Coluna

Qual o problema da competição política pela vacina?

    Não será a disputa entre Bolsonaro e governadores que comprometerá a imunização dos brasileiros em 2021, mas sim o fato de que, se e quando aprovadas, não teremos vacinas em doses suficientes para a população

    O espetáculo é triste! João Doria, governador de São Paulo, anuncia o início do plano de vacinação no estado para o dia 25 de janeiro de 2021, antes mesmo que qualquer vacina tenha sido submetida para aprovação pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). O presidente Jair Bolsonaro constrange seu ministro da Saúde a excluir a vacina produzida em São Paulo do programa nacional de imunização. O governador de Goiás, Ronaldo Caiado, conclama ao confisco das vacinas paulistas. O presidente declara que não vai se vacinar, mas também recua e desdiz o que já havia afirmado.

    O contraste não poderia ser mais chocante. No Reino Unido e nos EUA, governados por parceiros do negacionismo de Bolsonaro, a vacinação já começou. Nossa inferioridade não se restringe à comparação com governos de países ricos. O espetáculo contrasta com nosso próprio passado, com um período não muito distante em que éramos fortemente estimulados pelo Ministério da Saúde a nos vacinarmos, de modo a prevenir individual e coletivamente a contaminação por doenças virais.

    Mas não se impressione com isso! Nenhum dos atores deste espetáculo enlouqueceu. Há uma racionalidade nisso. Estão todos reforçando as conexões com suas bases eleitorais. Bolsonaro acena para os negacionistas, que desconfiam da vacina. Doria faz da vacinação um componente crucial de sua campanha para a Presidência, a ponto de chamar os eleitores de todo o Brasil, seu eleitorado potencial, para virem se vacinar em São Paulo. Ronaldo Caiado, potencial candidato à Presidência no campo da direita, está apenas disputando os holofotes com Doria e se distinguindo do negacionismo de Bolsonaro.

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    Marta Arretche é professora titular do Departamento de Ciência Política da USP (Universidade de São Paulo) e pesquisadora do Centro de Estudos da Metrópole. Foi editora da Brazilian Political Science Review (2012 a 2018) e pró-reitora adjunta de pesquisa da USP (2016 a 2017). É graduada em ciências sociais pela UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), fez mestrado em ciência política e doutorado em ciências sociais pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), e pós-doutorado no Departamento de Ciência Política do MIT (Massachussets Institute of Technology), nos EUA. Foi visiting fellow do Departament of Political and Social Sciences, do Instituto Universitário Europeu, em Florença. Escreve mensalmente às sextas-feiras.

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