Coluna

Por que a polarização extrema ameaça a democracia

    O medo do lado oposto do debate político alimenta o risco do autoritarismo ser chancelado por eleitores pela via democrática

    A democracia está sendo ameaçada diariamente no Brasil. Quando o presidente diz que não dará entrevistas ele se nega a prestar contas à sociedade, quando ele ataca jornalistas e veículos de mídia ele atenta contra a liberdade de imprensa, quando ele faz acordos esquisitos com cartórios para registrar seu novo partido ele mexe a balança em seu favor de forma pouco republicana. Como argumentaram recentemente Celso Rocha de Barros e Cláudio Couto, a corda democrática está sendo esticada diariamente.

    Isso não quer dizer necessariamente que a democracia brasileira irá ruir. De fato, desde a redemocratização a corda democrática brasileira foi esticada diversas vezes e não ruiu. Passamos pelo impeachment de Collor, o escândalo do mensalão, roubos na Petrobras e financiamentos de campanha escandalosos, os protestos de 2013 e o impeachment de Dilma Rousseff.

    Em artigo recente, Carlos Pereira argumenta que "as chances de o populista brasileiro destruir a democracia são mínimas". Isso porque as condições para que um processo antidemocrático aconteça não estariam presentes no Brasil de hoje. Seu argumento está baseado no trabalho do cientista político Kurt Weyland "Populism’s Threat to Democracy: Comparative Lessons for the United States" ("A ameaça populista para a democracia: lições comparativas para os EUA", em tradução livre). Weyland argumenta, com base em estudos de caso, que as condições para que um populista consiga desmontar um sistema democrático estabelecido são instituições inicialmente fracas e uma crise econômica ou um boom de recursos que permita ao populista comprar o apoio de seus seguidores. Pereira argumenta que no Brasil as instituições não são fracas, já que temos um sistema de pesos e contrapesos operando ativamente e não estamos sofrendo uma crise econômica aguda. Por isso, não temos com o que nos preocupar.

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    Claudio Ferraz é professor da Vancouver School of Economics, na University of British Columbia, Canadá, e do Departamento de Economia da PUC-Rio. Ele é diretor científico do JPAL (Poverty Action Lab) para a América Latina. É formado em economia pela Universidade da Costa Rica, tem mestrado pela Universidade de Boston, doutorado pela Universidade da Califórnia em Berkeley e foi professor visitante na Universidade de Stanford e no MIT.

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