Coluna

Na guerra das vacinas, confio na ciência

    Para ter cobertura vacinal em todo o mundo, precisaremos de vários imunizantes diferentes contra a covid-19 — e o desenvolvimento deles é apenas a ponta do iceberg de investimentos continuados em formação e desenvolvimento científico

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    Na semana passada foi lançado o movimento “Não sou tapado. Confio na ciência” nas mídias sociais uma tentativa de chamar atenção para a grave ameaça representada pela proposta de desfinanciamento da pesquisa científica em 2021, diminuindo o percentual de repasses públicos para a área, para além da já projetada queda de arrecadação. Para mim, há, nesse movimento, uma vontade de fazer mais do que reverter a estupidez de governos que não compreendem que ciência é investimento essencial, que gera desenvolvimento. E eu gostaria de mostrar de forma pública e disseminada que a ciência merece não somente apoio, mas também confiança, justamente por seu método envolver escrutínio e avaliação contínua. Gostaria de ver viralizar o sentimento de respeito ao processo científico.

    Nenhuma área demonstra mais a necessidade atual de confiança na ciência que o desenvolvimento de vacinas. Uma minoria muito vocal e crescente de pessoas sem conhecimento científico algum, reunida no movimento antivacina, tenta convencer o mundo de que vacinas são perigosas. É uma corrente que ameaça a ação mais eficiente de melhoria de saúde que a biomedicina foi capaz de desenvolver. É graças a vacinas que não temos mais que nos preocupar diariamente com varíola, poliomielite, sarampo, difteria, tétano e uma lista imensa de doenças contagiosas que assolaram a humanidade por milênios. Note que a pandemia de covid-19 ilustra muito claramente como é um mundo em que falta uma única vacina!

    Em contraste ao movimento antivacina, vejo também o excesso de confiança irracionalmente otimista de grande parte da população no desenvolvimento de vacinas como uma solução imediata e magicamente rápida para a pandemia de covid-19. Em vários momentos, encontrei pessoas que acreditam que a população será prontamente vacinada na sua totalidade ao termos confirmação de eficácia de uma única vacina dentre as várias em teste, sem nenhum tipo de dificuldade relacionada à produção, distribuição, conservação, aplicação, taxas de eficiência, tempo de manutenção da imunidade ou necessidade de priorização de populações para receber essa vacina, ainda imaginária.

    Vamos parar de torcer preconceituosamente por uma vacina ou outra e entender que precisaremos de várias

    Os “vacino-otimistas” não se limitam a acreditar que o desenvolvimento de vacinas — um processo que normalmente demora anos e compreende encontrar muitos erros antes de se chegar nos acertos — acontecerá da noite para o dia. Querem também debater qual vacina vai “ganhar” numa suposta corrida para seu desenvolvimento, e escolhem favoritos. Discutem que querem tomar vacina 95% eficaz, porque é melhor que uma vacina que mostra 90% de eficácia. Gostam de vacinas que carregam o nome de universidades centenárias e de prestígio, mas não do fato de que usam tecnologias modernas de RNA, sem ao menos saber o que é RNA. Acreditam, sem base científica alguma, que essa nova tecnologia (que permite desenvolvimento rápido e surpreendeu nos testes iniciais de eficiência) pode “modificar seu DNA”. Tudo que comemos contém RNA, sem nunca ter causado medo nessas mesmas pessoas. Temos ainda o mais forte preconceito contra a vacina que ainda não existe, aquele com grande inclinação e incitação política, por meio daquelas pessoas que não aceitam tomar uma vacina de origem chinesa.

    Como cientista, leio diariamente trabalhos produzidos na China. A ciência chinesa se assemelha à sua produção de produtos comerciais: é enorme, e de qualidade muito variada, indo do péssimo ao excelente. A vantagem da ciência é que ela tem mecanismos para testar a qualidade de modo independente de quem produziu o conhecimento originalmente, e se autocorrige com o tempo e com mais escrutínio. O resultado é que, apesar de inegavelmente haver muitos estudos de baixa qualidade gerados na China (como há em qualquer lugar do mundo), os trabalhos de alta qualidade são selecionados e ganham destaque, impulsionando o desenvolvimento. De fato, se há um país que demonstra que ciência gera desenvolvimento, esse país é a China, que investiu pesadamente na área e na formação e fixação de cientistas, gerando seu impressionante boom econômico.

    A realidade é que só uma pessoa muito tapada poderia achar que consegue viver sem produtos da China nos tempos atuais — isso iria requerer se livrar de todos seus eletroeletrônicos, roupas, produtos e conveniências modernas, voltando à idade da pedra. Vamos parar de torcer preconceituosamente por uma vacina ou outra e entender que precisaremos de várias diferentes para ter cobertura vacinal em todo o mundo. Precisamos entender também que o desenvolvimento destas é apenas a ponta do iceberg de investimentos continuados em formação e desenvolvimento científico, em todas as áreas.

    Ainda não temos vacinas comprovadamente seguras e eficazes disponíveis para o público geral, e os números apontam para o perigo de se afrouxar a guarda agora. Por isso, sigo a ciência, pratico distanciamento físico e uso máscaras. Quando houver disponibilidade de uma vacina contra covid-19 para o meu grupo e em minha região, eu vou fazer meu dever humanitário e tomá-la, independentemente de qual vacina for, sem preconceitos, e com base em dados científicos consolidados que embasaram sua disponibilização. Eu confio na ciência.

    Alicia Kowaltowski é médica formada pela Unicamp, com doutorado em ciências médicas. Atua como cientista na área de Metabolismo Energético. É professora titular do Departamento de Bioquímica, Instituto de Química da USP, membro da Academia Brasileira de Ciências e da Academia de Ciências do Estado de São Paulo. É autora de mais de 150 artigos científicos especializados, além do livro de divulgação Científica “O que é Metabolismo: como nossos corpos transformam o que comemos no que somos”. Escreve quinzenalmente às quintas-feiras.

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