Coluna

O que acontece quando mulheres enfrentam a crise?

    Ao redor do mundo, primeiras-ministras e chefes de governo têm se destacado no controle da pandemia do novo coronavírus em seus países

    O machismo é um fenômeno tão generalizado que há quem ache que ele seja “natural”. Não é! O machismo é uma construção social que prolifera em ambientes onde apenas homens controlam o poder, determinam a hierarquia e submetem todos os demais grupos de gênero a práticas de subordinação social. A homofobia e o machismo estão presentes no nosso dia a dia, nos hábitos cotidianos, mas são muito visíveis, também, no mundo da política, onde a prática tem implicado em tornar invisível a atuação de mulheres que ocupam cargos importantes no governo de seus países, mas que não seguem a cartilha dos dirigentes masculinos.

    Talvez por isso o noticiário político internacional esteja sempre repleto de homens brancos, de meia idade, com suas gravatas vistosas e ternos bem (ou mal) cortados. Só há espaço para políticos normativos como Donald Trump com seu cabelo de palha, Boris Johnson (que segue o mesmo estilo de cabeleira), o primeiro ministro húngaro Viktor Orban – que dá um golpe em cima do outro –, o ditador da Nicarágua Daniel Ortega, ou o ultra-direitista primeiro ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, no poder desde 2009. Isso sem esquecer de nossa versão tropical, que atende pelo nome de Jair Bolsonaro e segue o mesmo receituário populista e autoritário.

    Em comum, todos eles falam grosso, pensam que têm um canal direto com o povo e por isso desrespeitam instituições, políticos, jornalistas e cientistas. Em comum, também, muitos delestêm apanhado feio de um pequeno organismo que atende pelo nome de coronavírus, que causa a doença covid 19. Se num primeiro momento, vários deles simplesmente negaram a existência e a importância da Praga, hoje têm sido obrigados a reconsiderar suas políticas, e formas de agir e de atuar na crise. Um deles, Boris Johnson, amargou o próprio remédio: foi parar no hospital, contaminado, e ao sair elogiou dois enfermeiros imigrantes que cuidaram dele – a despeito do primeiro-ministro inglês ter uma plataforma contra a entrada de mão de obra estrangeira no Reino Unido.

    E se nada tem dado muito certo para esses senhores, um fenômeno bastante distinto vai ganhando força em países liderados por mulheres. Presidentas e primeiras-ministras de lugares como Dinamarca, Alemanha, Singapura, Islândia, Finlândia, Taiwan, Bélgica e Nova Zelândia têm mostrado muito mais agilidade para lidar com a epidemia que se abateu pelo globo, e que tem feito parar, tal qual trem descarrilhado, nações que pareciam (e se apresentavam como) inquebrantáveis.

    Jacinda Kate Laurell Ardern (nascida na cidade de Hamilton, em 1980) é uma política jovem da Nova Zelândia, mas que atua como primeira-ministra de seu país desde dezembro de 2017. Ela se define como social-democrata e progressista. É a favor do aumento do imposto para pessoas de alta renda, advoga pelo casamento homoafetivo e de outras identidades de gênero, defende a legitimidade do aborto, e apoia um estado de bem-estar social que forneça uma renda mínima para aqueles que não têm condições de se sustentar. De líder da oposição, desde 2008, e identificada ao Partido Trabalhista, ela passou a primeira-ministra e tem lidado com a crise sanitária de maneira muito eficaz. Até o último dia 9, a Nova Zelândia tinha muito mais pessoas recuperadas da covid-19 do que acometidas pelo vírus. Uma das medidas mais importantes tomadas por ela foi a imposição de ciclos de isolamento social completo. Além disso, as fronteiras da Nova Zelândia estão fechadas desde o dia 19 de março. É certo que estamos falando de uma pequena ilha na Oceania, onde é mais fácil fechar as fronteiras internas do que as nações europeias, por exemplo. Mesmo assim, chama atenção o vigor da primeira-ministra. No último dia 23, ela deu 48 horas aos neozelandeses para se prepararem para um bloqueio do país. Desse dia em diante, todos, exceto os trabalhadores essenciais, foram obrigados a ficar dentro de casa – o famoso lockdown – por quatro semanas. E explicou: “Estamos nisso juntos”. Mais recentemente anunciou um corte de 20% nos salários de toda a alta cúpula de seu governo, durante seis meses. Os recursos serão direcionados ao combate ao coronavírus.

    Outra mulher que tem se destacado na política e no combate ao coronavírus, é a política islandesa Katrín Jakobsdóttir (Reiquiavique, 1976). Ligada ao Partido Esquerda Verde ela é deputada do Parlamento de seu país desde 2007. Já foi Ministra da Educação e Cultura (de 2009 a 2013) e lidera o governo desde novembro de 2017. Katrín, que tem mestrado em artes, vem de uma família de acadêmicos, políticos e poetas. No que se refere ao combate à pandemia, Katrín está oferecendo testes gratuitos a todos os seus cidadãos; diferente da maioria dos países que têm testes limitados para pessoas com sintomas ativos. Em proporção à sua população, o país já examinou cinco vezes mais pessoas do que a Coreia do Sul e instituiu um sistema de rastreamento completo, o que significou a manutenção das escolas e do comércio abertos.

    Frente a tantos casos coesos de mulheres governantes bem-sucedidas, o quadro torna-se clarividente. Ao que tudo indica, mulheres têm inventado novas formas de “fazer política”, introduzindo suas próprias experiências como “cuidadoras”

    Entre os primeiros e mais rápidos políticos que atuaram contra o coronavírus está a presidente de Taiwan, Tsai Ing-wen. Em janeiro, antes de a OMS declarar a pandemia, ela introduziu 124 medidas para bloquear a disseminação, sem ter que recorrer às quarentenas. Tsai conseguiu o que a CNN chamou de “uma das melhores atuações do mundo”, mantendo a epidemia sob controle. Determinou no dia 31 de dezembro, no mesmo dia em que o foi notificado o surgimento de um vírus em Wuhan, até então desconhecido, que todos os passageiros retornando da cidade chinesa deveriam ser investigados. Atualmente, Taiwan tem 393 casos e apenas 6 mortes; a presidenta enviou 10 milhões de máscaras para os EUA e para Europa.

    Angela Dorothea Merkel (Hamburgo, 1954) é, desde 2005, chanceler da Alemanha. Líder do partido de centro-direita União Democrata-Cristã (CDU), de 2000 a 2018, ela tem sido descrita como a verdadeira líder da União Europeia. Formada em química, trabalhou em pesquisas científicas até 1989. Após a Revolução de 1989 ela entrou na política e por um curto prazo foi porta-voz do primeiro governo democraticamente eleito na Alemanha Oriental, em 1990. Após a reunificação alemã atuou como parlamentar, ministra do Meio Ambiente e foi secretária-geral da CDU.. Quando chegou a hora de enfrentar a pandemia, Merkel ampliou ao máximo a testagem, financiou com dinheiro do governo milhares de leitos de UTI, equipou os trabalhadores da área de saúde (médicos e enfermeiros, por exemplo) com as proteções necessárias. Dessa maneira, mesmo com um grande contingente de pessoas infectadas, o número de mortes permaneceu baixo na Alemanha, considerada a proporção do país e da população. Lá, são 123.016 casos e 2.799 óbitos desde o início da crise. Isso representa uma taxa de mortalidade baixa, cerca de 1,6%. Os números do país estão muito abaixo de seus vizinhos europeus e há sinais de que em breve a Alemanha poderá começar a afrouxar as restrições.

    Sanna Mirela Marin (Helsinque, 1985) se tornou a mais jovem chefe de estado do mundo quando foi eleita primeira-ministra da Finlândia, em dezembro de 2019. Filiada ao Partido Social-Democrata, ela antes ocupou o cargo de ministra dos Transportes e Comunicação. Sanna usou influenciadores digitais como agentes-chave na luta contra a crise do coronavírus. Reconhecendo que nem todos leem a imprensa tradicional, ela está convidando influenciadores de qualquer idade a divulgar informações baseadas em fatos, dados e pesquisas sobre o gerenciamento da pandemia.

    A primeira-ministra da Noruega, Erna Solberg (Bergen, 1961), também teve a ideia inovadora de usar a televisão para conversar diretamente com seus jovens conterrâneos. Solberg realizou uma conferência de imprensa em que nenhum adulto podia entrar. Respondeu, então, às perguntas de crianças de todo o país, explicando por que não havia problema em sentir medo. Socióloga e economista, ela entrou na política em 1989, como deputada.

    Também tem chamado atenção a política social democrata de Mette Frederiksen (Aalborg, 1977). Em 28 de junho de 2019, ela assumiu o cargo de primeira-ministra da Dinamarca, sendo assim a mais jovem primeira-ministra da história do país, bem como a segunda mulher a ocupar o cargo. A Dinamarca foi um dos primeiros países europeus a adotar medidas extremas para combater a pandemia de coronavírus. Logo no início de março, o país proibiu aglomerações públicas com mais de dez pessoas, além de fechar escolas, restaurantes, cafés e salões de beleza. Disse ela no começo de sua campanha: “Esse isolamento social, apesar de pagarmos um preço caro por ele do ponto de vista econômico e de relações humanas, deve diminuir com certeza a sobrecarga dos hospitais não só para a covid-19, mas para outros vírus respiratórios". E deu certo, com os números de infectados mantendo-se baixos no país.

    Halimah binti Yacob (Jawi, 1954) é a atual presidente de Singapura, estando no cargo desde 2017. Foi membro do PAP (People’s Action Party) e do Parlamento, entre 2001 e 2017. Foi a primeira mulher presidente na história da cidade-Estado asiática. “Resiliência é a chave do sucesso”, disse ela ao ser entrevistada sobre a política que empreendeu para combater a covid-19. E continuou: “A força de um povo só é testada em momentos de crise como esse. Como ficamos juntos, suportamos uns aos outros e reagimos a essas situações é a melhor forma de nos definir como pessoas”.

    Na pequena Bélgica, Sophie Wilmès (Ixelles, 1975) é a primeira mulher a ser chefe de governo de seu país. Atualmente ela serve como primeira-ministra e logo teve que enfrentar a crise sanitária da covid-19. Seu lema foi a transparência. A taxa de mortalidade por coronavírus na Bélgica, um país de 11,5 milhões de habitantes, é uma das mais elevadas da Europa, dada a inclusão de mortes suspeitas e a recusa de ocultar o destino dramático nas casas de repouso. A Bélgica "escolheu a maior transparência na comunicação das mortes relacionadas à covid-19", justificou a chefe de governo belga, que não descartou a possível inclusão "de números superestimados". Na prática, as autoridades de saúde incluem em seus balanços as mortes em hospitais, mas também em casas de repouso. A extensa contabilidade belga já foi alvo de críticas de alguns sanitaristas, mas, segundo autoridade locais, "considerar casos suspeitos é uma boa prática" para monitorar uma epidemia.

    Dizem que quando um fenômeno ocorre uma vez, ele pode não passar de “mera coincidência”. Quando acontece duas ou três vezes, poderíamos dizer que se trata de “muita coincidência”. No entanto, frente a tantos casos coesos de mulheres governantes bem-sucedidas, o quadro torna-se clarividente. Ao que tudo indica, mulheres têm inventado novas formas de “fazer política”, introduzindo suas próprias experiências como “cuidadoras”. Na história e em diferentes regiões do planeta, mulheres sempre desempenharam o trabalho doméstico; em geral invisível e silencioso. Por conta disso, durante muito tempo foram afastadas do sucesso profissional e também do espaço da política que foi, durante a história, quase um monopólio masculino.

    No entanto, e ao que tudo indica, com a pandemia, o mundo vai se alinhando mais aos valores feministas e dando nova importância aos cuidados para com a vida social. Trata-se, assim, de uma “nova economia do cuidado”. O luto, o choro, o lamento, reconhecimento da perda ganharam outro lugar nesse mundo, até então, refratário a sentimentos e manifestações públicas de solidariedade.

    É certo que esses são exemplos retirados de países com realidades muito distintas. Mas, de uma forma geral, a empatia e o cuidado que todas essas líderes femininas comunicam parecem remeter a um universo alternativo ao que estamos acostumados. Longe das falas normativas, ganham espaço discursos que reconhecem falhas, perdas e pedem pela união.

    A pandemia tem afetado de forma desigual às populações mais vulneráveis: aos mais idosos, aos pobres, aos negros, aos indígenas. Mas ela vem ensinando que a iniquidade faz mal à saúde de todos nós. Quem sabe é isso que essas novas líderes mulheres vêm mostrando; o paradoxo desse momento que pede por “cuidados” e saídas paradoxais: afinal, seremos mais solidários se ficarmos separados. Mais “resiliência”, “transparência”, “novas formas de comunicação”, “coerência”, “políticas orquestradas” são palavras de ordem dessas líderes mundiais, que têm inventado novas formas de fazer política nesse mundo que parece viver de seu esgotamento e levar junto seus políticos mais tradicionais.

    Vivemos momentos de clara anomalia e emergência. A pandemia também tem escancarado nossas desigualdades. Mas quem sabe é hora de fazer da crise uma oportunidade.

    PS: agradeço à Andréa Melloni, minha amiga, feminista de alma e coração.

    Lilia Schwarcz é professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.

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