Coluna

O governador, a ciência e o muro de vidro da USP

    João Doria governa pela aparência: diz se aproximar de discurso científico enquanto propõe cortes letais às universidades e aos centros de pesquisa de São Paulo, investimentos protegidos pela Constituição Estadual

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    Quem passa pela Marginal Pinheiros em frente à USP (Universidade de São Paulo) vê a representação de uma obra tipicamente brasileira: o infame muro de vidro que delimita a raia olímpica do campus. Contrastando com a natureza pitoresca, o muro de vidro, que deveria ter mais de dois quilômetros de extensão, traz tristeza. A obra está abandonada, incompleta, com pedaços da construção original de cimento em mais de metade de sua extensão. Também está em ruínas, com várias placas de vidro quebradas. Desde o final de 2018, o canteiro de obras permanece intocado, sem que alguém se responsabilize por seu término ou manutenção.

    O muro de vidro foi ideia do então prefeito João Doria, que, tentando embelezar uma cidade admitidamente cinza e feia, firmou parcerias com entidades privadas para trocar o nada atraente muro de cimento por algo mais cenográfico, teoricamente sem custos para a prefeitura ou para a universidade. Nós, da USP, já víamos a obra como questionável. Meu laboratório, por exemplo, está localizado em um prédio que — apesar das melhores tentativas de uma equipe de manutenção que trabalha constantemente — tem goteiras, rachaduras, janelas que não abrem ou fecham corretamente, banheiros que tenho vergonha de mostrar para visitantes e uma série de outros problemas de infraestrutura. Mesmo assim, esse prédio produz ciência de qualidade internacional, às custas da enorme dedicação de seu patrimônio mais importante: os profissionais que abriga. Mas por que investir em uma obra com objetivo meramente estético, como o muro de vidro, se há tanto que se possa fazer em termos funcionais pela universidade? Não haveria interesse dessas mesmas entidades privadas em construir laboratórios, que não somente seriam bonitos, mas trariam conhecimento e desenvolvimento como retorno?

    A verdade é que qualquer investimento feito dentro do campus da USP provavelmente seria mais útil, mas muito menos visível que o malfadado muro de vidro. De fato, o muro surge como um excelente exemplo da visão do atual governo do estado sobre a ciência e o conhecimento produzidos pelos cientistas da universidade: a aparência é mais importante que o investimento e apoio verdadeiros; a forma é mais valorizada que o conteúdo.

    Jovens em quem investimos durante anos irão facilmente se incorporar aos melhores centros científicos do mundo se não tiverem perspectivas aqui

    Nada exemplifica esse posicionamento do governo Doria mais do que suas ações em meses recentes. Enquanto tenta se diferenciar do presidente ao dizer que suas atitudes em relação à atual crise sanitária se baseiam em ciência, o governo tem contraditoriamente atacado, por meio de projetos de lei, o sustento da ciência no estado. Primeiro propôs confiscar reservas financeiras necessárias para a Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) e para as universidades no Projeto de Lei nº 529, de agosto de 2020. Essa proposta foi retirada depois de manifestações massivas, por pessoas das mais diversas linhas políticas, em jornais de grande circulação. Mas os cientistas do estado nem ao menos puderam comemorar essa vitória, pois ocorreu quando o Projeto de Lei nº 627, de outubro de 2020, já estava proposto, novamente sugerindo cortes de verbas tão substanciais para a Fapesp que são incompatíveis com a manutenção das suas atividades em 2021.

    A nova proposta ignora que investimentos em ciência, tecnologia e desenvolvimento da Fapesp são protegidos pela Constituição Estadual, e principalmente ignora que ciência não é gasto, mas investimento que traz desenvolvimento. Ademais, desconsidera que paralisar a ciência não é uma atitude temporária, e que o tempo perdido não pode ser recuperado no futuro. São cientistas que formam a próxima geração de cientistas, e a formação destes demanda anos de atenção contínua. Se a lei for implementada, nosso estado perderá aquilo que até hoje semeia seu desenvolvimento e economia destacadas: ciência e tecnologia avançadas.

    Há alguns indícios de que o governo pode vir a negociar a proposta e preservar o modelo de gestão internacionalmente reconhecido da Fapesp, se acreditarmos nas palavras de Patricia Ellen da Silva, secretária estadual de desenvolvimento econômico. Na Alesp (Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo), deputados já propõem emendas que removem o corte de verbas à Fapesp e valorizam a importância da pesquisa científica. E a sociedade civil, representada pela Academia de Ciências do Estado de São Paulo, organizou um abaixo assinado que já soma quase 40 mil assinaturas contra o PL 627. Mas há também as declarações repetidas por Mauro Ricardo Costa, secretário estadual de projetos, orçamento e gestão, insistindo em cortes orçamentários científicos, incluindo falsas afirmações de que não faltam verbas para pesquisa no estado. Soma-se a isso o simples fato de que, após todas as manifestações contrárias a cortes de investimento em ciência e tecnologia propostos no projetos de lei 529, o PL 627 foi apresentado e assinado pelo governador, novamente propondo cortes letais à área científica. É impossível não questionar a posição desse governo com relação à ciência. Traz grave preocupação ao nosso futuro pensar que temos também o transparente e direto negacionismo científico do presidente Jair Bolsonaro.

    Como, nesse cenário, podemos convencer jovens cientistas e empreendedores da área tecnológica que vale a pena investir seu trabalho aqui, por meio de programas da Fapesp como o Auxílio à Pesquisa Jovem Pesquisador, ou a Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas? Cientistas possuem alto grau de escolaridade, são fluentes em inglês e já atuam internacionalmente por característica da profissão. Jovens em quem investimos durante anos irão facilmente se incorporar aos melhores centros científicos do mundo se não tiverem perspectivas aqui. Para não perder o investimento feito, precisamos de um governo que apoie a ciência, a tecnologia e o desenvolvimento como um todo, e não apenas diga que é cientificamente embasado, sem apoiar minimamente o setor, como previsto em nossa Constituição. E eu, como cientista já estabelecida no país, preciso de um governo que garanta a viabilidade da minha profissão, dedicando meu tempo à leitura de publicações acadêmicas, e não às minúcias de projetos de lei.

    Alicia Kowaltowski é médica formada pela Unicamp, com doutorado em ciências médicas. Atua como cientista na área de Metabolismo Energético. É professora titular do Departamento de Bioquímica, Instituto de Química da USP, membro da Academia Brasileira de Ciências e da Academia de Ciências do Estado de São Paulo. É autora de mais de 150 artigos científicos especializados, além do livro de divulgação Científica “O que é Metabolismo: como nossos corpos transformam o que comemos no que somos”. Escreve quinzenalmente às quintas-feiras.

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