Coluna

Por que um presidente deixa a população morrer?

    A polarização com opositores e a aposta no caos social ajudam a explicar a estratégia genocida de Jair Bolsonaro

    Enquanto o Brasil observa o número de mortos pela covid-19 crescer a cada dia — chegando ao recorde diário de 881 entre 12 e 13 de maio — o presidente Jair Bolsonaro insiste em dizer que temos que reabrir a economia e que “o povo tem de voltar a trabalhar. Quem não quiser trabalhar, que fique em casa”. Desde o começo da pandemia, o presidente coloca os empregos e a sobrevivência das empresas em contraposição aos objetivos de saúde e culpa governadores e prefeitos pelo fechamento de cidades e estados. Mesmo com toda a evidência empírica existente sobre a efetividade de políticas de isolamento social para frear a epidemia de covid-19, Jair Bolsonaro parece não se importar com o número de mortes que aumenta a cada dia. Sobre elas, chegou a dizer: "E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê?".

    Mas por que um presidente deixaria a população morrer dessa forma se ele seria diretamente responsabilizado por isso? Uma possível resposta é que o presidente é um genocida lunático que pouco se preocupa com a vida alheia. De fato sua defesa da tortura durante a ditadura e idolatria por militares genocidas torna essa hipótese plausível. Mas há também explicações racionais e estratégicas para este comportamento.

    A primeira é que a polarização entre pessoas desempregadas e sem renda que querem voltar a trabalhar e aquelas com alguma renda e preocupadas com sua saúde ajuda o presidente. Em bairros pobres pelo Brasil afora, há mais gente passando por necessidades econômicas do que gente morrendo de covid-19 neste momento. Assim, é fácil culpar prefeitos e governadores pela falta de renda, enquanto que a proliferação da doença e culpa da epidemia “é dos chineses”. Essa mesma estratégia está sendo utilizada por Donald Trump nos EUA. Normalmente isso só funcionaria em contextos nos quais a população tem um grau baixo de escolaridade, o que torna a compreensão de fenômenos como o contágio da covid-19 difícil. Mas no contexto atual da pandemia de covid-19, Bolsonaro se beneficia da grande incerteza existente sobre a incidência do vírus, sua taxa de transmissão, características associadas à taxa de mortalidade e efetividade de diferentes políticas. Essa incerteza é magnificada pela grande difusão de notícias falsas via redes sociais, feitas inclusive por deputados da base bolsonarista, que ajudam a manter as pessoas mal informadas e polarizadas.

    Se Bolsonaro não sair do poder por suas interferências e crimes de responsabilidade, será taxado de genocida — e acho que não haverá militar e centrão que queiram assinar embaixo dos certificados de morte

    A segunda explicação, mais macabra, é que o aumento de mortes gera um caos social que permitiria ao presidente tomar decisões extremas que erodem a democracia como aconteceu em países como a Hungria e a Polônia. Historicamente, a ascensão de Hitler ao poder na Alemanha esteve diretamente associada ao caos social gerado pela má gestão de crises econômicas, inflação galopante e alto desemprego. Isso pode explicar a demissão de um ministro da Saúde em plena crise sanitária e sua substituição por um gestor totalmente inexperiente, que parece perdido em face da gravidade da situação. Também explica por que, apesar da urgência, a ajuda e os recursos não estão sendo repassados aos estados e municípios na velocidade exigida pela crise.

    Mas num contexto de caos social, numa democracia fraca como a brasileira neste momento, o presidente não teria mais chance de perder o poder? Normalmente sim, mas há dois aspectos importantes que jogam a favor do presidente. Primeiro, sua coalizão militar o torna mais resiliente. Não é a toa que Bolsonaro trouxe tantos militares para o governo e que exista um esforço por aumentar as rendas distribuídas para esses militares, inclusive com esforços para que militares com cargo no governo possam ganhar mais do que o teto do funcionalismo público. Segundo, com a fragmentação partidária existente no Congresso, sempre haverá pequenos partidos de balcão dispostos a receber altas rendas para apoiar o presidente de plantão. O presidente já começou a distribuir essas rendas para políticos e partidos do chamado “centrão” por meio de cargos importantes e emendas parlamentares, estratégia defendida publicamente pelo vice-presidente Hamilton Mourão.

    O apoio dos militares e do “centrão” pode servir no curto prazo para evitar um impeachment do presidente enquanto o número de mortes não passar de um patamar específico e enquanto o benefício emergencial for pago pela Caixa Econômica Federal. Mas conforme o número de mortes crescer, o benefício emergencial for descontinuado em algumas semanas e a economia brasileira mergulhar em uma crise secular, o preço da sustentação política ficará alto demais. Se Bolsonaro não sair do poder por suas interferências e crimes de responsabilidade, será taxado de genocida — e acho que não haverá militar e centrão que queiram assinar embaixo dos certificados de morte produzidos por Bolsonaro.

    Claudio Ferraz é professor da Vancouver School of Economics, na University of British Columbia, Canadá, e do Departamento de Economia da PUC-Rio. Ele é diretor científico do JPAL (Poverty Action Lab) para a América Latina. É formado em economia pela Universidade da Costa Rica, tem mestrado pela Universidade de Boston, doutorado pela Universidade da Califórnia em Berkeley e foi professor visitante na Universidade de Stanford e no MIT.

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