Coluna

Por que os populistas confessam

    Ao ignorar abertamente normas em prol da própria família, Jair Bolsonaro e Donald Trump criam um dilema para a mídia e a opinião pública

    É lamentável que, em meio a uma pandemia que já matou milhares de brasileiros e ainda custará a vida de muitos outros, estejamos a tratar de outros temas. A política brasileira, porém, tem o dom macabro de monopolizar a atenção, e mais ainda em tempos de bolsonarismo. Portanto, aqui vamos nós...

    O espetáculo canhestro da aparição do presidente Bolsonaro em 24 de abril, ladeado de seus constrangidos ministros, em resposta à demissão do agora ex-ministro Sergio Moro, deixou muitos momentos memoráveis. Talvez tenham passado relativamente despercebidas três palavras estarrecedoras: “a não ser”.

    Especificamente, disse o presidente: “Jamais procurei [Moro] para interferir nas investigações, a não ser... sobre Adélio, o porteiro e meu filho 04” (ênfase minha). Trocando em miúdos, jamais houve qualquer interferência, exceto nos casos em que de fato houve, “quase como uma súplica”.

    O presidente, portanto, admitiu, em cadeia nacional de televisão, que buscou imiscuir-se na atuação da Polícia Federal, em casos de seu especial interesse. Isso pode parecer absurdo, talvez uma reveladora gafe: como pode um político acusado de conduta imprópria simplesmente admitir que sim, realmente assim agiu?

    Como costuma acontecer em tantos aspectos do comportamento de Jair Bolsonaro, a experiência de observar Donald Trump nos ajuda a entender o que parece incompreensível. O presidente norte-americano é useiro e vezeiro em simplesmente confirmar diante das câmeras a autoria de atos escandalosos a ele atribuídos. Sim, eu demiti o diretor do FBI por causa das investigações sobre a Rússia. Sim, eu solicitei ao presidente da Ucrânia que investigasse meu adversário político, e aproveito o momento para pedir ao governo chinês que faça o mesmo.

    Apenas estripulias de um presidente boquirroto, que especula sobre a injeção de desinfetantes como tratamento do novo coronavírus? Provavelmente, em alguma medida. Mas o fato é que, intencional ou não, essa tendência tem uma vantagem: a imprensa e a opinião pública têm imensa dificuldade em lidar com escândalos que não tenham um ar de segredo.

    O próprio uso do adjetivo “investigativo” para caracterizar o jornalismo já indica, de por si, que a imprensa considera que o seu ofício é descobrir, trazer à luz, revelar aquilo que os alvos da cobertura tentam a todo custo manter oculto. O resto, no dizer imortal de Millôr Fernandes, é armazém de secos e molhados.

    Mas e se o alvo não tenta manter nada oculto? Bom, nesse caso, concluem os leitores, não há de ser tão ruim assim. Afinal de contas, ninguém sai por aí confessando crimes e pecados graves... O que é escancarado, perversamente, deixa de ser notícia.

    Essa não pode ser a história toda, contudo. Não é exatamente toda e qualquer impropriedade que Trump ou Bolsonaro saem confessando por aí. No caso deste último, é notável que, em sua resposta ao ex-ministro, o presidente mencionou interferência no caso de seu “filho 04” — isto é, o menos importante — e não em relação às estripulias de seus filhos políticos. Difícil isso ser coincidência.

    O ponto-chave para entender o que pode e não pode ser revelado está em outro elemento central do trumpismo e do bolsonarismo: o total rompimento da distinção entre coisa pública e interesses privados, quando se trata da pessoa do presidente.

    O que a onda populista moderna tem revelado é exatamente o quanto o funcionamento das instituições depende não apenas do conteúdo e aplicação das leis, mas também de normas não-escritas

    Em todos os exemplos acima, a confissão praticada pelo presidente norte-americano ou brasileiro envolve algo que não é necessariamente um crime — ou que, pelo menos, pertence a uma zona cinzenta de impropriedade que pode ou não ter violado alguma lei. Trata-se do uso (ou tentativa de uso) da máquina do governo para atingir algum fim privado — um ganho eleitoral, um cuidado a um filho, enfim, alguma aplicação da famigerada “lei de Gérson”.

    Aos olhos de um cidadão comum, que não é confrontado em sua existência cotidiana, no mais das vezes, pela dualidade entre agir como indivíduo privado ou como agente público, esse tipo de comportamento é aceitável. Mais ainda, pode por vezes parecer um dever moral: que tipo de pai desnaturado seria capaz de não fazer tudo ao seu alcance para beneficiar um filho? Não surpreende, portanto, que os eleitores de Trump ou Bolsonaro — ou mesmo o eleitor mediano — não se incomodem tanto com tais comportamentos.

    Esse sentimento é particularmente vívido numa sociedade marcada pela cultura do “familismo amoral” (amoral familism) descrito por Edward C. Banfield — o que em bom português poderia ser traduzido no ditado apócrifo “aos amigos tudo, aos inimigos a lei”. O exemplo norte-americano mostra, contudo, que seu alcance também chega a lugares menos associados a essa tradição.

    Trump e Bolsonaro têm uma vantagem prática no uso dessa estratégia: ambos genuinamente parecem desconhecer a ideia de que seus interesses privados devam ou mesmo possam ser dissociados do funcionamento do governo. Eles violam as normas de impessoalidade por total e atávico desconhecimento de que tal conceito possa existir.

    O efeito disso é absolutamente corrosivo, do ponto de vista da saúde institucional. O que a onda populista moderna tem revelado é exatamente o quanto o funcionamento das instituições depende não apenas do conteúdo e aplicação das leis, mas também de normas não-escritas. Uma vez rompidas, é difícil recompô-las.

    Isso nos traz ao dilema central que se coloca diante de quem pretende combater essa corrosão. Veja-se como ele se manifesta no âmbito da imprensa: revelar os fatos não é o bastante, é preciso interpretar o que está diante de todos para mostrar que o escândalo não é menos escandaloso por estar à vista. Mas como fazê-lo sem ficar vulnerável às acusações de parcialidade (“fake news”, “extrema imprensa”) que são tão caras e úteis aos populistas? É preciso mencionar as impropriedades para que não sejam “normalizadas”, mas ao fazê-lo não se está permitindo ao político populista o domínio da agenda que é o oxigênio de sua estratégia política?

    Tenho plena consciência de que, ao escrever mais mil palavras esmiuçando as estratégias do bolsonarismo, sou vítima do dilema. Mas é o que nos resta, enquanto o populismo seguir no poder.

    Filipe Campante é Bloomberg Distinguished Associate Professor na Johns Hopkins University. Sua pesquisa enfoca temas de economia política, desenvolvimento e questões urbanas e já foi publicada em periódicos acadêmicos como “American Economic Review” e “Quarterly Journal of Economics”. Nascido no Rio, ele é PhD por Harvard, mestre pela PUC-Rio, e bacharel pela UFRJ, todos em economia. Foi professor em Harvard (2007-18) e professor visitante na PUC-Rio (2011-12). Escreve mensalmente às quintas-feiras.

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