Coluna

Pedindo a benção às mais velhas: Vamos aceitar um mundo sem história em nome da economia?

    Na pandemia do novo coronavírus, os mais velhos passaram a ser vistos como descartáveis por aqueles que criam uma dicotomia entre vida e fatores econômicos

    Muito se falou nesta semana sobre os limites de uma quarentena. As entidades internacionais de saúde, como a OMS (Organização Mundial da Saúde), defendem que o isolamento horizontal (aquele em que todo mundo fica em casa) é a forma mais eficaz de prevenir uma proliferação rápida e desenfreada do novo coronavírus, o que faz com que todxs nós, ou melhor, boa parte de nós, fiquemos em casa. Isso não significa que o vírus não se espalhará, mas a quarentena evita algo muito perigoso e devastador, que é a possibilidade de que muitxs de nós recorramos ao sistema de saúde ao mesmo tempo, precisando de uma vez só dos hospitais, colapsando o sistema de saúde. Seria um caos, como aconteceu na Itália e como está acontecendo agora nos Estados Unidos.

    Por outro lado, há quem defenda as coisas de outra forma. Criando uma dicotomia entre vida e economia, alguns afirmam que a quarentena é algo exagerado, a despeito de essa ideia ir na contramão de tudo que afirmam tanto as autoridades e órgãos internacionais de saúde quanto as autoridades políticas e pessoas de outros países que vivenciaram a experiência que estamos somente começando a testemunhar. Devemos escolher: queremos emprego, comida e uma economia funcionando ou queremos ter nossos mais velhos? O governador do estado do Texas, nos Estados Unidos, chegou até mesmo a verbalizar isso escancaradamente, ao defender que os idosos do país deveriam estar dispostos a se sacrificar pela nação. O governador Dan Patrick, que tem 70 anos, defendeu isso alinhado ao pensamento de Donald Trump, que, até recentemente, afirmava também que os EUA não poderiam parar em nome dos idosos, que compunham 80% dos mortos por covid-19, a doença causada pelo vírus. Por lá, Trump já mudou de ideia.

    Mas que consequências teria esse “descarte” da população idosa? As pessoas de 60 anos ou mais foram consultadas? Não foi até pouco tempo que, para defender a reforma da Previdência, foi amplamente utilizado o argumento de que a população estava envelhecendo mais tarde e que os idosos contemporâneos são ativos, saudáveis e estão aptos inclusive para fortalecer a economia trabalhando e consumindo?

    Faço então uma reflexão sobre a importância afetiva, ancestral e vital dos idosos e idosas para o mundo em que vivemos. Afinal, imaginem a Itália, alvo da nossa seletiva empatia, um país sem velhos?

    Num texto do historiador Boubacar Barry, podemos perceber a importância do mais velho, chamado de Griô, entre os povos africanos que eram considerados “povos sem história” de acordo com o modelo civilizatório ocidental. De acordo com ele, as tradições e registros orais do que aconteceu no Senegal antes da chegada do colonizador francês foram fundamentais na construção e permanência de uma narrativa histórica alternativa àquela colonial, que dava início à história das sociedades senegambianas a partir da chegada do colonizador.

    É como se todo o período anterior fosse sem importância. Assim, quando o regime colonial foi derrotado, os mais velhos (e os mais novos que aprenderam com os mais velhos) haviam acumulado um saber sobre as comunidades tradicionais que poderia a partir de então ser escrito na língua francesa. Registros orais passaram a ser respeitados como documentos históricos, e documentos históricos produzidos pelas autoridades coloniais, em vez de verdades absolutas, passaram a ser percebidos como uma versão da história do Senegal… graças aos registros orais dos mais velhos.

    O descarte dos mais velhos, quase que defendido agora nas sociedades conservadoras contemporâneas, como se fosse um efeito colateral acidental do coronavírus, não visa atingir todos os velhos: os velhos que “devem” sacrificar a vida em nome da economia e dos mais jovens, e que constituem um perigo à saúde e ao sistema de saúde público, volto a dizer, têm raça e classe.

    Nas religiões tradicionais, como a minha, são as mais velhas e os mais velhos que detêm o saber e os segredos que devem ser passados às pessoas mais jovens quando estiverem prontas

    Na fotografia através da qual me apresento na coluna do jornal Nexo, vocês podem ver atrás de mim um quadro de uma senhora. Aquela é a minha avó. Não foi por acaso que escolhi essa fotografia. O que eu queria dizer por meio da imagem era que, antes de mim, havia alguém que me precedia e me ensinou lições importantes para sobreviver na sociedade em que vivo. Por meio da imagem de vovó (forma como eu carinhosamente a chamava), eu queria dizer que “meus passos vêm de longe”. Dona Celina de Oliveira Brito, vovó, de quem tenho certeza que era sua neta favorita (com respeito aos meus primos e primas), me ensinou a fazer contas, a tocar músicas com caixinhas de fósforo, além de me ensinar a gostar de chorinho. Longas eram nossas conversas no final da tarde, quando eu a acompanhava enquanto ela molhava suas plantas.

    Eu trago essa experiência pessoal para falar da importância das pessoas mais velhas que nos cercam na formação das nossas histórias, das nossas memórias de afeto e das nossas subjetividades. Vovó mediou conflitos familiares, deu conselhos, uniu pessoas, orientou, comprou, vendeu, consumiu, enfim, foi fundamental num círculo familiar do qual ela era a matriarca. Assim é em muitas famílias brasileiras.

    Quanto mais pobres, desamparados e à margem estamos, mais os velhos têm importância nas nossas vidas. Lembremos das diversas avós que têm papel fundamental na vida dos seus jovens descendentes, e que são os alvos prediletos da necropolítica nas periferias brasileiras.

    As pessoas mais velhas compram, sustentam famílias com suas aposentadorias, ajudam filhos desempregados, cuidam de netas e netos, vendem, viajam, orientam, mediam conflitos. Nas religiões tradicionais, como a minha, são as mais velhas e os mais velhos, seja por idade biológica ou não, que detêm o saber e os segredos que devem ser passados às pessoas mais jovens quando estiverem prontas. O momento certo para que tais saberes sejam passados adiante somente os mais velhos, em diálogo com os orixás, podem saber.

    Imaginem a perda sistemática dos mais velhos nas aldeias indígenas já alquebradas pelos conflitos com agricultores poderosos, nas comunidades quilombolas já ameaçadas por conflitos de terras, e nas comunidades nas quais os mais velhos convivem com as crianças e participam ativamente da educação das mesmas. São nessas comunidades, onde as mais velhas que detêm o saber dos hábitos de higiene mais delicados, do parto e do cuidado das grávidas e dos bebês, do cuidado com os doentes e da feitura dos chás, dos banhos e das rezas que nos trazem algum conforto nesses dias de incertezas. Assim, não estamos prontos para perder os mais velhos.

    Sabemos que questões relativas ao sistema imunológico fazem dos idosos os mais vulneráveis ao coronavírus, que representam a grande maioria dos óbitos. Essa informação, por si só, já nos assusta. Assim foi na Itália e na Espanha, onde famílias não tiveram o direito de sepultar seus mortos. Embora eu não saiba sobre as condições do sistema de saúde desses países, fico pensando se podemos, no Brasil, acreditar que somente idosos serão afetados drasticamente num sistema de saúde já deficiente, cujos problemas já eram graves antes de uma pandemia.

    Quantos são os jovens cardíacos, diabéticos, que possuem problemas respiratórios, ou que nem sabem que carregam tais condições porque não tem acesso à assistência médica preventiva? Dados da Secretaria de Saúde do Rio de Janeiro mostram que, a despeito de não comporem o maior número de mortos, estão entre os 30 e 39 anos o maior número de infectados por coronavírus.

    Portanto, às pessoas que afirmam que “o Brasil não pode parar”, a crise da saúde que se anuncia, e que já estava em curso, nos aponta que talvez o Brasil já estivesse parado faz tempo. Pode ter sido desde a PEC 55, que congelou os gastos da saúde, ou desde que a água parou de correr nas torneiras, impedindo muitas famílias brasileiras de lavarem as mãos.

    Ao mesmo tempo, enquanto fazemos nossa parte, é preciso também pensar formas de manter nossos velhos vivos, assim como os jovens e as crianças. Que tal começarmos a pensar medidas de proteção que não se referenciem no modo de vida de uma pequena classe média? Ficar em casa cumprindo completamente a quarentena sem sair para trabalhar, compras delivery, vacinação modelo drive thru, lavar constantemente as mãos em residências que não têm água, assim como homeschooling e home office, são tarefas muito difíceis (ou até impossíveis) para muitas pessoas. No caso das nossas mais velhas, e mais velhos, para elas e eles já está sendo doloroso demais enfrentar esse momento com negação ou com pavor. Para nós, suas filhas, filhos, amigos e netos, antes de perdê-los, basta outra tarefa já muito difícil, que é convencê-las e convencê-los a ficarem dentro de casa. Cuidemos-nos e cuidemos dos nossos mais velhos, e dos mais novos.

    Enquanto este texto era escrito, eu não sabia que amanheceríamos na segunda-feira (30) com a notícia da passagem do nosso querido sambista Riachão, de 98 anos. Que nosso velho sambista vá em paz. Por aqui, sentiremos saudades dele, que era "um retrato fiel da Bahia".

    P.S.: O quadro de vovó foi obra do artista visual A. Silva, Instagram: @a.sil.va.

    Luciana Brito é historiadora, especialista nos estudos sobre escravidão, abolição e relações raciais no Brasil e EUA e é professora da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. É autora do livro “Temores da África: segurança, legislação e população africana na Bahia oitocentista”, além de vários artigos. Luciana mora em Salvador com sua família, tem os pés no Recôncavo baiano, mas sua cabeça está no mundo. Escreve quinzenalmente às terças-feiras.

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