Coluna

Para que serve o movimento negro brasileiro?

    Episódios recentes de racismo estrutural — e de resistência contra ele — demonstram a importância e os resultados de anos de organização coletiva

    Finalmente está de volta sob a guarda da mãe a jovem menina Yawo (iniciada na religião do candomblé), que foi vítima de racismo religioso. O fato ocorrido na cidade de Araçatuda, interior de São Paulo, foi um de muitos casos do que chamamos de racismo estrutural na semana. O Conselho Tutelar da cidade recebeu falsas denúncias de maus-tratos e até mesmo abuso sexual, supostamente sofridas no terreiro de candomblé. A avó da menina, aparentemente evangélica, foi quem prestou queixa na polícia contra a mãe. Os policiais invadiram o terreiro e tiraram do runcó, quarto sagrado, a menina recém iniciada. Também foi estranhamente rápida a ação do juiz que tirou da mãe a guarda da filha, que agora tem o ori (cabeça) entregue à grande mãe Yemanjá.

    A menina afirmou o tempo todo diante da Justiça a sua vontade e consentimento nos rituais, e as denúncias tiveram a falsidade confirmada. Ainda assim, a garota teve que passar 17 dias sob a guarda de uma avó intolerante que, segundo ela, constantemente tentava convencê-la de abandonar a religião na qual havia acabado de se iniciar. Felizmente, a jovem está em casa ao lado da sua mãe, podendo assim dar prosseguimento a sua nova vida, duplamente nova, renascida. A todo momento chamou-me atenção a ação do Conselho Tutelar, dos policiais que invadiram o terreiro e do juiz que decidiu por tirar a guarda da menina da sua mãe.

    Não fosse o amplo debate pautado pelo movimento negro brasileiro, que ensinou à sociedade brasileira que esses são atos de intolerância religiosa ou racismo religioso, nem ficaríamos sabendo de casos como esse. A mãe da menina chamou de intolerância a motivação para a ação violenta que lhe custou a guarda da filha. Um detalhe: a mãe da criança é uma mulher branca. A racismo reside aqui na demonização de práticas de matriz africana, hoje ainda perseguidas por fundamentalistas brasileiros.

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    Luciana Brito é historiadora, especialista nos estudos sobre escravidão, abolição e relações raciais no Brasil e EUA e é professora da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. É autora do livro “Temores da África: segurança, legislação e população africana na Bahia oitocentista”, além de vários artigos. Luciana mora em Salvador com sua família, tem os pés no Recôncavo baiano, mas sua cabeça está no mundo. Escreve quinzenalmente às terças-feiras.

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