Coluna

O seletivo grupo de privilegiados e as redes que aprofundam desigualdades

    O Carnaval expõe, e não subverte, a rigidez da discrepância entre grupos raciais e classes sociais no Brasil

    O Carnaval passou, mas me deixou duas reflexões que gostaria de compartilhar. A primeira delas é que o Carnaval nada mais é do que um retrato de uma sociedade, e não a completa inversão da sua ordem cotidiana.

    Explico do que estou falando. Não chamou atenção de muitxs de nós a apuração dos pontos dos desfiles das escolas de samba? Para além das celebridades que tomaram o posto de rainhas de bateria, desbancando as mulheres negras das comunidades, a apuração dos votos nos mostrou que até ali a supremacia do poder da Sapucaí é lugar da população branca brasileira. É impressionante perceber o quão diferente é a composição das pessoas das alas da comunidade, das torcidas das arquibancadas e de quem, literalmente, senta na mesa de decisões.

    E em Salvador, minha cidade? É a mesma coisa. A cada ano que passa é menor o número de cantoras negras nos trios elétricos, é menor o investimento e apoio aos blocos afro e mais precária a condição de quem trabalha vendendo de tudo nas ruas durante a festa. Ou seja, o Carnaval não representa completamente a transgressão da ordem. As hierarquias vigentes ao longo do ano simplesmente estão mantidas nos dias de folia.

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    Luciana Brito é historiadora, especialista nos estudos sobre escravidão, abolição e relações raciais no Brasil e EUA e é professora da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. É autora do livro “Temores da África: segurança, legislação e população africana na Bahia oitocentista”, além de vários artigos. Luciana mora em Salvador com sua família, tem os pés no Recôncavo baiano, mas sua cabeça está no mundo. Escreve quinzenalmente às terças-feiras.

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