Coluna

O negacionismo e o método científico hoje e na história

    As controvérsias que movem a ciência não podem ser confundidas com meras polêmicas

    Este texto foi escrito em parceria com Marie-Anne Van Sluys, do Instituto de Biociências da USP, como parte da campanha #CientistaTrabalhando, que celebra o Dia Nacional da Ciência.

    “A tensão existente entre saber e não-saber conduz ao problema e à tentativa de solução. Porém, jamais é superada. Isto porque o nosso saber nunca é mais do que propostas provisórias de solução apresentadas a título de ensaio e, conseqüentemente, encerra em si, em princípio, a possibilidade de se revelar errôneo, logo, não-saber. E a única forma de explicação do nosso saber é também ela apenas provisória. Consiste na crítica, ou mais precisamente, no fato de as tentativas de solução parecerem resistir até agora às nossas críticas mais severas.”

    A afirmação acima foi extraída de belíssima conferência feita por Karl Popper, na abertura das Jornadas da Sociedade Alemã de Sociologia, em 1961. Explica a humilde confiança que deve animar os cientistas, de qualquer área de conhecimento.

    O conhecimento científico é sempre provisório. Boas teorias são aquelas que sobrevivem à crítica e a novos estudos. Se novas evidências desafiam uma teoria (entendida aqui como a explicação do comportamento de um fenômeno), esta pode e deve ser superada.

    A controvérsia é motor da ciência. Mas a controvérsia científica tem método. Não pode ser confundida com palpite informado. O negacionismo sobrevive de palpites informados por recusar esse princípio fundamental.

    Já sabíamos dos riscos do negacionismo para nossa sobrevivência no planeta. Se a recusa à educação formal e ao problema ambiental pareciam pouco tangíveis, a covid-19 desvelou tanto a necessidade do método científico quanto os perigos de sua negação.

    Nestes últimos meses, vimos as ciências compartilharem informação e proporem ações baseadas em estudos científicos. Rapidamente, essa comunidade se organizou para conhecer melhor o que não sabia se apoiando no que já sabia. Não se sabia a eficácia de diferentes alternativas de tratamento terapêutico, entre as quais a hidroxicloroquina. O conhecimento produzido com base em método científico concluiu que o risco de seu uso é maior que qualquer benefício eventual, ainda não demonstrado.

    Em menos de seis meses de contato aberto com o vírus, mais de 160 vacinas, entre modernas e clássicas, estão em diferentes fases de teste. Também sabemos que podemos ajudar a controlar a doença lavando as mãos, usando máscaras e praticando formas variadas de distância social. Sem a ciência trabalhando, isso não teria sido possível.

    O que distingue a ciência, tal como modernamente a conhecemos, do conhecimento?

    A regra de ouro da ciência requer experimentação, replicação pública de resultados e verificação da informação

    A produção de conhecimento é uma atividade que acompanha o ser humano desde os primórdios de sua organização social. O homem aprende pela observação e pela reflexão. Na história da humanidade, indivíduos que detêm conhecimento ganham o status de “sábios”. A detenção de saber cura, guia, alimenta e resolve conflitos. A guarda do conhecimento outorga poder a indivíduos de diferentes perfis sociais. Pajés, escribas, monges, bem como indivíduos muito cultos são capazes de influenciar comportamentos. A autoridade deriva nesses casos de atributos morais ou religiosos. Se alguém é sábio, sua opinião deve ser levada a sério. Pode servir de guia para nosso comportamento.

    Entretanto, o conhecimento que deriva da autoridade é pré-científico. O saber científico não deriva da autoridade moral ou da objetividade do cientista. Deriva das qualidades do método. Se os procedimentos adotados estiverem corretos, é razoável aceitar a conclusão. Um cientista é respeitado não porque já “acertou” muitas vezes, mas porque expôs publicamente o caminho pelo qual chegou a uma conclusão. Se esses procedimentos respeitam métodos científicos, aceitamos suas conclusões.

    O método científico prevê regras para a interpretação da informação coletada. Inerente a essa condição está o fato de que o conhecimento obtido pode ser replicado e contestado. Por isso, a ciência é uma atividade humana dinâmica. Ela se reorienta em função de controvérsias, novos resultados e, também, pelo aprimoramento dos métodos.

    Contribuições científicas podem levar séculos para serem aproveitadas. O reverendo Thomas Bayes, que viveu no Reino Unido no século 18, propôs uma fórmula matemática para calcular a probabilidade de ocorrência de um evento. Apenas com o advento dos computadores em meados do século passado que a fórmula de Bayes ganhou importância por permitir cálculos de probabilidade e desenho de cenários futuros. As ciências sociais e as ciências ambientais ganharam ampliada capacidade de modelar situações presentes e inferir cenários futuros, tais como por exemplo no campo das mudanças climáticas. Na ocasião em que Bayes apresentou sua fórmula, não passava de um diletantismo proposto por um reverendo do condado de Kent com aptidão matemática.

    Alvo predileto dos negacionistas, a teoria da evolução de Darwin é dinâmica. Todas as células dos seres vivos são regidas por um código comum. Esta universalidade permitiu que o genoma humano fosse sequenciado pela ciência contemporânea, abrindo infinitas oportunidades de cura e tratamento de pacientes portadores de doenças genéticas.

    Mas a teoria também tem implicações profundas para as teorias raciais. Se todos os seres humanos são 99,9% semelhantes, nada justifica tratamento diferente para indivíduos iguais.

    A “regra de ouro” da ciência requer experimentação, replicação pública de resultados e verificação da informação. Se um erro é identificado, deve ser conhecido, para evitar novos erros. A comunidade científica precisa, para progredir, ser capaz de se autocorrigir e mudar de direção.

    Controvérsia científica e polêmica são comportamentos que pertencem a mundos diferentes. É responsabilidade social dos cientistas colaborar para que a sociedade seja capaz de distinguir uma controvérsia científica — o caminho necessário do não-saber para o saber — de uma mera polêmica — troca de opiniões sem evidências sólidas.

    Sob a vigência da covid-19, a comunidade científica no Brasil, em colaboração com a imprensa, tem dado um show de bola na difusão dos caminhos pelos quais a ciência se alimenta.

    Marta Arretche é professora titular do Departamento de Ciência Política da USP e diretora do Centro de Estudos da Metrópole. Foi editora da “Brazilian Political Science Review” (2012-2018) e pró-reitora adjunta de pesquisa da USP (2016-7). É graduada em ciências sociais pela UFRGS, fez mestrado em ciência política e doutorado em ciências sociais pela Unicamp, e pós-doutorado no Departamento de Ciência Política do Massachussets Institute of Technology, nos EUA. Foi visiting fellow do Departament of Political and Social Sciences, do Instituto Universitário Europeu, em Florença. Escreve mensalmente às sextas-feiras.

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