Coluna

Por que a ideia do cientista recluso é uma lenda

    O trabalho em grupo, reunindo formações e pensamentos diferentes, é essencial para produzir ciência de qualidade

    Em filmes e séries, cientistas são quase sempre retratados como homens de meia idade um tanto desgrenhados, trabalhando sozinhos em laboratórios lúgubres. As más línguas diriam até que as recomendações de isolamento em virtude da pandemia seriam fruto da tendência reclusa que cientistas já possuem por natureza. Mas, na realidade, essa visão da ficção não reflete em nada a nossa realidade de trabalho.

    Em primeiro lugar, especificamente no Brasil e na minha área de atuação, há mais mulheres que homens cientistas; a Sociedade Brasileira de Bioquímica e Biologia Molecular, por exemplo, possui predominância de participantes e sócias mulheres. O fato de a professora Ester Sabino ter liderado o sequenciamento genético do novo coronavírus em tempo recorde, num grupo em que 17 dos 27 membros são mulheres, reflete portanto uma realidade nacional. Essa situação não é presente na maioria dos outros países, nem em várias outras áreas do conhecimento, mas é interessante, e deveria ser estudada para aprendermos mecanismos que aumentam a inclusão.

    Em segundo lugar, mundialmente, e em quase todas as áreas do conhecimento, a ciência experimental não é feita por pesquisadores isolados, e sim predominantemente em grupos de pesquisa, com várias pessoas trabalhando juntas para produzir conhecimento. A estrutura de um laboratório de pesquisa típico inclui líderes de grupo, que são cientistas experientes e que são responsáveis por organizar as pesquisas, manter o grupo funcionando e financiado, e direcionar os trabalhos dos outros membros. Trabalhando junto a esses líderes, e tão importantes quanto, estão especialistas, técnicos e administradores laboratoriais, que são profissionais com grande experiência na área do grupo, capazes de manter os equipamentos, materiais e consumíveis, além de acompanhar e treinar pessoas do grupo e colaboradores em técnicas específicas. Infelizmente, especialistas de laboratório são pouco valorizados nas universidades brasileiras, tendência contrária a países desenvolvidos, onde eles são considerados fundamentais.

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    Alicia Kowaltowski é médica formada pela Unicamp, com doutorado em ciências médicas. Atua como cientista na área de Metabolismo Energético. É professora titular do Departamento de Bioquímica, Instituto de Química da USP, membro da Academia Brasileira de Ciências e da Academia de Ciências do Estado de São Paulo. É autora de mais de 150 artigos científicos especializados, além do livro de divulgação Científica “O que é Metabolismo: como nossos corpos transformam o que comemos no que somos”. Escreve quinzenalmente às quintas-feiras.

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