Coluna

O fígado e o prêmio Nobel, ao longo da história

    Desde a década de 1940, grandes descobertas sobre esse fascinante órgão humano foram reconhecidas pela Academia Sueca

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    Entre 5 e 12 de outubro de 2020 são anunciados os prêmios Nobel, uma emocionante celebração da ciência com um selo de qualidade tão inquestionável que o mundo todo se junta às festividades. As comemorações já se iniciaram muito bem na segunda-feira (5), com o anúncio do prêmio em fisiologia ou medicina para cientistas que identificaram o vírus que causa a hepatite C. O trabalho dos pesquisadores Charles M. Rice, Harvey J. Alter e Michael Houghton identificou uma causa de danos ao fígado que não era associada à hepatite tipo A ou B, mas leva a lesões graves, de modo transmitido por transfusões de sangue. Ao encontrar o vírus responsável, eles puderam estabelecer modos de detectar sua presença em bancos de sangue e prevenir lesões aos fígados de pessoas que recebem transfusões. Essas lesões incluem cirrose (uma espécie de cicatrização com perda de atividade normal das células), perda da função do fígado e desenvolvimento de câncer.

    O fígado, sem dúvidas, é uma parte do corpo cuja proteção é meritória de Nobel. Trata-se do órgão que centraliza a maior quantidade de processos metabólicos – ou seja, de transformações de moléculas – no nosso corpo. Quando acabamos de comer, e temos glicose (açúcar) abundante circulante, o fígado é o principal órgão que armazena essa glicose, construindo moléculas de glicogênio, uma espécie de caderneta de poupança de açúcares, necessários para uso posterior. O mecanismo de formação dessas moléculas de glicogênio foi descrito por Gerty e Carl Cori, que foram agraciados com o Nobel em 1947 pela descoberta.

    O fígado também é responsável pela transformação de aminoácidos vindos de proteínas em outros tipos de moléculas, retirando nitrogênio desses aminoácidos e formando moléculas de ureia. Essa ureia é depois eliminada na urina, dando a ela sua cor e cheiro característicos. O processo de formação de ureia foi desvendado por Hans Krebs, outro laureado com Nobel em 1953, e que também desvendou o famoso ciclo de Krebs (ou ciclo do ácido cítrico), uma via central metabólica que congrega a degradação de carboidratos, proteínas e gorduras em vários órgãos, incluindo, é claro, o fígado.

    O fígado adicionalmente participa muito ativamente do metabolismo de lipídeos e colesterol, estudados por Konrad Bloch e Feodor Lynen, laureados com Nobel em 1964. As transformações de carboidratos e aminoácidos em gorduras envolvem a formação de uma molécula chamada acetil coenzima A (nós, bioquímicos, adoramos nomes complicados...), cuja identificação foi reconhecida com o Nobel a Fritz Lipmann em 1953, junto com Hans Krebs. Embora as pessoas de modo geral associem gorduras e colesterol a más condições de saúde, nada poderia ser mais longe da verdade. Ter quantidades normais de gorduras em nossos corpos é essencial como reserva de energia e para controlar os nossos níveis de açúcar circulantes: animais de laboratório criados para não ter como estocar gorduras são diabéticos. Além disso, colesterol é uma molécula essencial para a manutenção das nossas células. É apenas o excesso de gorduras e colesterol, comum em dietas contemporâneas, que é pouco saudável.

    O fígado, sem dúvidas, é uma parte do corpo cuja proteção é meritória de Nobel. Trata-se do órgão que centraliza a maior quantidade de processos metabólicos – ou seja, de transformações de moléculas

    Um dos motivos pelos quais a ingestão de altas quantidades de gorduras é pouco saudável é devido aos seus efeitos no fígado. Sabemos que, além de ser promovidas por vírus, lesões do fígado podem ser causadas pela ingestão excessiva de gorduras, que leva a esteatose (fígado gorduroso), que pode evoluir para cirrose e câncer. Um interesse grande atual do Laboratório de Metabolismo Energético da Universidade de São Paulo, que eu lidero, é entender mecanismos pelos quais a dieta leva a lesões do fígado, e esperamos ter em breve resultados novos e interessantes sobre como gorduras no fígado regulam o metabolismo de açúcares. Também estudamos atualmente como o fígado recicla e renova seus componentes através de autofagia, processo cuja descrição rendeu Nobel a Yoshinori Ohsumi em 2016.

    Há ainda muito mais que podemos estudar e entender sobre esse fascinante órgão. Fazemos pesquisas essenciais como essas em nosso laboratório apesar de uma pandemia que exige separar pessoas fisicamente mesmo quando elas exercem atividades que dependem de pensamentos conjuntos. Fazemos isso apesar de viver num país em que o apoio nacional ao cientista sempre foi ruim e piorou drasticamente na atual administração. Fazemos isso até agora com apoio do governo estadual, pois São Paulo historicamente investiu em ciência de modo exemplar, o que foi essencial para seu desenvolvimento destacado . Não sabemos, porém, qual o nosso futuro, pois o governo Doria se mostra claramente anticientífico, propondo primeiro o Projeto de Lei 529, que visa extinguir fundos de reserva para ciência e universidades, removendo mais de um bilhão de reais essenciais para nossos projetos. Como se não bastasse remover verbas para projetos de longo prazo e já em andamento, esse mesmo governo propôs agora outro Projeto de Lei de número 627, que visa remover 30% de investimento científico em 2021, comprometendo completamente projetos de aprovação futura.

    Em paralelo com a ciência, que por natureza já não é atividade fácil, somos obrigados a combater o obscurantismo político. Haja fígado para fazer ciência no Brasil!

    Alicia Kowaltowski é médica formada pela Unicamp, com doutorado em ciências médicas. Atua como cientista na área de Metabolismo Energético. É professora titular do Departamento de Bioquímica, Instituto de Química da USP, membro da Academia Brasileira de Ciências e da Academia de Ciências do Estado de São Paulo. É autora de mais de 150 artigos científicos especializados, além do livro de divulgação Científica “O que é Metabolismo: como nossos corpos transformam o que comemos no que somos”. Escreve quinzenalmente às quintas-feiras.

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