Coluna

Não devemos ter vergonha de nada

    O constrangimento e a desconfiança funcionam como instrumentos de controle das aspirações de pessoas negras

    Durante as minhas aulas, costumo sempre dizer a minhas alunas e alunos que histórias de pessoas comuns podem conter verdadeiras evidências de determinado momento histórico. Utilizarei dessa mesma metodologia citando um episódio familiar para discutir como constrangimento, vergonha e desconfiança são instrumentos de controle das aspirações das pessoas negras, sejam essas aspirações pessoais ou políticas.

    Desde criança, eu escutava aqui e ali que meu pai já havia sido preso. Na primeira vez que ouvi algo sobre a suposta prisão do meu pai, eu era tão criança, que ignorei o assunto. Depois, quando ouvi novamente fiquei pensando se meu pai havia roubado ou feito mal a alguém, e senti, sozinha, uma vergonha profunda.

    Quando me tornei uma jovem adulta, já na faculdade de história, a minha avó, mãe do meu pai, finalmente me chamou um dia para quase que em segredo me falar desse episódio. Vovó, muito constrangida, não me falou o motivo, mas me disse que quando meu pai foi preso aquela havia sido a maior vergonha da sua vida e do meu avô. Foi assim que, vagamente, vovó me disse que meu pai foi preso porque se meteu com política. Somente pelo prestígio do meu avô, que era funcionário da Rede Ferroviária Federal na cidade do interior onde viviam, que o delegado soltou meu pai, que naquela época era um jovem estudante do que hoje chamamos de ensino médio.

    Em prantos, a minha avó paterna me disse que, a despeito da vergonha, meu avô foi à delegacia e garantiu que meu pai nunca mais causaria aquele tipo de problema. Daquele dia em diante a relação dos dois não seria mais a mesma. Meu pai veio para casa acompanhado do meu avô de cabeça baixa, os dois em silêncio. Entrando na casa, vovô disse a ela: “aí o seu filho. Da próxima vez ele fica lá.”

    Eu sei que vovó só me contou essa história porque eu era estudante de história. Ela imaginava que eu entenderia mas não me explicou direito o motivo desse segredo familiar. Foi somente um ano antes de morrer que meu pai, internado no hospital, finalmente retomou o assunto comigo e de repente me disse: “você sabe que eu já fui preso, não sabe?” E finalmente me deu sua versão do que aconteceu. Contou-me ele que na década de 60, portanto durante a ditadura, ele era estudante de ensino médio e presidente do grêmio estudantil da sua escola. Como liderança estudantil, decidiu escrever uma carta para um político de esquerda convidando o mesmo para dar uma palestra falando da conjuntura política do Brasil ditatorial. A tal carta foi interceptada pela polícia da sua cidade, que entrou na sua sala de aula com a carta na mão pedindo que ele se identificasse. Foi assim que meu pai foi levado para a delegacia para prestar “esclarecimentos”. Não adiantou meu pai tentar inventar uma outra história dizendo que achava que o político era professor de matemática. Ficou preso algumas horas e só saiu quando meu avô interveio.

    Eu expliquei para o meu pai que ele não deveria ter vergonha do episódio e lhe falei o que significava ser um preso político. Enquanto a luta pela democracia, com justa razão, é motivo de orgulho para muitas pessoas, foi diferente para meu pai, um homem negro e pobre. A sua tentativa de atuação política contra a ditadura tornou-se um objeto de constrangimento para ele e sua família. Aquele episódio lhe foi tão traumático que ele passou a ter profunda simpatia pela carreira militar, a qual nunca seguiu, mas queria, quase que obsessivamente que seu seu filho, meu irmão, seguisse. Seria isso uma forma de redenção? Lembro-me de vovó tratando da prisão como uma lição: “viu? a gente não deve se meter em política”.

    Depois de falar do meu próprio pai, revelo que sim, esse artigo pretende falar da curta carreira do quase futuro ministro Carlos Alberto Decotelli da Silva na pasta da Educação. Confesso que tentei ignorar esse assunto porque o ministro não precisa nem da minha acusação nem da minha defesa.

    Enquanto homens brancos são chamados de garotos quando cometem seus deslizes, as pessoas negras estão sempre confirmando a desconfiança inicial das pessoas

    Porém, dois fatos que me encorajaram a debater o assunto. Primeiro, a entrevista constrangedora na porta do Palácio do Planalto em 29 de junho, na qual o ex-ministro tentava explicar as incongruências no seu currículo. O segundo e principal motivo que me fez tratar do assunto foi perceber o quanto esse episódio atingiu as pessoas negras das classes populares, sobretudo as de uma determinada geração, que aqui e ali falavam do seu constrangimento e urgência de se desvincularem da pecha de “negro mentiroso”, como o tal ministro.

    Vergonha, constrangimento e o convívio com a desconfiança são experiências comuns na vida das pessoas negras, sejam elas de esquerda ou de direita, acreditem elas na meritocracia ou não. Vivemos sob o fardo da cobrança de nos explicarmos. Afinal, desde a tenra idade a premissa maior é de que estamos, a princípio, mentindo. Quando “pegos ou pegas na mentira” ou no deslize, ou no equívoco, o tribunal moral é fatal, sem segunda chance.

    Diz Frantz Fanon em “Pele negra, máscaras brancas” que, na busca por aceitação e reconhecimento da sua humanidade, algumas pessoas negras se transformam no que um branco ordenou que se tornassem, para atender às suas demandas. Esse seria um caminho para a humanização.

    A professora Joana D’arc Felix de Sousa já era brilhante, mas teve que se tornar alguém capaz de algo incrível: Entrar na Universidade Estadual de Campinas aos 14 anos! A despeito dos quase 80 prêmios nas áreas de química, sustentabilidade e responsabilidade social, foi o tal “pós-doutorado de Harvard” que quase que acabou com a carreira da professora/pesquisadora. A professora quase teve sua história contada num filme, pois a sociedade brasileira também queria ter tido sua “negra brilhante” ao modelo de Michelle Obama ou das cientistas negras da Nasa do filme “Hidden Figures” (a tradução brasileira, “Estrelas além do tempo”, é terrível). Todo mundo adorava e admirava a Dra. Joana D’arc quanto ela estava nas palestras lotadas de pessoas brancas encantadas pelo seu discurso de “superação”, atuando como garota propaganda da meritocracia, mas bastou ser “pega na mentira” que tudo acabou.

    Falando em meritocracia, o governo Temer bem que capitalizou com o fato de colocar a “primeira juíza negra do Brasil”, a desembargadora Luislinda Valois, como ministra de Direitos Humanos do seu governo no ano de 2017. Porém, bastou a ministra comparar sua confortável aposentadoria e cargo no governo a trabalho escravo, que a pena pela analogia infeliz foi fatal: a ministra perdeu o cargo e foi escrachada na imprensa como exemplo do esnobismo e da sanha por dinheiro das pessoas privilegiadas do país, logo ela cujos pai e mãe eram pessoas pobres, e que em todas as suas palestras conta a história do dia em que a professora lhe disse que ela deveria se preparar não para ser juíza, mas para “trabalhar na cozinha da branca”.

    Como já falei anteriormente, os rituais públicos de humilhação aos negros e negras “mentirosos e arrogantes”, não poupam os/as que são de direita ou se esquerda, conservadores, liberais ou humanitários, militantes ou não.

    O ex-ministro do Supremo Tribunal Federal Joaquim Barbosa foi alvo de ataques racistas após condenar dois políticos de esquerda sofreu duros ataques racistas e foi considerado o “negro arrogante”, ao contrário dos bons negros humildes, estes sim exemplares. A humildade aqui foi entendida como condição fundamental para que uma pessoa negra seja bem quista pelos brancos.

    Agora vejam bem, que moral tem esse país de chocar-se com as mentiras do ex-ministro relâmpago Carlos Decotelli da Silva, já que tem um ministro denunciado por envolvimento em desvio de verba de campanha eleitoral, outro por cometer improbidade administrativa e sugerir que “se passe a boiada” durante a pandemia? E outra e outros que afirmam que juízes do Supremo Tribunal Federal deveriam ser presos, além de outras perversidades, incompetências e mentiras no currículo, além de denúncias de corrupção de tantos membros da elite branca e que compõem a classe política brasileira?

    É óbvio que não defendo aqui o ex-ministro relâmpago, mas aponto o quanto pessoas negras servem a diversos interesses todas as vezes que querem mostrar como se pune um arrogante ou um mentiroso: enquanto homens brancos são chamados de garotos, embora sejam adultos quando cometem seus “deslizes”, as pessoas negras estão sempre confirmando a desconfiança inicial das pessoas que lhes observam e analisam.

    Ainda segundo Fanon, é o racista que cria o inferiorizado. Se querem confirmar a meritocracia, buscam o negro ou a negra encantada capazes de conquistas extraordinárias, a despeito da pobreza de onde saíram. Contudo, se querem dar uma lição, sobretudo às pessoas negras que tem ambições públicas e ou políticas, poupam as pessoas do seu grupo racial, de onde poderiam sem dificuldade tirar muitos maus exemplos, e também usa-se o negro: “Olha ali, é um mentiroso ou mentirosa arrogante.”

    Eu digo que a esse país, e à elite brasileira, não devemos absolutamente nada! Assim como as pessoas brancas, também temos (as pessoas negras) direito a ser indivíduo, nas nossas diferenças e discordâncias. Se nós temos nossos constrangimentos, as pessoas brancas, como um coletivo, também passam por uma enorme crise de representatividade.

    É por isso que eu acho que não devemos ter vergonha de nada, pois pelo que nos foi deixado, esse país ainda nos carece de agradecer pelo que temos feito.

    Enquanto isso, o novo coronavírus já matou quase 65 mil pessoas no Brasil. Alguém tem vergonha disso? Quem vai nos pedir desculpa?

    Luciana Brito é historiadora, especialista nos estudos sobre escravidão, abolição e relações raciais no Brasil e EUA e é professora da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. É autora do livro “Temores da África: segurança, legislação e população africana na Bahia oitocentista”, além de vários artigos. Luciana mora em Salvador com sua família, tem os pés no Recôncavo baiano, mas sua cabeça está no mundo. Escreve quinzenalmente às terças-feiras.

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