Coluna

O que aprendemos no 1º semestre de ensino a distância emergencial

    Foram muitos os desafios e aprendizados da experiência de trocar a sala de aula por vídeos, plataformas eletrônicas e ferramentas de educação não presencial

    Na noite de 13 de março, uma sexta-feira, foi divulgada uma nota dos dirigentes das universidades estaduais paulistas (USP, Unicamp e Unesp) suspendendo aulas presenciais nos seus campi a partir do dia 17 de março, em virtude da pandemia. No final de semana, nós professores da USP recebemos mensagens da reitoria estimulando a realização, quando possível, de ensino de graduação por meio de atividades a distância, utilizando ferramentas e plataformas eletrônicas.

    Embora a formação acadêmica e científica nos prepare para lidar com o desconhecido e situações desafiadoras, essa certamente foi a maior e mais rápida mudança no ensino universitário que presenciei. O fato de ter ocorrido junto com imensas transformações também nas atividades administrativas e de pesquisa e extensão dos docentes somente acrescentou ao desafio que assumimos a partir de então.

    Poucos dos 5.800 professores da USP tinham treinamento em técnicas e ferramentas de ensino a distância, e nenhum dos quase 60 mil estudantes de graduação da USP estava preparado para o aprendizado em casa. Tive a sorte de não ter que dar aulas naquela primeira semana, pois divido a disciplina com a Profa. Sayuri Miyamoto. Assisti um tanto atônita a ela, com a calma e organização primorosa que sempre teve, preparar um bom roteiro de estudos e esquema de aula distanciada para passar o conteúdo da aula de bioquímica de segunda-feira, dia 16 de março. Embora pudéssemos dar aulas presenciais, não fazia sentido fazê-lo perante a obrigatoriedade de cancelamento no dia seguinte. Nessa primeira semana, numa decisão que se mostrou muito acertada, a Prof. Sayuri também cobrou a entrega de respostas de uma lista de exercícios, mantendo o engajamento dos alunos.

    Nos dias e semanas seguintes fomos inundados de material vindo das pró-reitorias e comissões de graduação para nos guiar na tarefa de continuar com o ensino não presencial. Houve um grande esforço institucional para providenciar chips de celular para estudantes sem acesso à internet, além de empréstimo de computadores para estudantes que não os tinham. Numa coincidência infeliz, eu e Prof. Sayuri não tínhamos acesso a rede cabeada em nossas residências; nos viramos com créditos de celular, e por isso certamente fomos mais conscientes das dificuldades de conectividade que estudantes pudessem ter.

    Se há algo que este semestre nos ensinou é que o ensino presencial é muito melhor. Mas também temos agora um semestre de aprendizado sobre como ensinar e aprender a distância nessa situação emergencial

    Assumi as aulas algumas semanas depois do início do ensino emergencial a distância, e continuei pedindo entrega de exercícios, além de oferecer videoaulas pré-gravadas e sessões para solução de dúvidas online. Pré-gravar as aulas em vez de ministrá-las ao vivo em videoconferência foi necessário devido aos meus problemas de conectividade, mas também permitiu aos estudantes flexibilidade de horários e organização de estudos. Achei positivo, e continuarei fazendo. Na tentativa de fazer limonada com os limões que nos foram entregues, resolvi colocar as aulas que gravei abertamente em um canal YouTube, para possivelmente ajudar pessoas fora da minha disciplina. Foi outra decisão acertada, acredito, baseado no retorno positivo que recebi.

    Obviamente nem tudo foram flores — muito pelo contrário, tudo foi muito mais difícil. Eu nunca havia editado vídeos na vida, e ao colocá-los em rede aberta, depois de já ter preparado as aulas para o semestre inteiro, fui avisada que eles tinham distorções de som em alguns celulares. Só descobri como evitar esse problema na semana passada e, no semestre que vem, farei melhor. Enquanto os sistemas da USP surpreendentemente conseguiram lidar com o aumento imenso de dados depositados, meu computador caseiro teve várias dificuldades. Para evitar interrupções por barulho de obras, jardinagem ou o “carro do ovos” nas redondezas, passei a gravar aulas antes das 7 horas da manhã, mas nem mesmo assim tinha garantia de silêncio. Num dia particularmente barulhento, me fechei no quarto debaixo de uma cabana improvisada de edredom como isolante acústico para gravar uma aula, aproveitando que incluí nelas apenas voz e slides, e não minha imagem. Depois que terminei de preparar todas as aulas, recebi de um colega um artigo científico mostrando que o engajamento de estudantes é maior em aulas que incluem a imagem do professor falando. No semestre que vem, com esse conhecimento científico, farei vídeos melhores. Por fim, descobrimos que num país em que bons exemplos éticos são raros, não funciona realizar avaliação a distância se utilizando apenas do sistema de honra para assegurar que ela seja feita individualmente. No semestre que vem, faremos melhor.

    Fechamos o semestre esta semana, e, embora não possa dizer que tenha sido um bom semestre, acredito que foi melhor fazer a graduação a distância do que deixar de ter aulas. Creio que a maioria dos estudantes teve condições de aprender, indicado pelo fato de que tivemos apenas 5% de desistência em nossa disciplina, embora as condições, reconhecidamente, tenham sido bastante distantes do ideal. Na USP estão sendo discutidos agora como realizar aulas insubstituíveis como laboratórios experimentais, que precisam de presença física. Para o restante, ensino a distância é o melhor que podemos fazer no momento, e continuaremos com aulas virtuais no segundo semestre.

    Estou certa que não será uma mudança permanente, pois se há algo que este semestre nos ensinou é que o ensino presencial é muito melhor. Reconhecemos o quão superior é dar aulas vendo as expressões dos estudantes, providenciando um ambiente adequado para estudos, conversando pessoalmente e monitorando assim seu aprendizado, e voltaremos a fazê-lo quando for seguro. Mas também temos agora um semestre fechado de aprendizado dos professores e estudantes sobre como ensinar e aprender a distância nessa situação emergencial. No segundo semestre, certamente faremos melhor.

    Alicia Kowaltowski é médica formada pela Unicamp, com doutorado em ciências médicas. Atua como cientista na área de Metabolismo Energético. É professora titular do Departamento de Bioquímica, Instituto de Química da USP, membro da Academia Brasileira de Ciências e da Academia de Ciências do Estado de São Paulo. É autora de mais de 150 artigos científicos especializados, além do livro de divulgação Científica “O que é Metabolismo: como nossos corpos transformam o que comemos no que somos”. Escreve quinzenalmente às quintas-feiras.

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