Coluna

Nunca se discutiu tanto, e se apoiou tão pouco, a ciência brasileira

    O projeto científico nacional não pode se basear em modismos, militância política ou visões míopes que priorizam a aplicabilidade imediata

    Nas últimas semanas, tanto a imprensa quanto as conversas informais foram inundadas por discussões científicas. Pessoas se interessaram em saber o que são vírus, como são transmitidos e inativados, como se interpretam modelos epidemiológicos, como são desenvolvidos equipamentos médicos e de proteção individual, como tratar infecções virais, e o processo pelo qual são desenvolvidas vacinas, dentre vários outros aspectos científicos ligados à pandemia. Disso, cria-se entre nós cientistas a esperança de que sairemos dos difíceis dias atuais para uma sociedade que reconheça e valorize mais a ciência.

    Mas se o interesse pela ciência traz esperança, as ações governamentais brasileiras são um tremendo balde de água fria. Pra começar, temos um presidente que, a despeito das claras evidências de que não há efeito benéfico no uso de hidroxicloroquina para pacientes de covid-19, continua insistentemente a impor o medicamento como forma de tratamento. Doenças não podem ser tratadas por militância ou ímpeto presidencial — a resposta de pessoas à infecção viral obedece somente às leis da natureza. Tratamentos para essa grave virose, assim como qualquer outra doença, necessitam ser respaldados pela ciência e acompanhados por profissionais de saúde com conhecimento profundo e atualizado.

    Infelizmente, não é só no absurdo de tentar impor tratamentos por decreto presidencial que a ciência tem sido cada vez menos apoiada no Brasil. As principais agências de fomento à pesquisa nacionais têm sofrido cortes constantes desde 2015, em face à crescente crise econômica e à falta de reconhecimento de que gastos governamentais em ciência são investimentos necessários para promover crescimento e retomada econômica. Como se essa grave falta de visão das necessidades nacionais não fosse suficiente, o governo atual mostra-se também muito ávido por decidir em que tipo de pesquisa deve-se investir. O resultado, na prática, é uma censura ao desenvolvimento de grandes áreas de conhecimento nacional.

    Um exemplo de delineamento de áreas para pesquisa ocorreu com a publicação, em 19 de março, de uma portaria definindo áreas prioritárias no âmbito do MCTIC (Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações). Essa portaria definia uma série de áreas tecnológicas e de aplicabilidade mais imediata como prioritárias, mas excluía completamente toda pesquisa básica, na área de humanidades e das ciências sociais. A portaria afeta desde já as bolsas institucionais de iniciação científica, destinadas a estudantes que praticam os primeiros passos que podem no futuro formar pesquisadores. Afetará futuramente também bolsistas de pós-graduação, pois fomos informados que a distribuição dessas bolsas está sendo reorganizada para ocorrer por meio de chamadas centralizadas em áreas estratégicas, por mecanismos ainda não divulgados. Após ampla reclamação de várias entidades educacionais e científicas, a portaria do MCTIC foi alterada em 27 de março para incluir pesquisa básica, de humanidades e das ciências sociais, mas a inclusão se dá em adendo, e de modo claramente desprivilegiado, com a limitação de “que contribuam para o desenvolvimento das áreas definidas”, delineadas na portaria original.

    As únicas pessoas capazes de reconhecer esses avanços pretendidos em projetos são outros cientistas estabelecidos, por meio da revisão por pares

    O preconceito demonstrado contra as ciências sociais e humanas é absurdo. Estamos passando hoje por uma das maiores e mais rápidas transformações sociais já vistas pela humanidade, e vamos deixar de estudar e entender essas mudanças e suas consequências porque temos um governo que tem preconceito contra uma área inteira de conhecimento? As ciências humanas são justamente aquelas que nos ajudam a entender quem somos, como interagimos, como pensamos, o que almejamos, e até mesmo como escolhemos os nossos líderes (um ponto que não deveria passar despercebido pelos indivíduos que idealizaram essa portaria). Não há como ter avanço nacional sem avanço das ciências humanas e sociais.

    Também não há como ter avanço nacional sem as ciências básicas, que buscam compreender novas propriedades do nosso universo, sem necessariamente almejar avanços aplicados imediatos. A ciência, justamente por estar testando os limites do conhecimento humano, não tem como ser previsível, e avança por caminhos nada lineares. Um exemplo atual para compreender a necessidade da ciência básica é o teste mais preciso para diagnóstico de covid-19, que é realizado por uma técnica, o PCR (polymerase chain reaction), que usa uma enzima da bactéria Thermus aquaticus. Essa bactéria foi originalmente encontrada em termas naturais, e estudada por mera curiosidade em relação a sua habilidade de sobreviver a altas temperaturas. Isso ocorreu muito antes de se reconhecer que uma de suas enzimas poderia se tornar uma poderosa ferramenta científica e diagnóstica, justamente por ser resistente a altas temperaturas.

    O país precisa de um projeto científico nacional sólido, contínuo e focado no apoio à pesquisa de alta qualidade, e não centrado em modismos, em visões míopes de possível aplicabilidade imediata e, muito menos, em militância política. Precisamos reconhecer e apoiar jovens inteligentes, criativos e engajados na exploração do nosso mundo. Temos que fomentar projetos que tenham perguntas verdadeiramente inovadoras, e tragam significativos avanços de conhecimento, sem exclusão de áreas ou aplicabilidade percebida por antecipação. As únicas pessoas capazes de reconhecer esses avanços pretendidos em projetos são outros cientistas estabelecidos, por meio da revisão por pares, porque estes trazem na sua formação o discernimento do que é um verdadeiro avanço de conhecimento.

    Ao excluir por decreto áreas de conhecimento científico, o governo exclui nossas possibilidades de progresso nacional. Ou você acredita que, há meramente um ano, algum representante no Palácio do Planalto reconheceria como prioritário um projeto científico que propunha estudar a evolução de coronavírus em animais silvestres?

    Alicia Kowaltowski é médica formada pela Unicamp, com doutorado em ciências médicas. Atua como cientista na área de Metabolismo Energético. É professora titular do Departamento de Bioquímica, Instituto de Química da USP, membro da Academia Brasileira de Ciências e da Academia de Ciências do Estado de São Paulo. É autora de mais de 150 artigos científicos especializados, além do livro de divulgação Científica “O que é Metabolismo: como nossos corpos transformam o que comemos no que somos”. Escreve quinzenalmente às quintas-feiras.

    Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

    Já é assinante?

    Entre aqui

    Continue sua leitura

    Para acessar este conteúdo, inscreva-se abaixo no Boletim Coronavírus, uma newsletter diária do Nexo: