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Coluna

Manda notícias de Salvador: a ocupação popular dos espaços e o direito à cidade

    A exclusão econômica sempre foi um mecanismo usado pelas elites brasileiras para promover a separação racial em espaços de lazer, cultura e convívio

    O verão em Salvador tem nos servido como uma pausa, e a despeito do momento assustador que vivemos, parecemos felizes (ou tentamos). Talvez por causa disso é que, são nesses dias de sol que temos energia para disputar os lugares soteropolitanos onde queremos estar, num protesto silencioso, ou por vezes barulhento.

    Um exemplo disso é a praia.

    Na noite do réveillon, enquanto as pessoas endinheiradas da cidade celebravam a passagem do ano nas festas caras ou nos seus apartamentos igualmente luxuosos, as famílias negras soteropolitanas se espalharam pelas calçadas da orla e montaram suas ceias do ano novo. Enquanto eu caminhava com minha pequena família em direção ao meu pedacinho na praia para saudar 2020, vi mesas fartamente montadas à beira mar, com cadeiras, berços, famílias inteiras aguardando a chegada do ano novo.

    Achei aquilo tudo muito interessante, criativo e resistente. Ali estava uma forma de ocupação do espaço e de manifestação de direito à cidade. Aquelas famílias moradoras de bairros populares, alijadas de serviços públicos e do acesso ao lazer todos os dias numa cidade segregada como Salvador, ao definirem que tinham direito ao seu pedaço de terra na praia, de certa forma estavam transgredindo noções do que seria o seu lugar natural. Como diria Grada Kilomba, estavam furando a “membrana” que restringiria seu acesso a determinados espaços da cidade.

    Ter a praia como espaço de disputa, lazer e cenário de desigualdades é algo histórico. Nos Estados Unidos segregado da primeira metade do século 20, a praia (ou as piscinas) eram espaços que reproduziam a mesma ordem social de qualquer outro espaço onde negros e brancos estivessem. A ideia de contágio, de sujeira, as ansiedades fantasmagóricas de a população branca estadunidense estar compartilhando um espaço com pessoas negras com pouca roupa, despertava o medo do contato sexual entre negros e brancos. Tanto na região norte como sul daquele país, brancos determinaram que, no momento de lazer, também, como era de se esperar, negros e brancos deveriam estar separados.

    Quando, em 1964, um grupo de ativistas, negros e brancos, decidiram se banhar juntos na piscina de um hotel na Flórida, o gerente jogou ácido na piscina, numa reação chocante. Além do conhecido argumento de que negros e brancos pertenciam a raças distintas, e que uma era superior à outra, novamente o medo de “contágio” de doenças sexualmente transmissíveis, dentre outras coisas, justificaria a proibição do acesso de negros às piscinas “de branco”.

    Obviamente, a comunidade afro-americana resistiu. Parques de diversões, praias e piscinas foram alvo de protestos de pessoas negras que reivindicavam seu direito ao lazer. A reação dos jovens brancos era violenta: diversos foram os ataques físicos e verbais contra pessoas negras que “ousassem” acessar o espaço de lazer dos brancos. Finalmente, mesmo em 1964, quando a lei de Direitos Civis tornou ilegal a segregação de espaços públicos, o impedimento à integração racial continuou, afinal não seria uma lei que estabeleceria a normalidade de ver negros e brancos na mesma praia ou piscina. Ainda em 2009, um grupo de crianças negras foi acusado de fugir do padrão dos sócios de um clube de natação na Filadélfia.

    No Brasil, ao modo das elites brasileiras, também tivemos (e ainda temos) nossa versão de segregação racial e de classe nos espaços de lazer, inclusive nas praias e clubes. Lembremos que aqui a exclusão econômica, vista pelo senso comum como menos grave, sempre foi um mecanismo para se promover segregação racial. Sob o argumento de “não importa a cor, desde que se tenha dinheiro”, os espaços de lazer brasileiros garantiram a exclusão de pessoas negras. Isso me lembra a fala de um ex-diretor de um tradicional clube baiano, no qual as elites soteropolitanas praticavam tênis e também frequentavam a piscina. Recentemente, comentando o trecho da música de Gilberto Gil, "Tradição" (1973), na qual um verso diz que: “preto não entrava no Baiano nem pela porta da cozinha”, o antigo diretor afirmou que isso nunca havia existido, pois “era uma questão de pedigree...”

    Na verdade, Gil sabia que negros, mesmo aqueles poucos negros de classe média da cidade de Salvador, seriam hostilizados no clube ou ocasionalmente persuadidos a desistirem de usufruir daquele espaço. Mesmo que não tenha havido um episódio fatídico, no modelo da segregação dos EUA com uma placa de “whites only” ("somente brancos"), a existência de um espaço branco na maior cidade negra fora da África foi algo que não fugiu dos olhos atentos do artista.

    Mais do que um debate sobre lazer ou sobre educação, o direito de estudar, trabalhar ou se divertir da forma ou no lugar que quisermos é um debate sobre direito à cidade. No caso do verão de Salvador, nada mais justo que a população negra tenha direito a isso

    Um artigo muito interessante do historiador Bert Barickman nos revela como, na primeira metade do século 20, a praia também foi se consolidando como um espaço das elites brancas cariocas. No texto intitulado “Passarão por mestiços”, Barickman discutiu uma mudança de comportamento das elites brasileiras, tendo a praia de Copacabana como cenário. Nas primeiras décadas do século 20, adotando um costume em voga nos Estados Unidos e na França, os brancos brasileiros deixaram para trás o padrão de beleza que definia que o belo era ter a pele rosada e alva. No início século 20, o bronzeamento foi visto como sinônimo de saúde e até mesmo de privilégio de classe, uma vez que não era para todo mundo ter uma pele cuidadosamente bronzeada, adquirida somente por quem teve direito a um momento de lazer ao sol.

    Assim, a cor morena tornou-se a cor da moda, e a praia, um espaço de sociabilidade das elites. Como a miscigenação racial, ao contrário dos Estados Unidos, não era um tabu no Brasil, de acordo com Barickman era adequado e até recomendado que, na tonalidade certa, os jovens das elites aderissem ao costume de se bronzearem. Uma vez que essa condição era temporária, tornar-se moreno era algo desejável durante o verão.

    No caso das mulheres brancas, tornar-se morena poderia lhe conferir certo valor no mercado sexual e do flerte durante o verão. A tal “marquinha” do biquíni destacaria “a cor que se tem” daquela “cor que se pega”, evidenciando assim a pele originalmente branca daquelas que, temporariamente, estavam “experimentando” viver a fantasia da suposta sensualidade natural das mulheres negras. Assim, na busca pelas associações com aquilo que a indústria cultural e do turismo atribuiu ao Brasil, sobretudo às mulheres brasileiras, inclusive às mulheres brancas, o tom de pele bronzeado distanciaria o branco brasileiro (moreno) do branco estrangeiro (gringo), cuja vermelhidão da pele revela sua inadequação ao sol.

    Barickman afirmou que, dessa forma, foram reforçadas as narrativas latino-americanas da mestiçagem como formadora de uma raça forte, resistente e que se adequa bem à natureza tropical. O autor do texto ainda contesta a afirmativa de Gilberto Freyre, que defendeu que a busca pela “morenice” seria uma prova da ausência de racismo do branco brasileiro.

    A branquitude brasileira lançou mão de outros elementos para demarcar bem o seu espaço na praia, segundo Barickman, garantindo que esse espaço fosse um espaço branco: o cabelo liso e demais traços faciais seriam marcas que permitiriam diferenciar quem era um “moreno de verão” de quem era negro. A classe social também não permitiria confusão: profissão, escolaridade e bairro onde morava dariam conta de localizar “quem era quem” na praia. A escassez de transporte público (como acontece até hoje) e, na primeira metade do século 20, a proibição de entrar no ônibus em trajes de banho eram fatores que dificultavam as famílias cariocas trabalhadoras do acesso ao lazer.

    Tudo isso fez com que Copacabana e Ipanema se tornassem locais das elites, dos artistas, dos brancos. A imprensa da década de 1950 até traçou uma geografia da praia, após observar que, até as 8h da manhã, assim como hoje, Copacabana era a praia das babás e das cozinheiras. Elegeram portanto o horário de 11h às 13h como o “horário elegante”, apropriado para o lazer e a sociabilidade. Por fim, foi somente nos anos 1960 e 70 que a praia tornou-se mais democrática, pois finalmente os pobres ocuparam Copacabana, o que foi possível sobretudo pela popularização do sistema de transporte público. Isso fez com que, desde aquela época, os ricos e famosos cariocas passassem a se “bronzear” para os lados de Ipanema.

    Assim como no Rio, as elites brancas de Salvador também têm suas estratégias para “não se misturar”. Por aqui, existem os condomínios fechados que fazem da praia algo privado, a sabotagem das linhas de ônibus escassas durante os finais de semana ou até mesmo o hábito de ir à praia bem cedo “antes que o povão chegue”.

    Lembremos que, na Bahia, de cada 5 pessoas 1 se declara preta. Segundo os dados do IBGE para 2018, esse é o estado que possui um maior número de pessoas auto-declaradas pretas, superando o número de auto-declarados brancos. Juntos, negros e pardos, somos 81,1% da população, e os números da cidade de Salvador são parecidos. O bairro do Calabar, vizinho do bairro da Barra, onde está uma das praias mais belas da cidade, é onde se concentra a maior quantidade de lares negros do estado.

    O bairro do Calabar é um perfeito exemplo das tensões de uma cidade desigual e segregada. Isso porque a comunidade é um exemplo de resistência à especulação imobiliária que determina onde pretos e pobres devem viver: distante da orla mar��tima e distante do centro da cidade. De acordo com Inaia Moreira de Carvalho e Vanda Sá Barreto, no Calabar, assim como em Cabula e em Engenho Velho da Federação, entre outros, a presença negra remonta dos séculos 18 e 19, pois eram quilombos ou, mais tarde, terreiros de candomblé em torno dos quais uma comunidade negra foi se instalando, construindo suas residências. Outros bairros de quase totalidade de moradores negros, como o Nordeste de Amaralina (também perto da praia), o bairro da Liberdade, Cajazeiras, Bairro da Paz e Subúrbio Ferroviário, não por acaso, são os locais onde não chegam a coleta de lixo, os serviços públicos e privados fundamentais, onde o sistema de transporte e de saúde é deficitário. Tendo um impacto nefasto sobre a juventude dos bairros periféricos, também não há teatro, cinema, áreas de práticas de esporte, biblioteca, museu — os bens culturais (quase) determinantes para definir quem será quem na sociedade, no mundo do trabalho, enfim, na vida.

    Enquanto isso, ainda segundo as autoras, nos bairros nobres, onde vivem muito menos que 10% da população da cidade, é onde se concentram as instituições e espaços de cultura e as maiores oportunidades de emprego. Essa mesma cidade guarda em si outro número que revela esse fosso de desigualdade: o bairro do Itaigara, por exemplo, tem o IDH maior que o da Noruega.

    No outro extremo, na Bahia, ser uma mulher, negra, mãe e solteira pode significar estar abaixo da linha da pobreza. Elas são 75% das pessoas nessa condição. Digamos que uma dessas mulheres, moradora da cidade de Salvador, faça faxina no bairro do Itaigara. O trajeto entre a sua casa e o trabalho é como atravessar dois mundos completamente opostos: uma Europa e um país latino-americano pobre, no mesmo dia. Entretanto, o corpo negro dessa mulher, enquanto trabalhadora, não fere a lógica segregacionista do bairro. Pessoas negras de Salvador sabem muito bem o que isso significa. Afinal, em bairros como esse, há sempre um segurança parecido conosco para nos perguntar “o que estamos fazendo ali”. Portanto, nos bairros brancos, assim como nos shoppings, nos cinemas, nos parques, nos restaurantes e nas festas “deles” não podemos ficar “de bobeira”.

    Isso me faz recordar minha escola de ensino médio, o Colégio Odorico Tavares, uma escola pública localizada num outro bairro tradicional de Salvador, o Corredor da Vitória.

    Quando eu saía do meu bairro, Sete de Abril, num trajeto que durava cerca de uma hora e meia, ir para a escola significava entrar em outro mundo. Era o mundo das artes, do cinema, das bibliotecas, a Salvador do centro, perto de centro histórico, enfim, a Salvador “de verdade”. Contudo, essa Salvador ficava cercada por uma barreira branca. Ir para a escola, todos os dias, significava atravessar esse muro. Como estratégia para justificar nossa presença no bairro, não ousaríamos transitar ali sem o uniforme escolar.

    Assim como na praia, nossa presença ali não era bem vinda e, portanto, fardamento e “comportamento adequado” eram tentativas juvenis e quase inocentes de afirmar que merecíamos e queríamos estar ali. O Colégio Odorico Tavares era a proposta de oferecer um ensino de excelência para xs filhxs dos pobres. Para nós, além disso, era a possibilidade de sair dos nossos bairros, onde boa parte das pessoas da nossa idade nem trabalhava e nem estudava. Estudávamos perto das universidades e passamos a entender que, além da proximidade geográfica, o ensino superior poderia ser uma possibilidade real. A minha professora de história foi quem me convenceu a fazer vestibular para esse curso, alegando que eu seria “uma boa historiadora”. Dali nutri meu desejo de um dia entrar na Universidade Federal da Bahia. Ou seja, como sempre, foi a educação. Foi estudando nessa escola que pude observar as desigualdades da cidade, estar ciente do lugar que eu ocupava na “geografia da desigualdade” e lançar mão de estratégias para furar essas barreiras. Minhas aulas de história e de filosofia me ajudaram muito nisso.

    O colégio Odorico Tavares está em vias de fechar. Segundo o governo do Estado da Bahia, por estar numa área muito valorizada pela especulação imobiliária, com a venda do prédio da escola poderão ser abertas diversas escolas de excelência na periferia. O argumento de que as famílias preferem que seus filhos e filhas estudem perto de casa e que portanto não gastem dinheiro com transporte não procede. Cientes de que seus bairros são verdadeiras áreas segregadas distantes de oportunidades, a estratégia de famílias pobres e negras é, na verdade, projetar seus filhos e filhas para o centro da cidade, pois essa é a região onde se concentram as possibilidades de trabalho, além de bens culturais.

    Essa não é uma particularidade baiana e vai além das reflexões sobre educação. Assim como o lazer e a praia, o que está em questão aqui é, também, o direito à cidade. Como afirmou David Harvey, a região da minha escola, um local também muito próximo da orla de Salvador, é um território fértil para geração de lucro para as elites. Segundo Harvey, a política para as cidades, cada vez mais influenciada pelos negócios imobiliários, tornam-se espaços de aprofundamento de desigualdades, onde os centros urbanos são esvaziados e a qualidade de vida tornou-se uma mercadoria. A justificativa é que somente o empresariado saberá fazer o melhor uso dos espaços privilegiados, decisões essas tomadas sem consulta popular.

    O trânsito entre dois mundos, o da escola e o do bairro onde se mora, também acontece entre os estudantes negros da cidade de Chicago. Segundo Carla Shedd no seu livro “Unequal city: race, schools and perceptions of injustice” ("Cidade desigual: raça, escolas e percepções de injustiça"), as intersecções entre raça e lugar podem ser percebidas nas oportunidades e desafios encontrados entre adolescentes negros que moram em bairros periféricos e nas áreas privilegiadas. Se há um choque entre transitar entre esses dois mundos, por outro lado foi assim que eles se tornaram cientes das desigualdades às quais estavam sujeitxs. Se não saíssem do bairro onde moram, nunca estariam cientes disso. O que orienta essa “geografia das oportunidades” ou a “geografia da exclusão” é a justificativa da segurança, que serve aqui para perpetuar desigualdades. Assim como em Salvador, a alternativa encontrada para melhorar o desempenho escolar destes estudantes de Chicago foi relocá-lxs para escolas a serem construídas nos seus bairros, aprofundando assim a segregação e desigualdade racial. Tendo em vista que, lá e cá, ir para a escola é a única razão que faz com que estes jovens saiam do seu bairro, confinados em escolas próximas de suas casas, eles mal conhecerão a cidade em que vivem, o que já acontece.

    Portanto, mais do que um debate sobre lazer ou sobre educação, o direito de estudar, trabalhar ou se divertir da forma ou no lugar que quisermos é um debate sobre direito à cidade. No caso do verão de Salvador, nada mais justo que a população negra, que é a maioria e também a força vital e alegria da cidade, tenha direito a isso. Assim como em tudo, estamos prontxs para essa disputa, seja no lazer, na educação, no direito à moradia ou na política.

    Um exemplo disso? O movimento #vaitergorda que ocupou a praia da Barra no dia 12 de janeiro, um domingo de sol. Na pauta, estavam a luta contra a gordofobia e a defesa da presença em espaços públicos. A presença dessas belas mulheres, a maioria delas negras, foi o que deixou a praia da Barra ainda mais bonita.

    O protesto praieiro foi lindo e a galera que, costumeiramente, vai para a praia cedinho não viu e perdeu a oportunidade de ver. Como nos sugere Luedji Luna, o próprio cotidiano da cidade, na sua dinâmica, faz com que os dias nunca sejam iguais. Enfim, é só o começo do verão em Salvador, mandarei notícias.

    A praia é nossa! O Colégio Odorico Tavares Resiste!

    Luciana Brito é historiadora, especialista nos estudos sobre escravidão, abolição e relações raciais no Brasil e EUA. É professora da Universidade Federal do Recôncavo e também integra uma organização de mulheres chamada Rede de Mulheres Negras da Bahia. É graduada em história pela Universidade Federal da Bahia, mestre pela Unicamp, doutora em história pela USP e pós-doutora pela City University of New York. É autora do livro “Temores da África: segurança, legislação e população africana na Bahia oitocentista”, além de vários artigos. Luciana mora em Salvador com sua família, tem os pés no Recôncavo baiano, mas sua cabeça está no mundo. Está no Instagram como @lucianabritohistoria. Escreve quinzenalmente às terças-feiras.

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