Coluna

Onde nasce o rio Níger? Sobre ciência e a cartografia africana

    As hierarquias estabelecidas na sociedade ocidental e europeia costumam transbordar para outros ramos do saber

    Francisco, Mateus, José, Bernardo, Bento e Bonifácio fizeram parte de contingentes de africanos ocidentais — nome genérico dado às pessoas originárias da região da África Ocidental, cujo litoral se estende do rio Senegal (no atual Senegal) até o cabo Lopez, na linha do Equador (no atual Gabão) — que foram deslocados para o litoral paulista de Santos, nas primeiras décadas oitocentistas. Eles podem ter vindo junto com outras levas de africanos desembarcados em Salvador no início do século 19, e que depois foram revendidos e reexportados para Santos. Mais não sabemos sobre a origem desses ilustres viajantes que foram por aqui escravizados.

    No entanto, algumas informações acerca desses seis africanos vão aparecer, inesperadamente, numa correspondência de José Bonifácio de Andrada e Silva (1763-1838). Em 1826, o “patriarca da independência” informava a Antônio Vasconcellos de Drummond (1795-1865) alguns detalhes reveladores sobre suas descobertas científicas no campo da geografia. Destacava, ainda, a importância de Francisco, um africano hausa, por meio do qual tinha conseguido obter um vocabulário com 75 palavras, fundamental para concluir um artigo onde argumentava sobre o verdadeiro curso do Rio Níger.

    Em 1819, numa conversa com seis africanos hausas em Santos — justamente Francisco, Mateus, José, Bernardo, Bonifácio e Bento —, José Bonifácio vislumbrou uma nova hipótese científica e geográfica, comprovando que o Rio Níger confluía a partir de um único curso. Até então, os europeus acreditavam na existência de vários rios na região, pois apenas conheciam partes do curso da água e todas recebiam nomes diferentes. No entanto, em diálogo com tais africanos, que eram muçulmanos — alguns deles liam e escreviam árabe —, José Bonifácio descobriu, ou melhor finalmente aprendeu, que o rio Níger, embora único, ganhava denominações distintas nas diversas regiões e reinos que banhava.

    Não raro, denominamos nossos conhecimentos especializados de ciência e tudo que é produzido pelos demais povos como crença

    Ainda que possa ter estranhado muitas expressões da topografia e da história africana, José Bonifácio aproveitou para registrar as trajetórias de alguns desses seis africanos a partir dos relatos feitos por eles próprios. O de nome Mateus tinha nascido em Berni-Daurah e acabara prisioneiro dos africanos fulanis, sendo escravizado e depois vendido. Já José nascera em Tabaran e talvez fosse de origem Nupe ou Tapa. Fora capturado quando trocava sal e conchas por panos da costa e cativos. Seguiu para Oyo e depois para o litoral, sendo vendido como escravizado. Sobre o africano Bernardo, havia nascido no reino de Gobir, onde existiria uma grande cidade fortificada e protegida por exércitos. Ele também teria sido capturado quando realizava comércio de sal nas proximidades dos reinos iorubas. O africano Bonifácio revelou a José Bonifácio que tinha nascido na aldeia Kabih, pertencente ao reino de Zamfara, onde podiam ser encontradas muitas mesquitas. Foi por lá que aprendera, com os líderes imanes, o islã e o Alcorão. Capturado por fulanis, foi trocado pelos iorubas de Oyo, sendo posteriormente embarcado a partir do porto de São Jorge da Mina, onde se encontrava um grande forte — esse era o ponto de partida para a América; jamais de retorno. Talvez exagerando um pouco, garantiu que sua viagem até o Brasil durou seis meses, quem sabe incluindo o tempo que permaneceu nas praias africanas, a ida para Salvador e, depois, a reexportação até Santos. O africano Bento disse, ainda, que fora capturado pelos africanos Nupes, trazido para Borgu e embarcado e vendido pelos iorubas.

    José Bonifácio de Andrada destacou a importâncias das conversas que travou com o africano Francisco, o qual, nas suas palavras, era “um sábio letrado”. Ele revelou que era nascido em Toobah, no reino de Kano. Atuando no comércio como mercador foi capturado, vendido e transportado do interior até o litoral, passando por vários rios e reinos, até ser embarcado para a América.

    Transcrevendo os diálogos que manteve com esses seis africanos, a ponto de saber detalhes sobre as suas origens e condições de escravização, José Bonifácio, sem pisar na África, identificou — principalmente por meio das tertúlias que estabeleceu com Francisco — que o Rio Níger era um só, embora tivesse denominações diversas como Gulby, Joliba, Kwara e mais outras.

    Muitos exploradores europeus tinham dúvidas a respeito dessa questão, e talvez, mesmo conhecendo várias partes do continente africano, deixaram de debater sobre o tema com seus guias. Fariam generalizações geográficas, provocando verdadeiros equívocos cartográficos com grandes consequências para a navegação e o comércio local. Já José Bonifácio de Andrada repassou tais informações visando a publicação de “Notícias do interior da África e do curso do Rio Níger” no Journal Géographique. Posteriormente, Menezes de Drummond publicaria “Cartas sobre a África Antiga e Moderna” no Journal des Voyages, Découvertes et Navigation Modernes (1826) onde seriam registradas as anotações do, assim chamado, “padrinho da independência brasileira”.

    As hierarquias que estabelecemos na sociedade ocidental e europeia costumam transbordar para outros ramos do saber, como é o caso da ciência. Não raro, denominamos nossos conhecimentos especializados de “ciência” e tudo que é produzido pelos demais povos como “crença”. Há uma clara valoração entre os termos com o primeiro sendo entendido como o resultado da exploração, do desenvolvimento de hipóteses e conclusões, e o segundo sendo relegado para o lugar do costume e do espírito leigo.

    O exemplo do diálogo entabulado entre José Bonifácio e Francisco revela que nos tumbeiros, como eram chamados os navios negreiros, vieram pessoas, tecnologias, religiões, cosmologias, diferentes culturas materiais e imateriais, e muita ciência. A ciência da cartografia jamais seria a mesma depois que Francisco resolveu dar aulas de geografia para José Bonifácio de Andrada

    P.S.: Este artigo se baseia em material que estou preparando junto com Flávio Gomes e Jaime Lauriano para o livro “Enciclopédia negra”, que será publicado em novembro deste ano. Também foi produzido como parte da campanha #CientistaTrabalhando, que celebra o Dia Nacional da Ciência. Ao longo do mês de julho, colunistas abordam temas relacionados ao processo científico, em textos escritos por convidados ou por eles próprios.

    Lilia Schwarcz é professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.

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