Coluna

O valor das vidas negras e o colapso da quarentena

    A sociedade brasileira se acostumou com a perda precoce de vítimas da violência geral e do Estado. Absorver dezenas de milhares de mortos pelo coronavírus é uma diferença apenas de grau

    A passagem da primavera para o verão do Hemisfério Norte vem sendo marcada, nos Estados Unidos, por dois movimentos: o paulatino afrouxamento das medidas de quarentena (ou “lockdown”) adotadas em resposta à pandemia do coronavírus, e os protestos em massa que se seguiram ao bárbaro assassinato de George Floyd por um oficial de polícia em Minneapolis, mais um da série de mortes que galvanizou o movimento Black Lives Matter.

    A princípio esses dois fenômenos parecem distintos, à parte possíveis impactos mútuos no âmbito da saúde pública — embora as evidências iniciais apontem que o temor de que as aglomerações de manifestantes poderiam gerar focos de contaminação parece não ter se confirmado. A meu ver, no entanto, o fato de o país estar saindo da quarentena a despeito de o coronavírus não ter sido derrotado, com centenas de pessoas morrendo todos os dias e agregando a um total de mais de 120 mil mortes, está fundamentalmente relacionado a uma realidade em que algumas vidas — e vidas negras em particular — infelizmente parecem importar menos que outras. O afrouxamento da quarentena e a violência policial, em suma, têm um alicerce em comum.

    Os EUA essencialmente desistiram de continuar a luta para trazer o número de novos casos e mortes para perto de zero — algo que, para não mencionarmos exemplos bem-sucedidos como Coreia do Sul ou Nova Zelândia, mesmo a Europa logrou. Tendo conseguido “achatar a curva” e garantir que o sistema de saúde não está em risco de colapso, parece que a sociedade americana está essencialmente pronta para retomar um ritmo relativamente normal.

    Há muitas razões por trás disso, é claro, como a arraigada aversão norte-americana a imposições sobre o comportamento individual. Não me parece coincidência, contudo, que isso ocorra ao mesmo tempo em que já é claro que o impacto da covid-19 tem sido muito desproporcionalmente sentido nas comunidades negras. Nisso, o novo coronavírus se junta a diversas outras crises de saúde pública, que deixam evidente o impacto das profundas desigualdades históricas deixadas pelo legado dos séculos de escravidão, segregação, e injustiça racial que persiste nos dias de hoje.

    Outro exemplo evidente de tal injustiça é, claro, o tratamento dispensado pelo Estado norte-americano às comunidades negras, especialmente na ação do seu braço armado, as polícias. George Floyd, Breonna Taylor, Eric Garner, Philando Castile, Tamir Rice: apenas uma pequena amostra do nível de violência que a sociedade americana inflige aos descendentes dos escravos, e que mais uma vez transbordou em manifestações de protesto, desta vez angariando um nível muito maior de apoio na opinião pública que em episódios anteriores.

    O que nos traz ao exemplo de uma outra sociedade construída com base em séculos de escravidão: o Brasil. Estamos reproduzindo um padrão semelhante, porém ainda mais extremo que o dos EUA: nem esperamos o achatamento da curva para sair da quarentena. Ao contrário, o distanciamento social em larga medida colapsou, enquanto as curvas do número diário de casos e de mortes ainda apontam para cima.

    Casos como o de João Pedro ou Ágatha ou tantos outros são, na prática, simplesmente aceitos pela sociedade brasileira como dano colateral

    O que pode explicar tamanha pressa? Tal como no caso norte-americano, parte se deve a governantes que politizaram a resposta à epidemia para se eximirem de responsabilidade pela crise, com a qual não têm a mínima capacidade de lidar. É o preço que ambos os países pagam por terem eleito líderes populistas completamente descomprometidos com as tarefas básicas da gestão pública.

    Mas não se trata apenas disso. Afinal de contas, não foi apenas por obra do governo federal que o Brasil saiu da quarentena. Vem havendo de fato uma pressão social considerável para tal, demonstrada no comportamento das pessoas mesmo quando medidas de distanciamento ainda estavam (ou estão) em vigência por parte de governos estaduais ou municipais. Se parte dessa pressão, por sua vez, vem do fato de que milhões de brasileiros não podem se dar ao luxo de ficar em casa, sob pena de absoluta penúria, de novo isso não explica a história toda. Não são apenas esses cidadãos que estão retomando as atividades, mas também muitos que poderiam seguir em quarentena se quisessem.

    Creio que a resposta, tal como nos EUA, passa pela injustiça cotidiana da vida brasileira. Já há algum tempo, o vírus, que chegou ao país de carona com turistas voltando da Europa, passou a afligir desproporcionalmente as camadas mais pobres e marginalizadas — e negras. Ao mesmo tempo, o sentido de urgência na sociedade brasileira pareceu arrefecer-se na medida em que a crise era controlada na rede privada de saúde. O sentimento foi colocado por alguns de forma quase caricata, mas não me parece coincidência.

    O fato é que a sociedade brasileira já absorve todos os anos, como parte da vida normal, a perda precoce de dezenas de milhares de vidas para a violência — vidas essas, em sua maioria, pretas e pardas e jovens. Absorver dezenas de milhares a mais é uma questão de grau, e não de tipo.

    Mais ainda, essas vidas perdidas não se devem apenas à omissão. Mesmo num ano como 2019, em que o número de homicídios caiu para o ainda estratosférico patamar de cerca de 40 mil vítimas, o número de pessoas mortas pela polícia seguiu em quase 6 mil. Em outras palavras, o Estado brasileiro mata a uma taxa semelhante à taxa de homicídios total na União Europeia (cerca de três por 100 mil habitantes).

    Ainda pior, isso não ocorre apenas na obscuridade, com o Estado atuando dessa maneira enquanto a sociedade finge não ver o morticínio. Ao contrário, o presidente Jair Bolsonaro — bem como outros políticos como o governador Wilson Witzel, no Rio de Janeiro — foram eleitos sob a bandeira explícita de aumentar esses números. Casos como o de João Pedro ou Ágatha ou tantos outros são, na prática, simplesmente aceitos pela sociedade brasileira como dano colateral.

    Em suma, Brasil e EUA, com suas especificidades e em graus distintos, são sociedades que se acostumaram a conviver com níveis de mortalidade, especialmente nas suas populações mais pobres, que estão bastante acima do que outras sociedades de níveis semelhantes de desenvolvimento econômico tolerariam. Difícil não concluir que isso tem suas origens na história de escravidão — e por conseguinte, racismo estrutural, como bem salientou Claudio Ferraz, neste mesmo espaço, há um par de semanas — sobre a qual ambas se erigiram. A tolerância à violência de Estado e à difusão desimpedida do novo coronavírus são, em larga medida, manifestações específicas dessa chaga profunda.

    Filipe Campante é Bloomberg Distinguished Associate Professor na Johns Hopkins University. Sua pesquisa enfoca temas de economia política, desenvolvimento e questões urbanas e já foi publicada em periódicos acadêmicos como “American Economic Review” e “Quarterly Journal of Economics”. Nascido no Rio, ele é PhD por Harvard, mestre pela PUC-Rio, e bacharel pela UFRJ, todos em economia. Foi professor em Harvard (2007-18) e professor visitante na PUC-Rio (2011-12). Escreve mensalmente às quintas-feiras.

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