Coluna

Os fundamentos morais de Donald Trump

    A predisposição de eleitores a buscar valores universais ou comunitários ajuda a explicar a popularidade de políticos como o presidente americano

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    Em algumas semanas, saberemos se Donald Trump vai surpreender o mundo novamente ao conquistar um segundo mandato ou se sua improvável presidência está chegando ao fim. Seja qual for o caso, continua sendo importante tentar entender mais a fundo como sua trajetória política foi possível.

    Muitos fatores certamente colaboraram para tanto, a começar pela extrema polarização que levou tantos republicanos que inicialmente o consideravam intolerável — e mesmo alguns que seguem considerando-o “louco” — a torcerem o nariz e lhe darem seu apoio como um mal menor. Mas naturalmente é preciso antes entender como Trump conseguiu chegar à posição de candidato republicano, como um outsider recém-chegado que conduziu uma “aquisição hostil” do partido.

    De início, o debate a respeito polarizou-se entre duas ideias. De um lado, a “ansiedade econômica” — isto é, a existência de um contingente de eleitores economicamente penalizados pela globalização e/ou mudanças tecnológicas — poderia ter aberto as portas para um candidato pregando uma retórica protecionista e hostil à imigração. De outro, a constante exploração de temas aos quais a imprensa norte-americana tradicionalmente se referia eufemisticamente como “racialmente carregados” — ou dito de forma mais clara, o racismo semi-explícito — sugeria as tensões raciais como base fundamental do trumpismo.

    Um artigo recente do economista alemão Ben Enke, que leciona atualmente no Departamento de Economia da Universidade de Harvard, propõe uma explicação adicional, que poderíamos descrever como o fundamento moral do êxito político de Donald Trump. Parece irônico usar esse adjetivo, em se tratando de um indivíduo tão “sociopaticamente” amoral, mas a ideia se refere aos valores morais que o discurso e as atitudes do candidato lograram ativar entre os eleitores. E não parece razoável ou produtivo especular que milhões de eleitores são moralmente deformados como o candidato que decidiram apoiar com seus votos.

    O ponto de partida é o reconhecimento de que as escolhas políticas têm uma dimensão moral: para além de um cálculo puramente racional sobre como serão individualmente afetados caso um ou outro candidato saia vencedor, os eleitores levam em conta os valores morais que cada candidato representa. Dito de forma simples, preferimos votar em políticos que de algum modo representam valores que consideramos corretos.

    A isso soma-se o fato de que existe heterogeneidade em termos desses valores. Entenda-se por isso não que diferentes pessoas ou grupos sejam melhores ou piores do ponto de vista moral — isso é obviamente possível, mas não vem ao caso para o argumento — mas sim que eles têm diferentes visões sobre o que é moralmente importante.

    Em particular, uma dimensão importante dessa heterogeneidade tem a ver com o que podemos chamar de “universalismo” moral. Valores universais são aqueles que se aplicam independentemente do contexto ou da identidade dos indivíduos em questão: direitos humanos e civis, noções imparciais de justiça ou igualdade. A esse tipo de valores contrapõem-se aqueles que podemos designar como “comunitários”: lealdade, patriotismo, tradição.

    Evidentemente, não se trata de que alguns desses valores sejam certos e outros errados – dificilmente alguém consideraria lealdade ou justiça como algo indesejável por si só — mas sim de quais recebem prioridade em caso de tensão entre eles. Poderíamos dizer que todos os seres humanos dão prioridade moral a entes que vemos como mais próximos — familiares, compatriotas, humanos — mas divergimos em relação ao quão rapidamente reduzimos o peso moral à medida que essa proximidade decai.

    Valores universalistas parecem haver se retraído nos anos subsequentes à crise financeira de 2008, e particularmente em áreas rurais

    Enke demonstra que existe enorme variação na dimensão universalista versus comunitária, quando se analisa os discursos de diferentes políticos. Ele documenta que o Partido Democrata vem se tornando mais e mais universalista, ao longo de décadas recentes, relativamente ao Partido Republicano. Donald Trump, em particular, se destaca com uma retórica especialmente voltada para o lado comunitário do espectro. Adicionalmente, o trabalho mostra que indivíduos e localidades com um maior grau de universalismo têm uma probabilidade substancialmente menor de terem votado em Trump, tanto nas primárias republicanas quanto nas eleições gerais de 2016.

    Fosse esse um fenômeno unicamente relacionado a este caso, talvez se tratasse de mera curiosidade. O artigo mostra, porém, que esse padrão se mantém ao compararmos outros candidatos ao longo do tempo: universalistas votaram mais em Obama do que em John McCain em 2008, e mais ainda do que em Mitt Romney em 2012, e as diferenças de retórica entre eles seguem esse padrão. Assim é também para candidatos de um mesmo partido: Ted Cruz era menos universalista que Marco Rubio, então o mesmo vale para os eleitores republicanos de ambos.

    Isso tem implicações para entendermos as tendências políticas norte-americanas: valores universalistas parecem haver se retraído nos anos subsequentes à crise financeira de 2008, e particularmente em áreas rurais.

    Mais ainda, isso pode nos ajudar a entender o que vem acontecendo em várias partes do mundo, inclusive no Brasil. Sem ter levado a cabo uma análise sistemática dos discursos de Jair Bolsonaro, parece claro que refrões como “Brasil acima de tudo”, “Deus, pátria e família”, ou “as minorias têm que se curvar para as maiorias” têm conteúdo eminentemente comunitário. Da mesma forma, a expansão de movimentos nacionalistas e anti-imigrantes em vários países ilustram padrões semelhantes.

    Ao reconhecermos a dimensão moral desses fenômenos, aqueles de nós que compartilhamos de um arcabouço mais universalista nos vemos diante de um desafio: seria mais fácil atribuí-los simplesmente a desvios de caráter. Não podemos diminuir a repugnância moral de indivíduos como Trump ou Bolsonaro, ou o papel que aberrações como a defesa da tortura e o sexismo, racismo e homofobia têm em sua retórica, em diferentes graus. Nem podemos ignorar o quanto tais aberrações atraem alguns eleitores. Ainda assim, é preciso entender que esses políticos também falam às intuições morais de milhões de cidadãos.

    Filipe Campante é Bloomberg Distinguished Associate Professor na Johns Hopkins University. Sua pesquisa enfoca temas de economia política, desenvolvimento e questões urbanas e já foi publicada em periódicos acadêmicos como “American Economic Review” e “Quarterly Journal of Economics”. Nascido no Rio, ele é PhD por Harvard, mestre pela PUC-Rio, e bacharel pela UFRJ, todos em economia. Foi professor em Harvard (2007-18) e professor visitante na PUC-Rio (2011-12). Escreve mensalmente às quintas-feiras.

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