Coluna

Os caminhos nada lineares da ciência

    Nem sempre sabemos, durante pesquisas, quais descobertas científicas darão origem a grandes avanços

    Em meados dos anos 90, presenciei um raro momento do tipo “Eureca!” no laboratório científico em que trabalhava, no Instituto de Biologia da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). A professora Ione Salgado saltava de alegria ao ver que um experimento-chave havia gerado um resultado importante, encaixando a última peça em um quebra-cabeças científico que montavam há anos. Os resultados, totalmente conduzidos por brasileiros e liderados pelo professor Anibal E. Vercesi, viriam a ser publicados em 1995 na prestigiosa revista científica Nature, e mostravam que mitocôndrias de batatas tinham proteínas desacopladoras.

    Explico: Mitocôndrias são as baterias das nossas células, nos fornecendo energia para as nossas atividades corriqueiras. Elas estão presentes não só em animais como nós, mas também em todas as formas de vida mais complexas, incluindo as plantas. Antes de 1995, havia sido descoberto que mamíferos (animais peludos que produzem leite) tinham proteínas desacopladoras, que são moléculas que agem fazendo um curto-circuito no mecanismo de bateria das mitocôndrias, diminuindo seu aproveitamento de energia e gerando calor. Porque essas proteínas estavam presentes em mamíferos, que mantêm sua temperatura corporal constante e acima da temperatura ambiente, a geração de calor mediada pelas proteínas desacopladoras era considerada a principal função desse mecanismo de curto-circuito biológico. De fato, foi demonstrado que animais que hibernam usam essas proteínas para rapidamente reaquecer seus corpos quando saem do processo de hibernação.

    O achado da existência dessa mesma proteína em mitocôndrias de batata gerou uma reviravolta na área. Batatas são plantas, e estão muito distantes evolutivamente de animais — os dois grupos se separaram há cerca de 1,5 bilhão de anos. O fato de proteínas desacopladoras existirem em batatas e também em mamíferos indicava que elas existem pelo menos desde antes da separação entre esses grandes reinos biológicos. Se isso é verdade, não deveriam existir apenas em batatas e mamíferos. De fato, estudos posteriores viram que proteínas desacopladoras estavam presentes em muitas outras plantas, fungos e animais.

    Cientistas também tiveram que repensar a função das proteínas desacopladoras, já que animais de sangue quente surgiram apenas há cerca de 270 milhões de anos, e essa proteína estava presente em plantas, animais e fungos de modo independente de sua adaptação ao frio. Forçados a repensar, descobriram que esse mecanismo de curto-circuito das baterias mitocondriais era não só fonte de calor, mas também um importante regulador de metabolismo. Uma de suas funções de regulação metabólica é prevenir a produção de radicais livres, protegendo plantas e animais de excessos dessas moléculas potencialmente danosas.

    A maioria das grandes descobertas científicas foi feita sem que o objetivo inicial dos pesquisadores envolvidos fosse fazer esse achado

    Outra função metabólica que se descobriu para as proteínas desacopladoras é regular a quantidade de energia que se obtém dos alimentos. Ao gerar o curto-circuito, parte da energia dos alimentos vira calor, o que significa que menos energia dos alimentos é usada para funções celulares. Isso pode parecer uma desvantagem, mas no mundo moderno em que há comida em excesso e a maior parte das pessoas tem tendência a engordar, pode ser uma vantagem, pois evita o acúmulo de excessos na forma de gordura. Sabemos há alguns anos que o aumento da atividade de proteínas desacopladoras explica porque algumas pessoas (muito invejadas) são capazes de comer bastante e não ganhar peso.

    Mundialmente, governantes sem entendimento profundo de processos científicos gostam de falar que pretendem investir em ciência, mas não na ciência básica, percebida como pouco útil, e sim na ciência aplicada, próxima da sua introdução ao mercado. De fato, a ciência aplicada é importante, e também bastante cara, pois envolve otimização em larga escala. É também uma ciência cujos objetivos e caminhos são razoavelmente lineares: é testado se um produto ou serviço funciona para devidos fins, e se ele tem sucesso (total ou parcial), ou se falha. Nesse sentido, infelizmente tenho que lhes informar que até hoje todas as tentativas de “ligar” proteínas desacopladoras diretamente com medicamentos para promover emagrecimento falharam...

    Por outro lado, os proponentes dos investimentos destacados em ciências aplicadas não ponderam de onde vem o conhecimento para se gerar um novo produto ou serviço. A resposta para isso é que tudo que é realmente inovador vem da ciência básica. A ciência básica é feita em muito menor escala e, por isso, é muito mais barata. É feita na fronteira do conhecimento humano e, portanto, tem resultados muito pouco previsíveis, indo do simplesmente curioso ao revolucionariamente útil. De fato, a maioria das grandes descobertas científicas foi feita sem que o objetivo inicial dos pesquisadores envolvidos fosse fazer esse achado, incluindo o desenvolvimento do micro-ondas, plásticos, raios-X para uso médico e a penicilina (que, estima-se, já salvou mais de 100 milhões de vidas humanas). Investir na curiosidade humana por meio da ciência básica é o caminho tortuoso que nos leva à verdadeira inovação.

    Há 25 anos, quando o achado sobre a presença de proteína desacopladora em batatas foi noticiado em alguns jornais, muitos devem ter se questionado por que estávamos pagando para estudar algo tão exótico quanto mitocôndrias de batatas. Se perguntarmos para os pesquisadores envolvidos por que o fizeram, a resposta mais honesta provavelmente seria por mera curiosidade. Não tínhamos ainda como saber que a descoberta da proteína desacopladora de plantas impulsionaria o conhecimento do metabolismo humano, mas devemos esse desenvolvimento a um grupo de pesquisadores brasileiros, cientificamente muito bem preparados para reconhecer algo extraordinário, e fomentados pela simples vontade de entender melhor o mundo à sua volta.

    Alicia Kowaltowski é médica formada pela Unicamp, com doutorado em ciências médicas. Atua como cientista na área de Metabolismo Energético. É professora titular do Departamento de Bioquímica, Instituto de Química da USP, membro da Academia Brasileira de Ciências e da Academia de Ciências do Estado de São Paulo. É autora de mais de 150 artigos científicos especializados, além do livro de divulgação Científica “O que é Metabolismo: como nossos corpos transformam o que comemos no que somos”. Escreve quinzenalmente às quintas-feiras.

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