Coluna

Por que devemos parar de fazer apologia ao “natureba”

    Nem tudo que é natural é necessariamente bom, e cabe à ciência dominar a natureza para melhorar nossas vidas

    Somos submetidos constantemente a mensagens que sugerem que tudo que é derivado da natureza é bom para a nossa saúde. É uma presunção incorreta, pois não há nenhuma correlação entre a origem natural ou sintética de uma molécula e sua capacidade de ser perigosa ou benéfica para nós, humanos. De fato, eu prefiro evitar várias coisas completamente naturais, como ser picada por uma cobra, abrigar vermes parasitas nos meus intestinos ou pegar viroses epidêmicas. No entanto, se entramos numa farmácia, nos deparamos com dezenas de produtos cosméticos e suplementos derivados de plantas ou algas diversas, exibindo etiquetas proeminentemente indicando conter componentes da natureza. O consumidor geralmente assume que produtos que contêm componentes naturais são bons para a saúde, não causam efeitos colaterais, e são de modo geral desejáveis.

    A apologia ao “natureba” não se restringe às farmácias e também invadiu nossos supermercados. Neles, encontramos enorme quantidade de produtos etiquetados como “orgânicos”, ou produzidos sem uso de fertilizantes e pesticidas “artificiais”. O entendimento geral é que moléculas não naturais usadas para produzir nossa comida são ruins, enquanto o que vem diretamente da natureza nos faz bem. Esse entendimento é reforçado pelo fato de a comida orgânica ser mais cara, e portanto percebida como melhor. Investir nesse tipo de alimento, no entanto, é um péssimo negócio, pois não há nenhum benefício à saúde na ingestão de alimentos orgânicos, fora o efeito psicológico de se associar com a causa “natureba”.

    Parte desse efeito psicológico positivo associado a comprar produtos orgânicos provavelmente se deve à percepção de que esse tipo de agricultura “natureba” é natural, e portanto preserva o meio ambiente. Porém, na agricultura orgânica se utiliza fertilizantes menos eficazes e há perdas maiores dos produtos para pragas agrícolas. O resultado é que esse tipo de agricultura requer maiores áreas de cultivo para produzir a mesma quantidade de comida, e essas maiores áreas plantadas podem promover maior perda de áreas naturais preservadas. Além disso, por causa da maior área necessária para a produção, estudos indicam que a agricultura orgânica provoca maior emissão de gases que contribuem para mudanças climáticas.

    Temos que ao mesmo tempo respeitar, admirar e estudar esses mecanismos de violência entre espécies, mas nunca desprezar algo natural como inofensivo

    Mas se a agricultura orgânica não é melhor para o ambiente, não seria melhor para nós por evitar a ingestão de pesticidas, que são potencialmente causadores de câncer? O bioquímico norte-americano Bruce Ames, criador de um teste altamente eficaz adotado mundialmente para detectar compostos capazes de mudar o DNA e causar cânceres (o teste de Ames), também criou um ranking de moléculas carcinogênicas (geradoras de câncer) encontradas em frutas e verduras comerciais. Ele viu que pesticidas adicionados a plantações estavam presentes em concentrações minúsculas, milhares de vezes menores que moléculas naturais que as plantas produzem. Plantas geram seus próprios pesticidas para sobreviver a insetos e outros predadores. Essas moléculas naturais são tão perigosas quanto pesticidas criados pelo homem, e compõem 99,99% dos carcinógenos presentes nas nossas frutas e verduras. Deste modo, pesticidas naturais, e portanto presentes em culturas orgânicas, são muito mais perigosos que pesticidas produzidos pelo homem, simplesmente por causa da sua enorme abundância relativa.

    A natureza é, de fato, um ambiente extremamente hostil, onde cada organismo vivo precisa estar evolutivamente preparado para se defender e sobreviver, ou será superado ou comido por outro organismo vivo. Nessa fantástica luta pela sobrevivência, bactérias possuem estruturas fascinantes em forma de agulha para injetar toxinas em outras bactérias competidoras. Plantas como a corriqueira mandioca naturalmente geram compostos cianogênicos (que produzem a toxina cianeto) para se defender contra animais que as comem (por isso é importante monitorar sua produção, para controlar níveis dessas toxinas). Animais como aranhas, escorpiões, serpentes, sapos e até o simpático ornitorrinco desenvolveram toxinas poderosas para se defender e sobreviver. A natureza não é um ambiente de coexistência bucólica, como o modismo natureba nos faz crer, e sim fascinantemente variada na sua violência entre espécies competidoras.

    Temos que ao mesmo tempo respeitar, admirar e estudar esses mecanismos de violência entre espécies, mas nunca desprezar algo natural como inofensivo. Entender e estudar essas defesas naturais através da Ciência é não somente uma maneira de evitar acidentes com essas toxinas, mas também a única maneira de aprender a usar, purificar e melhorar essas moléculas em nosso benefício. Um exemplo são os antibióticos, usados clinicamente para matar bactérias infecciosas, e em grande parte derivados e melhorados por cientistas a partir de moléculas produzidas por outros microrganismos que estavam se defendendo na Natureza. A Ciência se inspira na Natureza, e a domina para melhorar nossas vidas, de modo detalhadamente analisado e comprovado.

    É 2020. Vivemos numa sociedade em que pessoas fazem filas em lojas para ter a última tecnologia em celulares, monitoram seus batimentos cardíacos e atividade física continuamente com relógios inteligentes e passam horas por dia na internet, aproveitando da tecnologia da informação para seu trabalho e lazer. Nesse mundo repleto de benefícios modernos, não há nenhuma justificativa para fazer apologia ao mundo natural quando se trata de nossa saúde e alimentação. Deveríamos exigir a mais avançada tecnologia, cientificamente verificada, para nossos alimentos, medicamentos e cosméticos. Chega de modismo natureba!

    Alicia Kowaltowski é médica formada pela Unicamp, com doutorado em ciências médicas. Atua como cientista na área de Metabolismo Energético. É professora titular do Departamento de Bioquímica, Instituto de Química da USP, membro da Academia Brasileira de Ciências e da Academia de Ciências do Estado de São Paulo. É autora de mais de 150 artigos científicos especializados, além do livro de divulgação Científica “O que é Metabolismo: como nossos corpos transformam o que comemos no que somos”. Escreve quinzenalmente às quintas-feiras.

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