem, Marcus Vinicius Cidreira, 21 anos, foi morto quando saiu para jogar o lixo fora. A tragédia continua nas primeiras notícias de desemprego entre pessoas amigas e familiares, na necessidade de amparo de uma pessoa ou outra que não aguenta mais a sensação de incerteza, além do cansaço físico e mental das pessoas que trabalham no sistema de saúde.

    Eis que tomamos notícia da realidade assustadora de Manaus.

    Ao ver caixões sendo colocados em valas comuns, famílias que dão adeus a distância aos seus entes queridos, e o desespero das pessoas que buscam um sistema de saúde que já entrou em colapso, assim como o sistema funerário, penso com horror numa finitude tão triste e indigna.

    Esse quase foi o tema do texto dessa semana: a importância dos rituais de morte nas culturas brasileiras, do ritual católico, que desde o período colonial fazia com que negros e brancos se organizassem financeiramente para o momento da passagem, até a complexidade dos rituais das religiões de matriz africana. Tudo isso para dizer que aquela forma de fim que estamos assistindo em Manaus, já conhecida pelas famílias de jovens negros que são mortos nas comunidades, deixa quase que morto quem ficou vivo.

    Foi então que, na sexta-feira, 24 de abril, comecei a ter a sensação de que vivo em outro país, sem pandemia, sem mortes, sem pessoas enterradas em valas, sem hospitais lotados e carentes de profissionais de saúde. Um país diferente desse em que as pessoas mais pobres têm tratado o direito de receber um benefício como um prêmio de autoridades que fazem com que se amontoem em filas para colherem suas migalhas. Na sexta-feira, entendi que vivo também num outro país, aquele que virou a página...

    Segundo bell hooks, no livro “Outlaw Culture”, a imagem e o etos do patriarcado e do poder nas Américas foram criados à sombra da personalidade de Cristóvão Colombo. O “patriarcado capitalista supremacista branco” é o legado de Colombo deixado para os homens de poder, cuja missão principal no novo mundo é a conquista, na maioria das vezes, pela violência. A violência é justificável sobre povos subjugados, negros, indígenas, mulheres, que segundo essa lógica são supostamente mais fracos. Valores culturais distintos dos europeus fizeram desses povos mais fracos: não tinham armas de fogo, não dominavam a língua europeia, não eram brancos nem cristãos, e mesmo os “outros” do sexo masculino eram feminilizados e infantilizados, logo deveriam ser subjugados também.

    Assim, o legado de Colombo nas Américas é de silenciamentos, de privilégio branco, masculino e cristão, além de violência, muita violência. Para conquistar — aqui conquista é sinônimo de domínio —, é parte natural do repertório de dominação do homem branco a violência e o desprezo pelas vidas perdidas, necessárias ao projeto de dominação. As vidas de quem morre, enquanto consequências necessárias do processo, inclusive, não devem ser lamentadas. O fato de serem consideradas menos humanas explica muito isso. Na história do Brasil e da invasão européia nas Américas, os povos indígenas sabem disso melhor do que qualquer outro grupo social.

    Os homens no poder caminham a passos firmes sobre os corpos de cadáveres e pessoas doentes, em plena guerra para decidir quem manda mais, quem é mais forte. Num impulso narcísico, tomaram o lugar no noticiário, lugar importante de holofotes, de visibilidade. Sendo assim, a tragédia das valas comuns rapidamente perdeu lugar para a disputa de poder. Enquanto Manaus abre buracos no chão para enterrar seus mortos, vivemos agora aqui uma incerteza política a respeito do que acontecerá depois.

    No tabuleiro do poder, a lei é que os pobres que se virem, pois os homens do poder têm outras prioridades neste momento

    No caso do ex-juiz, agora também ex-ministro, a preocupação com sua imagem de bom moço, de cidadão equilibrado, o faz meticulosamente construir um discurso que traz, para seu lado, a razão: “Buscamos ao máximo evitar aglomerações, não conseguimos totalmente, mas enfim”. O discurso avança, muita coisa é dita sobre o caráter técnico e neutro do trabalho que acredita ter feito, embora tenhamos extensas provas já difundidas na mídia de que as coisas não foram bem assim. Finalmente, o tema da covid-19 volta: ele lamenta tomar a decisão de se desligar do governo durante a pandemia, lamenta os mortos, mas logo se isenta “não foi por minha opção”, ou seja, a tal “decisão” era tão urgente quanto a pandemia.

    Fiquei pensando que somente alguém muito privilegiado pede demissão nesse momento e acredita que suas necessidades possam estar acima de uma pandemia. O ex-ministro continuou o balanço do seu trabalho e novamente fala de outro país que desconheço, aquele de 19% a menos de assassinatos, no qual mais de 10 mil brasileiros deixaram de morrer, segundo avaliou. Esse é um país diferente desse em que vivo, onde o número de mulheres negras vítimas de feminicídio cresceu. E por falar em feminicídio, é um crime que continuará crescendo de acordo com os dados de violência durante o isolamento social. Mortes de jovens negros e negras como Marcus Vinicius, que citei anteriormente, encontram-se onde nos dados positivos do ex-ministro, que afirma seu bom trabalho, enquanto defendia o excludente de ilicitude?

    Mas essa novela não acabaria por aí. Enquanto os leitos dos hospitais de Manaus já têm mais de 90% das suas vagas ocupadas e a cidade estaria próxima a encerrar o dia com cerca de 100 óbitos, horas depois teríamos a resposta do chefe do Executivo às falas consideradas ingratas do seu ex-subordinado.

    Na resposta construída sob uma narrativa vingativa, feroz e não menos perversa, que lhe é costumeira, o chefe do Executivo, no seu “desabafo” não mencionou as palavras covid-19, pandemia ou coronavírus em nenhum momento. Seguiu com o discurso que parece aquele do fim de um casamento, para empregar uma analogia que tanto gosta, a conjugal.

    Como bom narcisista, deixou bem claro que o mundo deve parar pela sua dor, e como todo bom drama, fez um histórico da relação que começou com um amor não-correspondido, que teve seus dias de glória e agora acabava em grande decepção. Quem sabe a plateia não ficará do seu lado e não do lado do “conge”?

    Mas nada nesse discurso era somente a crônica do final de um relacionamento. Em diversos momentos, de diversas formas, tanto pelo silêncio quanto pela menção nominal, tivemos provas do óbvio: a vida de pessoas negras, e pobres, definitivamente não importa.

    De forma desrespeitosa e cruel, a morte de Marielle Franco foi evocada, duas vezes. Primeiro, num contexto em que se coloca como sujeito cujas vontades e integridade deveriam ser a prioridade da Polícia Federal e, assim sendo, a necessidade de qualquer outro outro cidadão e cidadã, seriam secundárias, como se fosse ou uma coisa ou outra. Apropriando-se de frase dos movimentos sociais e da família Franco, “quem mandou matar Marielle”, o chefe do Executivo afirmou no seu pronunciamento que a Polícia Federal se preocupou “mais com Marielle do que com seu chefe supremo”. Atento aqui para o fato de que, a despeito de ocupar um cargo público quando foi morta, Marielle Franco, mencionada sem sobrenome, entra na narrativa como exemplo de algo menos importante.

    Parece mesmo inesperada e intrigante a repercussão nacional e internacional do assassinato da vereadora. Certamente, pensaram: quem vai se importar com uma mulher negra e favelada que virou vereadora? A visibilidade do assassinato de Marielle Franco, que teve efeito contrário ao esquecimento que aparentemente foi esperado, parece incomodar quem imaginava que a esta altura, “Marielle” seria um nome fora da história do Brasil, caído no esquecimento.

    Aliás, o nome de Marielle Franco é mencionado outra vez para perversamente sugerir que, entre o assassinato de Marielle (novamente citada sem sobrenome), um crime cometido por um atirador profissional, e o atentado que sofreu no episódio da facada, “o meu tá muito mais difícil de solucionar”, afirmou. Mas com base em quais informações e evidências o chefe do Executivo faz tais afirmações? Pelo menos, ele tem a grande vantagem de estar vivo para cobrar, ele mesmo, uma solução para as investigações do tal atentado que sofreu.

    Outras mulheres são mencionadas na fala: a sogra que falsificou a idade por “inocência”, cometendo assim crime de falsidade ideológica, além da avó da esposa, envolvida no tráfico de drogas, mas uma breve menção ao caso. Coisa boba, pouco grave, afinal, quem não tem problemas na família, não é? A outra mulher mencionada no discurso é esposa, essa sim chamada de senhora, por ser primeira dama, título conquistado pela via do casamento.

    Ser homem, militar e cristão é razão para que não sejam levantadas supostas mentiras sobre sua pessoa, afinal, quem não gosta de ser respeitado? Contudo, ninguém deve ser alvo de mentiras e calúnias, inclusive a vereadora Marielle Franco, que teve sua vida devassada pelo exército virtual das fake news, mesmo depois de morta. Também merece solução o crime que tirou a vida de Marcus Vinicius, e que portanto, como tantos outros jovens negros, não estão vivos para exigir que seus assassinos sejam punidos. Também merecem ter uma vida e uma morte digna os corpos que se amontoam em Manaus, as pessoas que aguardam vagas nos hospitais e os profissionais de saúde, tanto doentes quanto trabalhando à exaustão.

    Tudo isso me fez crer que há um Brasil que já virou a página — e o motivo é que as elites estão seguras o suficiente para pensar que, caso fiquem doentes, ficarão curadas graças ao serviço médico que dispõem. Isso é uma ilusão. Ainda há uma parcela que, de tão privilegiada, acredita estar imune ao vírus porque ele não existe, haja vista as coletivas desses dois senhores nas quais nenhum deles, ou seus apoiadores, usavam máscaras.

    A realidade se reverteu e aparentemente o vírus, que até então atacava inicialmente as elites que viajam, finalmente e lamentavelmente chegou nos pobres, nos negros, nos indígenas. No tabuleiro do poder, no qual o legado de Colombo se confirma por meio do completo desprezo pela vida de quem não é um homem branco das elites, a lei é que os pobres que “se virem”, pois os homens do poder têm outras prioridades neste momento. Pelas suas vidas, vocês que lutem!

    Então, salve-se quem puder e sigamos nos cuidando como aquela menina que citei no início, de máscara branca que tinha no centro o desenho de uma flor. Diante das tristezas e incertezas, somos aquela criança esperançosa e vulnerável, que ri na cara da pandemia e faz da máscara sua nova brincadeira, ao mesmo tempo em que se protege. Não há nada de belo e poético nisso, pelo contrário, acho tudo isso assustador. Já passou da hora da gente crescer, digo politicamente. Existe razão mais urgente para isso, além do fato de que continuamos por nossa própria conta?

    Luciana Brito é historiadora, especialista nos estudos sobre escravidão, abolição e relações raciais no Brasil e EUA e é professora da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. É autora do livro “Temores da África: segurança, legislação e população africana na Bahia oitocentista”, além de vários artigos. Luciana mora em Salvador com sua família, tem os pés no Recôncavo baiano, mas sua cabeça está no mundo. Escreve quinzenalmente às terças-feiras.

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